quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

O INJUSTO







Nuvens negras de um aspecto ameaçador avançavam ao oeste, indo em direção ao vilarejo. Passavam quase raspando o topo das colinas próximas a ele. Raios e trovoadas agitavam ainda mais aquela massa negra e um vento impetuoso varria para longe as folhas secas das ruas do vilarejo. O lusco-fusco já imperava, mas as nuvens haviam encoberto o sol, trazendo assim o cobertor negro da noite mais cedo.
Os fieis da rústica igreja de São Francisco nem se davam conta que a pouco uma tormenta chuvosa tomaria conta da cidade. Ficaram o início e o meio da missa concentrados, acompanhando o folheto ou ouvindo as belas e sábias palavras de instrução do padre Igor. Agora já no final, entoavam um hino de louvor pós-benção:

“Justo é nosso Deus que salva o oprimido e pune o opressor,
Justo é nosso Deus que faz justiça entre os povos,
Bom é nosso Deus, que não dorme e guarda seus filhos dia e noite”

A voz que mais se fazia ouvir era a do velho padre Igor, que não precisava do aparelho inventado por Huges para ter um aumento de intensidade na voz. Juvenil, o grande amigo do padre, acompanhava próximo ao altar o hino com seu violão de muitos verões, que na verdade não se fazia ouvir em meio a tantas vozes.
De repente a grande porta principal de madeira fora aberta, revelando três policiais que acabaram de chegar. Os fiéis se assustaram. Hino e violão cessaram. O único que não percebera aquilo fora o padre, continuava a cantar, de olhos fechados, mergulhado talvez na meditação dos versos do hino.
Os guardas então avançaram pelo corredor central e param diante de Juvenil:
_ Você está preso! – disse o mais alto, em altos brados.
Com isso o padre parou de cantar e abriu os olhos, parecia mesmo acordar de uma meditação, quando viu os policias também ficou assustado.
_ Como? – disse Juvenil se levantando tremulo.
_ Está preso acusado pelo assassinato de Pitu. Demorou anos meu chapa para descobri-lo. A justiça tarda, mas nunca falha.
Os outros dois guardas então avançaram, um deles ordenou a Juvenil que estendesse os braços e ao fazer isso, Juvenil fora algemado, depois os guardas se postaram ao lado dele, um de cada lado.
_ Mas o que é isso? Que absurdo é esse? – disse o padre se aproximando, estava perplexo – Juvenil jamais seria capaz de matar um pernilongo que insiste em picar-lhe as orelhas quanto mais a uma pessoa...
_ Mas o fato padre, - disse o policial mais alto - é que ele matou sim. Há muito tempo, mas graças às pistas conseguimos chegar até o assassino. Não temos dúvidas de que ele seja o culpado. Temos provas.
_ Eu... – dizia Juvenil – jamais... estão... estão enganados...
_ Ho! É mesmo? – zombou o policial á sua esquerda – E minha avó com oitenta e sete anos escalou o “Pico da Neblina”.
Os outros dois policiais riram.
_ Vamos. – disse o policial mais alto – Há uma toca lotada á espera de mais um rato imundo.
E então os três policias saíram, levando consigo um Juvenil que era puro soluço e desespero.
Lá fora a tempestade começava a cair.
A igreja então virou um alvoroço. Os fiéis exclamavam e interrogavam. Também achavam que Juvenil era inocente, pois muitos deles o conheciam há tempos e sempre vira nele um homem bom, justo, calado, que sempre ajudava a paróquia...
O padre Igor não apenas ficara indignado com aquilo tudo como também triste e revoltado. Naquele dia, ao ver seu melhor amigo sendo levado preso: aquele que o padre viu se transformar de adolescente para jovem; aquele que estava sempre com o padre, ajudando-o com as coisas da igreja; aquele que sempre fazia o padre rir; aquele que o padre confiava para contar os seus segredos mais íntimos( apesar de toscos); aquele que o padre admirava e gostava imensamente. Naquele dia o padre Igor deixou de ser padre. Revoltou-se contra Deus. Renunciara ao Deus que há tanto tempo servira e fora - ao máximo que pôde - fiel.
O velho Igor então descrentou-se totalmente da vida. Passou a perambular pelo vilarejo, pelos bosques ao redor, pelas colinas, sempre todo sujo, faminto e descalço, com a barba enorme e desgrenhada e com os cabelos crespos tão grandes que pareciam querer chegar ao céu.
Por muitos meses vivera assim, perambulando e falando sozinho, triste e revoltado com Deus. “Por que Deus permitiu que isso acontecesse – dizia - ! Ele sabe que Juvenil é bom, que é inocente” ou então “ Deus é mal, injusto. Será que ele escolhe a quem quer ajudar?, a quem quer livrar do mal?” as vezes então “ Perdi anos de minha vida servindo a um Deus que eu acreditava ser honesto”...
Quando se lembrava do hino que cantava com os fiés e com Juvenil no violão, após a benção final (“Justo é nosso Deus que salva o oprimido e pune o opressor...) sentia uma descrença terrível, onde sua raiva aumentava ainda mais. “Quem fora o maldito que inventara tão grande mentira?” indagava.
Mas numa noite clara em que o ex-padre, que já se encontrava moribundo, perambulava numas das clareiras do bosque, algo sobrenatural aconteceu. Uma rajada forte de vento soprou sobre ele vindo de trás; ele estremeceu pois não era um vento normal, era um vento morno, aconchegante, diferente. Não dando muita importância a isso, o moribundo continuou sua caminhada e com seus resmungos contra Deus. Mas logo em seguida ele escutara um pigarro atrás de si. Parou e olhou, e o que viu o fez estremecer, sentiu um frio na espinha, os pelos de seus braços estavam todos eretos antes mesmo de se virar. Seus olhos focalizavam um homem alto; fantasmagórico, envolto por uma luz; quase transparente, mas assustador.
_ Q...q...quem é você? O que quer? Perguntou o moribundo aflito.
_ Sou Ptolomeu. Pitu. E o que quero é contar-lhe que fora aqui – ele apontou seu dedo fantasmagórico para o chão. Tinha o rosto sério, impassível – que fui morto pelas mãos de seu amigo Juvenil.
O moribundo levou alguns segundos para absorver aquelas palavras, elas rodavam sobre sua cabeça, embaralhadas, e, quando as colocou em ordem em seu cérebro desnorteado e velho, escorregou para o chão coberto de galhos e folhas secas. Sentia naquele momento remorso e vergonha. Agarrou algumas folhas e as esmagou.
_ Perdoe-me Deus. – disse, as lagrimas brotando – O injusto durante todo este tempo fora eu!
Sentiu novamente aquele vento morno e ergueu os olhos para encarar o homem, mas naquele momento ele desaparecia lentamente cantando um verso:
_Justo é nosso Deus que faz justiça entre os povos.

*Tirem vcs suas próprias conclusões!

de Bruno Wolff