segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Histórias Fantásticas vol 2


No final de 2010, fui selecionado para participar da antologia Histórias Fantásticas vol 2 com um conto intitulado "O Segredo de Jonathan". É a estória de um violinista apaixonado que ao chegar de viagem é obrigado a tomar atitudes nada normais para reencontrar sua amada. O livro, escrito por autores nacionais, será lançado oficialmente no final deste ano mas já se encontra á venda e pode ser adquirido pelo site da editora: http://www.lojadacidadela.com.br/produto/historias-fantasticas-volume-ii/66.html
A antologia prenderá o leitor com suas histórias cativantes, repletas de ação, suspense, horror, reflexão... e muita fantasia. Não deixe de adquiri-lo e se prepare para conhecer o segredo de Jonathan.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

O ESPÍRITO DA PRAÇA



Rita acordara assustada a altas horas da noite com o bater de asas e olhando ao redor com os olhos meio turvos devido ao sono, vira á luz do luar que entrava pela janela entreaberta, uma coruja cinzenta pousada sobre sua escrivaninha. Esta a encarava com olhos acusadores e odiosos. Irritadíssima, Rita pegara um livro sobre seu criado mudo e atirara na ave, mas esta desviara do objeto com precisão e fora pousar no peitoril da janela.

Se levantou para espantar a ave, mas ao se aproximar da janela, ela abrira as asas ameaçadoramente e inesperadamente, para o horror de Rita, a coruja falara com ela com uma voz jovem e conhecida:
_ Te espero lá em cima. E voou para a praça mal iluminada e desmantelada no alto do morro ao redor da cidade.

Cheia de horror, Rita escorregou para o chão e pôs-se a chorar. Não agüentava mais. Há um ano era atormentada pelo espírito da garota da praça. Sonhava com ela e às vezes acordava e a via ao lado de sua cama, exigindo que fosse ao seu encontro.
Determinada a enfrentar o espírito e acabar com aquele tormento, Rita pulara a janela, de camisola branca, e se dirigiu para a praça no alto do morro. Andou por ruas desertas e silenciosas, sendo vigiada pela lua que mais parecia um olho sem pupila a observá-la do alto. Quando chegou à estradinha de paralelepípedo que levava ao alto do morro, parou e olhou para trás, com vontade de voltar. O medo a invadira ainda mais, sabia, tinha quase certeza de que se subisse, desceria dali sem vida, ou talvez apodrecesse lá em cima, uma vez que aquela praça era evitada por todos da cidade por causa das mortes ocorridas ali. Mas tinha que enfrentar seu medo ou viveria o resto de sua vida sendo atormentada pelo espírito da garota. Naquela noite inovara seu assombro possuindo uma coruja para chamá-la até lá. Que meios mais ou animais ela usaria para convencer Rita a subir lá em cima? Rita não queria descobrir e pensando nisso, começou a subir a estradinha tortuosa. Iria tentar por fim naquele tormento naquela noite. Imploraria a menina, de joelhos, para que ela parasse. Que a perdoasse. O vento assoviava em seus ouvidos enquanto subia o morro e animais ocultos farfalhavam os arbustos ao redor parecendo segui-la.

Quando finalmente chegou à praça, Rita viu o espírito da menina sentado num banco trincado sob um ipê amarelo. Sua luminosidade se destacava á sombra da árvore. Seu coração disparou descontrolado e suas vistas escureceram, respirou fundo, tinha que ter coragem, já chegara até ali.
_ Sabia que cedo ou tarde você acabaria vindo. – disse ela sem se virar.
_ Vim pois não agüento mais seus tormentos, Gnazzula. - falou Rita se esforçando para manter a voz firme _ Vamos acabar com isso agora. Quero que me perdoe e que me deixe em paz.
Gnazzula riu, uma risada alta, sem emoção que rapidamente fora levada pelo vento.
_ Você não teve compaixão de mim. Me odiava e me atormentava sem eu nunca ter te dado motivos para isso. Ficarei em paz quando me vingar de você. Assim partirei feliz para onde quer que seja.
_ Gnazulla, – começou Rita agora se aproximando – Eu reconheço que errei, que fui mau com você, mas peço, imploro que me perdoe. Se pudesse voltar no tempo, juro que jamais faria o que fiz...
A menina no banco balançou a cabeça negativamente, se levantou e se dirigiu a Rita que logo desviou o olhar. Não suportava olhar para aquela cabeça amassada, sangrenta e transparente.
_ Mas não se pode voltar no tempo. Pode-se receber a recompensa dos atos cometidos no passado. Aqui se faz e aqui se paga, meu bem. Você e seus amigos, Éder e Dione me atormentaram na escola feito demônios. Riam do meu cabelo crespo, da minha cara espinhenta, do meu nome diferente... Botavam apelidos grosseiros e preconceituosos. Diziam que devido a minha feiúra ‘monstruosa’ homem nenhum se apaixonaria por mim. Me odiavam pelo simples fato de me acharem feia... Com isso fui ficando cada vez mais triste e descontente comigo mesma, sabe?,retraída. Comecei a achar que vocês tinham razão, que jamais um homem se interessaria por mim já que até então nenhum havia me olhado diferente ou me convidado para sair. Mas um dia, essa nuvem negra se foi após receber um bilhete anônimo. De um admirador secreto! – Ganazulla sorriu sonhadora em deleite, se lembrando da alegria que sentira com aquela surpresa - No bilhete, escrito com letras recortadas de revistas, li o mais belo poema escrito por um garoto que se dizia tímido e que estava perdidamente apaixonado por mim. Isso pra mim fora o remédio para me curar da depressão que se instalava em minha alma. Durante meses os bilhetes perduraram, cheios de amor, com promessas até de casamento. Com isso, os insultos de vocês não me machucavam mais, cheguei até a mostrar um dos bilhetes pra vocês na esperança de que terminassem com a zombaria. Vocês apenas riram, e continuaram a me abominar.

“ Por várias vezes, na hora do recreio, sentada no banco do pátio, sozinha, me punha a observar os garotos da escola. Tentava imaginar qual deles estava apaixonado por mim. As vezes me perguntava com raiva porque não se revelava logo. Dizia ele nos bilhetes que era tímido e que estava se preparando para se revelar. Eu estava disposta a esperar, mesmo ansiosa e apaixonada, sim, apaixonada por um garoto que nem sabia quem era”.
“Então finalmente, quatro meses mais ou menos depois de receber o primeiro bilhete, ele me escreveu dizendo que iria se revelar, que iria se encontrar comigo nesta praça, assim que o sol se escondesse atrás dos montes. Quando li aquilo um balão de felicidade se encheu dentro de mim e quase me sufocou, de tanta alegria. Naquela tarde não vi o sol se por pois o céu estava nublado, prometendo uma tormenta, mas mesmo assim, quando começou a escurecer, me arrumei da melhor forma e sai escondida pois minha madrasta não permitia que eu saísse depois das dezoito horas e esperei neste banco. – ela apontou para o qual estava sentada - Quando cheguei não havia ninguém, por causa da chuva que estava por vir, mas mesmo assim esperei e depois de um tempo, ouvi passos que se aproximavam e quando me virei, me deparei com vocês três, rindo feito loucos. Perguntei o motivo da graça e vocês então me contaram a verdade. Disseram que não havia um admirador secreto, que eram vocês que escreviam os bilhetes. Aquilo pra mim fora indescritivelmente horrível, senti o balão de felicidade dentro de mim se estourar e ser substituído por outro de tristeza. Como se não bastassem vocês me rodearam e riram cada vez mais de mim, enquanto as lagrimas manchavam meu rosto. Não soube como agir, só olhava pra vocês, tão lindos mas tão malvados quanto o diabo. A chuva então veio e vocês continuaram. Ela se misturava com minhas lagrimas, borrava minha maquilagem, me deixando ainda mais feia, como você mesma dissera. Quando por fim criei forças para ir embora, um raio cortou o céu e partiu o galho mais grosso e alto deste ipê que caiu em minha cabeça pesadamente. Assustados, vocês correram, sem ver se eu ainda estava viva, sem prestar socorro. Enquanto corriam eu, em espírito ao lado do meu corpo ensangüentado, prometi que me vingaria de todos vocês aqui, que só partiria quando acabasse com todos.
Rita ouvia prostrada de joelhos diante dela, cada frase dita arrancava-lhe lagrimas de remorso e repulsa:
“E uma oportunidade de vingança veio horas depois, quando Éder veio acompanhado de policias. Vi-o contar a eles como morri, mas não mencionara o tormento que me fizeram e o motivo por ter ido ali. Acabei com ele indiretamente, na verdade. Ele ajudou a carregar meu corpo e quando me colocaram na ambulância, ele olhou para o meu corpo, pro meu rosto e eu abri os olhos e o encarei. Prometi que o atormentaria pelo resto da vida, ninguém viu, claro, apenas ele. Vi o desespero em seus olhos. Ele desceu atordoado o morro a pé e sozinho e naquela tarde se matou, como sabe.
_Ele ingeriu grande quantidade de veneno de rato - disse Rita _ ... Então foi por isso. Pensei que se matou de remorso...
_ Não. – disse Gnazulla séria. _ Se matou por medo de me enfrentar. Um garoto como ele não sente remorso. Dione voltou aqui um mês depois com seu pastor alemão depois de tanto assombrá-lo exigindo que viesse até aqui. Pediu-me desculpas, mas não acho que estava mesmo arrependido, queria mesmo era se livrar de mim. Possuí então seu animal. Olhei para ele e disse através do cachorro: “Você vai morrer”, e o ataquei. Dilacerei seu corpo, abri sua barriga, pondo suas vísceras à mostra. Fora tão prazeroso! Você como não é burra desconfiou que eu estava por trás disso tudo e não voltou mais aqui mesmo eu lhe chamando toda noite e você nada de aparecer. Esta noite achei melhor inovar e possuí aquela coruja para sair da rotina e tentar trazê-la aqui e você veio e está aos meus pés, vulnerável. Entregue a mim.

– Não sabe a dor que sinto pelo que fiz...
_ Que nada! Você nem se confessou. Não disse a ninguém que eram você e seus amigos que escreviam os bilhetes e que foi por causa de vocês que eu morri.
_ Farei isso e o que mais você pedir. Eu prometo. Por favor, me poupe.
Gnazulla a encarou com os olhos semi-serrados por um momento, fez um gesto afirmativo com a cabeça e falou:
_ Sim, quero que conte toda a verdade! Todos devem saber o quanto foram covardes.
Rita riu tremulamente aliviada. Não vou morrer, pensou. Olhou para a garota morta á sua frente e viu apenas uma massa brilhante de fumaça subir até o ipê amarelo e entrar pelo bico da coruja que permanecera ali todo o tempo. A coruja alçou vôo e voou até Rita. Atacou seu rosto arranhando-o e bicando-o. Furara um de seus olhos, arranhara cada parte daquele corpo esbelto coberto por uma fina camisola. Por fim, com a camisola rasgada e coberta de sangue, a ave a deixou e vôou para longe após o espírito de Gnazzula sair de dentro dela.

Ela então olhou para o corpo sangrento e agonizante diante de si e disse:
_ Conte para todos o que aconteceu aquela noite. Se continuar calada, voltarei e não serei uma garota boa. E pode ter certeza que ninguém vai querê-la por perto, e não será devido a sua beleza destruída, será pela negridão do seu coração.
Gnazzula então começou a rir, agora uma risada aguda, triunfante. Lançou um olhar cheio de repulsa e nojo a Rita e desapareceu.

FIM

de Bruno Wolff


quarta-feira, 16 de março de 2011

A ULTIMA VIAGEM



Em meados do século XVII, o Grande Galeão recheado de ouro, prata e açucar, navegava imponente na noite fria e nevoenta no mar do Caribe. A maioria da tripulação (que era nada menos que duzentos marujos ao todo) descansava nas cabines e sonhavam com a chegada a Inglaterra onde beberiam muito rum nas tabernas e transariam em demasio, enquanto alguns trabalhavam no convés sendo observados pelo jovem capitão John. Enquanto caminhava pelo convés, apertando algo no bolso da calça, o capitão ditava ordens e vez ou outra, ajudava um marujo a puxar uma corda. Diferente das outras viagens que fizera, o capitão estava um pouco entristecido. O motivo era que aquela seria sua última viagem como capitão depois de cinco anos comandando o navio. Gostava muito da sua profissão, embora fosse um tanto arriscada, pois a qualquer momento, poderia ser atacado por piratas, saqueado, perder seus marujos e até acabar sendo morto. Mas isso nunca o impedira de seguir viagem, pelo contrário, achava que esses riscos temperavam ainda mais a aventura. Mas ele tinha certeza que iria se conformar mais tarde, afinal, estava abandonando a profissão para se casar com uma jovem que amava imensamente e não ficaria sem emprego, gerenciaria uma das empresas do pai.
Com o coração um pouco mais leve ao se imaginar num domingo no quintal de sua casa em Londres plantando legumes com a mulher enquanto os futuros filhos brincavam na terra, o capitão se dirigiu a proa e tirou o objeto que segurava no bolso. Era um anel de ouro incrustado de diamantes. Fora sua mãe quem o dera na véspera de sua morte, há quinze anos quando ele ainda era um adolescente obcecado pela vida no mar. Dissera ela que seu tataravô comprara o anel para sua tataravó e o mostrou a um amigo faquir que encantara o anel para ele. Segundo o faquir, o anel deveria ser dado a quem se amasse muito e a pessoa que o receber, poderia fazer um pedido ao qual seria realizado. O anel tinha o poder de realizar qualquer pedido, menos trazer a vida de volta. A mãe do capitão dissera que sua tataravó não acreditava no poder do anel, por isso, jamais fizera um pedido a ele, afinal, tinha tudo o que queria, um homem que amava, dinheiro e saúde e não fora diferente com as outras pessoas que o possuíram, ao ser passado de geração a geração. Nem mesmo a mãe do capitão acreditara, ela assim como ele, achava aquila história de encantamento uma babaquice. O capitão havia planejado meses atrás dar o anel na sua festa de noivado que seria dali a uma semana, um dia depois de chegar a Londres, mas achava que não conseguiria esperar mais nem um dia. Lucy acompanhava-o naquela última viagem e devido a isso a fome de vê-lo no delicado dedo da moça era incontrolável. Resolveu então dá-lo a ela assim que a visse pela manhã.
_ Então, senhor capitão – disse uma voz doce atrás dele, sobressaltando-o – Vai preferir passar a noite nesse convés frio á dormir na sua cabine confortável e quente?
O capitão repondo o anel no bolso virou-se e um sorriso se iluminou na sua face branca e pálida.
_ Quero aproveitar – disse segurando as mãos de Lucy – Afinal, essa é minha última viagem.
Ao dizer isso, Lucy baixou o olhar e uma fina ruga de preocupação surgiu em sua fronte.
_ Espero que esteja fazendo a o que acha melhor, John. Sei o quanto gosta do mar e... me sinto culpada por...
_ Não, Lucy... – interrompeu-a o capitão erguendo seu queixo para que ela o fitasse – Estou fazendo a escolha certa. Amo o mar imensamente, mas meu desejo de ficar contigo, de ter filhos e estar presente em sua vida todos os dias é maior do que minha vontade de continuar como capitão. Seria tolo se abrisse mão do amor que sinto por você para viver no mar. Abro mão de qualquer coisa para ficar com você, pois você é o que ha de mais importante em minha vida. Vamos! Não precisa se sentir culpada.
Ele então a abraçou e ela aconchegou seu rosto em seu peito e os dois ficaram um longo momento assim. Os marujos os observavam discretamente, ávidos de vontade de ter uma mulher para abraçar naquela noite fria, mas deviam se conformar, pois Lucy era a única mulher a bordo e eles deveriam vê-la como um homem.
_ Tenho uma coisa para você – disse o capitão de repente e afastando-se um pouco retirou o anel do bolso e ergueu a delicada mão de Lucy – É o anel de noivado, deveria dá-lo a você solenemente no dia da festa, mas não vejo problema algum em dá-lo agora. Ele então colocou o anel. Alguns marujos exclamaram, mas o casal nem ouviu, pois naquele momento tinham olhos e ouvidos apenas um para o outro.
- É lindo! – exclamou uma Lucy que não cabia em si de alegria – Isso quer dizer então que já estamos noivos?
_ Digamos que sim.
_ Mas... mas é tão... Não posso aceitar...
_ Lucy, esse anel tem passado de geração em geração em minha família. É dado para a pessoa que se ama. Foi minha mãe quem me deu. Nunca o usei é claro pois é um anel feminino. Creio que se minha mãe tivesse tido uma filha mulher... O fato é que o guardei para dar a mulher que escolhi para ser mãe dos meus filhos, a que mais amo nesse mundo.
_ John – disse Lucy suspirando – Se era da sua mãe você deveria guardá-lo, é uma lembrança, um...
_ Não, Lucy. É mais prazeroso vê-lo em seu dedo do que na caixinha encardida que o guardava. Haaa! – exclamou ele como quem se esquece de dizer uma coisa importante – Este anel é bem peculiar, sabe? – e contou a história do anel num tom divertido –Então – continuou ele observando a expressão surpresa de Lucy - quando quiser de todo coração algo, peça, seja o que for, menos que um defunto levante de sua tumba, o anel realizará seu desejo. Mas será apenas um, portanto, sugiro que faça o pedido numa noite, quando meu pai me segurar na empresa depois do horário, peça para que ele me libere logo para que eu possa ir embora vê-la, ou para que caiba num de seus vestidos após ter tido dez filhos ou...
_ Ei! – disse Lucy em meio a risos – Eu não quero engordar nunca. Vai que você resolva trocar a ‘leitoa’ por uma ‘gazela’!
_Hum! Se bem que não é uma má idéia!
Lucy lhe dera um tapa de leve e os dois riram.
_ Bem! – disse o capitão tentado conter o riso – Volte a dormir na sua cabine, daqui a pouco irei para a minha. Não quero que fique com olheiras porque senão acabarei trocando a ‘futura leitoa’ pela gazela mais cedo do que imagina!
E os risos entre eles explodiram como fogos de artifício.
_ Brincadeira – disse o capitão abraçando-a novamente e ficando sério – Prometo que a amarei sempre, pelo resto da vida e não haverá nunca outra mulher capaz de te substituir.
Lucy agora também séria, os olhos brilhando de paixão encarou-o e o capitão a beijou suavemente. A luz do luar tentava em vão atravessar a cortina nevoenta para abençoá-los e os marujos não conseguiram disfarçar agora o olhar sobre eles e o desejo de chegar a Londres ardia ainda mais em cada um. Então, inesperadamente um tiro de canhão fez com que o casal se despregasse assustados e olhando ao redor o capitão viu, em meio a nevoa, um navio encardido de aparencia velha e imenso emparelhado com o Grande Galeão á alguns metros. Um outro tiro de canhão disparou e acertou um dos mastros e rachou-o. Os marujos assim como Lucy viam agora o gigantesco e ameaçador navio ao lado deles, com uma bandeira preta com uma caveira com dois ossos cruzados no topo do mastro.
_ Você tem que sair daqui – disse o capitão agarrando-a e levando-a para o castelo do navio – Fique na sua cabine e não saia de lá até o isso terminar - frisou ele agora no corredor das cabines onde os outros marujos que dormiam saiam para o convés. Alguns desesperados pediam instruções ao capitão que tinha os olhos esbugalhados em Lucy. – Fique deitada no chão e não saia até que tudo isso termine. Sua cabine é reforçada, é segura... VÁ.
Lucy então desesperada agora que os tiros de canhões aumentaram, correra para sua cabine enquanto o capitão berrava instruções. Os marujos pegavam suas armas, enquanto outros ficavam a postos dos canhões do Grande Galeão, se preparando para contra atacar. No convés os piratas já invadiam o navio, armados com punhais, mosquetes, machados e pistolas. Assim que pisavam no convés, esses homens de feições malignas, pele judiada e roupas encardidas e rasgadas avançavam para os marujos e atacavam enfurecidos. Logo o som aterrador de espadas colidindo, tiros de mosquetes, golpes de machados e tiros de canhões se mesclavam com os gritos de desespero, dor e fúria dos lobos e os ratos do mar.
Os ratos do mar (que eram os piratas) mesmo estando em numero maior não levavam muita vantagem contra os lobos que apesar de serem poucos, eram fortes e ágeis enquanto os piratas eram fracos e burros.
O capitão John armado de seu mosquete parecia incansável e invencível. Ao seu redor o número de cabeças e braços decepados aumentavam na media em que os piratas avançavam sobre ele. Até agora, os lobos do mar não avistaram o capitão pirata que observava a batalha no castelo de seu navio que era destruído a cada tiro de canhão.
Lucy permanecia estirada em sua cabine, mas se sentia covarde em estar ali enquanto seu amado lutava lá em cima com seus homens. Sabia que não poderia fazer muita coisa se decidisse lutar, ou melhor, não poderia fazer nada, não sabia nem segurar uma pistola, mas mesmo assim, decidiu sair e enfrentar a seu modo os piratas. Sentia também uma necessidade e um desespero descontrolado de ver o capitão. Quando saiu da cabine, viu o corredor coberto de sangue e corpos espalhados, o horror a abraçou aponto de quase sufocá-la mas isso só aumentou sua coragem e determinação para lutar. Apanhou uma pistola sangrenta no chão e saiu para o convés. A luta pelo jeito não iria demorar para terminar, dezenas de corpos jaziam no chão, a maioria eram seus companheiros. Horrorizada, olhou para os lados e viu John lutando com três ou quatro piratas armados com machados. Ela então, segurando, a pistola com as duas mãos, disparou nos ratos que o atacavam e por sorte acertou um na cabeça, isso pareceu animá-la. Subiu pelo mastro e apoiando-se nas cordas, disparou novamente, mas não saiu tiro algum. As balas haviam acabado. Frustrada e trêmula desceu e retirou um cutelo enfiado na barriga de um pirata e golpeou um, dois, três... Os que golpeava eram os que lutavam contra os marujos do Grande Galeão. Com seu vestido branco, manchado de sangue esgueirava-se e arrancava uma cabeça aqui e um braço ali e por um bom tempo continuou assim.
O Grande Galeão estava em destroços. Um dos mastros se partira no meio e havia destruição por toda parte. O casco fora atingido em vários pontos e quando o capitão John ao reparar na proa do seu navio que se inclinava, avistou Lucy lutando. O pavor em seu rosto aumentou, girou seu mosquete e arrancara duas cabeças e correra ao encontro de Lucy.
_ Você é louca? – bradou ele decepando mais uma cabeça de um pirata esguio que corria para atacar Lucy – Mandei ficar na cabine. Está tentando se matar?
_ Não pude evitar – respondeu ela cada vez mais surpresa consigo mesma. - Não sou uma covarde. – e afundou seu cutelo na garganta de um pirata baixinho.
_ Vou...
Mas o resto da frase ele não terminou, pois uma voz gutural e estridente o fez emudecer:
_ Resistam pestes! – disse um corpulento homem com uma juba de cabelos emaranhados e rosto cicatrizado que acabara de pular no navio. Usava roupas extravagantes e um feio chapéu preto. Seu rosto era de poucos amigos – Não têm a menor chance contra os homens do capitão Casca Grossa.
O capitão John aproveitando que agora não havia nenhum pirata desocupado perto dele, agarrou o braço de Lucy e levou-a em direção ao castelo destruído, mas o feio capitão se interpôs entre eles e agarrou o outro braço de Lucy que gritou. John se virou e tentou golpeá-lo, mas o outro, diferente dos demais piratas não era burro e nem lento, desviou com precisão do golpe, desarmou John e Lucy com seu mosquete e arrastou-a em direção ao seu navio. Uma bala de canhão atingira a lateral do castelo e lascas de madeira acertaram a barriga de John que parou na hora e, meio agachado, cobriu-a com as mãos. Lucy o fitava desamparada, enquanto era arrastada como um saco vazio. Via as mãos de John cobertas de sangue, ele a fitava também. Uma lágrima escorria de seus olhos e se misturavam ao suor. O pirata jogou Lucy no ombro, segurou uma corda e se preparou para atravessar, mas nesse momento, John se ergueu, tirou as mãos da barriga para apanhar seu mosquete e um emaranhado de tripas caíra para o chão, ele, com os olhos em Lucy tentou dizer algo, mas não conseguiu, tombou de lado e antes que batesse no chão, um machado lhe arrancara a cabeça e a arremessara no mar. Lucy gritou e chamou por ele, o capitão com um sorriso firmou-se na corda e como um macaco num cipó, atravessou para o seu navio.
Pouco tempo depois, os marujos do Grande Galeão jaziam mortos e os piratas que sobreviveram, saquearam apressadamente todo o ouro e prata e depois de alguns minutos, todos observavam satisfeitos o Grande Galeão ser engolido pelo mar e assim que ele desapareceu, os piratas urraram de alegria. Uma pequena orquestra começou a tocar e a festa começou.
Lucy não vira o Grande Galeão se afundar, pois fora levada ao castelo do navio e agora jazia numa cadeira. Lagrimas não paravam de rolar de sua face e um tremor descontrolável dominava seu corpo, fazendo a cadeira balançar também. Estava rodeada de piratas, todos cheirando a sangue. O capitão Casca Grossa sentara-se defronte a ela e fazia perguntas do tipo, “ Qual seu nome, florzinha?, “ Que idade tem?”... Como ela não respondia as simples perguntas, bombardeou-a com frases obscenas do tipo: “ Quer que eu a possua?” “Garanto que sou bom de cama, mas se você não se sentir satisfeita, posso dividi-la com minha turma aqui! Você quer, gazela?” Ela ignorava-o completamente. Na verdade mal ouvia o que ele dizia, repassava em sua mente a cena em que vira John morrer. Não queria acreditar, a poucas horas estavam os dois juntos e felizes, cheios de planos e agora John estava morto e ela nas mãos dos piratas.
Depois de tentar inutilmente fazê-la conversar, o capitão Casca Grossa irritou-se, chutou a cadeira em que se sentava e a colocou de pé:
_ Acho que a dança a animará.
Agarrou-a na cintura e pôs-se a dançar grotescamente enquanto os piratas babavam em êxtase e bebiam rum. Lucy o esmurrava, tentava morde-lo, livrar-se dele, mas isso só provocava risos do capitão e sua tripulação. Depois de tanto rodopiar, o capitão a jogou na mesa e disse:
_ Chega de dança. Vamos pra melhor parte.
Retirou o cinto e abaixou as calças:
_ Marujos imundos – disse ele olhando ao redor – Aprendam como se trata uma prostituta de Satã na cama.
E se jogou em cima dela. Ela gritou, xingou, berrou e esperneou e isso aumentou ainda mais o tesão do Casca Grossa. Ele tentou beijá-la, mas ela afastou sua cabeça grande e feia com as mãos e com isso viu o anel em seu dedo. Um raio de esperança surgiu, fechou os olhos, se concentrou no anel e disse:
_ Quero que sejam todos mortos pelos espíritos daqueles que morreram nas malditas mãos de vocês. Que sangrem e que sofram.
Ouve silêncio total, até a banda que tocava ao fundo parou após ouvir essas palavras. Eles se entreolharam e caíram na gargalhada logo em seguida.
_ Prostituta imunda e doida! – berrou o capitão – Acha que é uma bruxa? – e desferiu um golpe em seu rosto – Vou fazer essa prostituta gemer tanto que até no inferno ouvirão seus gemidos, depois, o que sobrar é de vocês.
Todos urraram concordando. O capitão ordenou para que segurassem os braços e as pernas dela e começou a se despir. Logo após tirar a camisa, um vento avassalador tomou conta do navio e formaram ondas enormes no mar. O navio fora sacudido em todas as direções, as ondas pareciam querer virá-lo. A bandeira no alto do mastro rasgou-se com a força do vento.
_ Que diabos. – xingou o capitão saindo de cima dela e se segurando para não cair – Tempestade agora NÃO! HOMENS, PARA O CONVÉS. LEVEM ESSA PROSTITUTA PARA O PORÃO, DEPOIS CUIDAREMOS DELA. RÁPIDO, BANDO DE LESMAS.
Três homens agarraram Lucy enquanto o resto corria atrapalhados para o convés, mas na mediada que saiam, berros e urros de pavor aumentavam. Os três piratas que seguravam Lucy a soltaram e correram para lá e Lucy convicta do que acontecia lá fora, os seguiu. O que viu fora uma cena que jamais iria esquecer, assim como a morte de John, mesmo que vivesse cem anos. Vultos prateados armados sobrevoavam o navio e atacavam. Enterravam cutelos, cimitarras, punhais, mosquetes dentre outras armas nos piratas que impotentes e assustados tentavam correr para escapar do ataque. Num canto o capitão Casca Grossa era atacado por inúmeros fantasmas que enfiavam apenas a ponta de suas armas para que sofresse mais, depois sem pressa, decapitaram suas pernas braços e o deixaram morrer agonizado. Lucy olhava por todo lado a procura de John, sabia que ele também deveria estar ali, mas não o via, os fantasmas eram muitos e moviam-se rapidamente ficando impossível contemplá-los por muito tempo. Os gritos foram diminuindo e em pouco tempo cessaram e o mar voltou a ficar calmo.
Os raios do sol foram surgindo ao longe e os fantasmas foram desaparecendo aos poucos. Lucy andava pelo convés chamando por John, mas sua esperança de vê-lo ia sumindo junto com eles. Por fim, ela o avistou. John sorria tristemente enquanto acenava. Ela o chamou de volta, mas ele ia subindo cada vez mais, até que desapareceu. Lucy chorou, escorregou no chão sobre o sangue e gritou agoniada. Quase rouca, contemplou friamente os corpos mutilados ao redor e desejou morrer. Pegou um punhal no chão e fitou-o, a luz do sol refletiu-se nele e quase a cegou. Foi até a borda do navio e cortou as cordas que prendiam um bote e ele caiu no mar.
Quando o sol estava alto e o navio pirata era apenas um pontinho preto no horizonte, no bote, Lucy contemplava pensativa o lindo anel em seu dedo e se odiava por não ter se lembrado dele na hora em que o Grande Galeão estava sendo atacado.
Cansada, deitou-se e cobriu o rosto com as mãos e adormeceu. Quando acordou, se viu a bordo de um navio mercante.

FIM
de Bruno Wolff

Março de 2011

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

A OBRA-PRIMA




Julio limpou a baba da boca que sempre insistia em escorrer e se afastou para admirar sua obra de arte estirada na mesa. Passara a tarde inteira de domingo trabalhando naquele boneco de dois metros que mais parecia um espantalho empalhado com roupas velhas, vestido com um macacão sujo e rasgado e com uma bola de futebol como cabeça, coberta por um saco marrom. Ainda não estava acabado, faltavam colocar as mãos, orelhas, nariz, olhos, boca e cabelos e ali no seu ateliê não havia nada que pudesse fazer se transformar nisso tudo. Foi então que limpando novamente a baba viscosa, saiu do aposento, ( que na verdade era um porão) apanhou uma faca e uma sacola na cozinha e subiu para os quartos.
Enquanto subia as escadas consultou seu relógio de pulso. Eram sete e dez da noite. Sentiu um friozinho de ansiedade na barriga. Tinha que terminar o boneco antes de seus pais voltarem.Tivera a idéia de fazê-lo enquanto almoçava com a família.
_ Hoje vou fazer um boneco enorme. – dissera a eles.
_ Hum! Que interessante. – falou seu pai de boca cheia.
_ Será que você vai se superar? – perguntou a mãe empolgada - Será que vai ficar tão interessante quanto o vaso de flor que você fez para mim com palitos de fósforo, o cinzeiro pro o seu pai com chicletes mascados, o porta retrato feito de folhas de árvores, o...
_ Vai ficar sensacional mamãe – prometera ele. – Hoje estou um tanto inspirado.
_ Ótimo. Eu e seu pai vamos visitar a vovó Gnazzula agorinha há pouco. Vamos voltar ás nove e quando chegar espero vê-lo pronto e muito criativo!
_ Pode acreditar que sim. – respondera ele sorrindo, com os dentes cheios de alface.
Os três irmãos assistiram aquilo fazendo caretas, detestavam as coisas sem sentido que o ‘doidão’ - como o chamavam nas costas - criava.

No corredor, abriu a porta do quarto da Irmã mais nova de três anos e espiou lá dentro. A pentelha estava dormido abraçada a uma blusa da mãe. Julio entrou sem fazer barulho, admirou aquele vívido rostinho rosado e lindo pela ultima vez. No momento em que ele encostara a faca em sua pálpebra, ela acordou assustada, mas na mesma hora Julio arrancara a blusa de suas mãos e enfiara na boca da menina para que não gritasse, assim, debruçado em cima dela para conter as contorções, ele arrancara os dois olhos castanhos da pequena. O sangue rapidamente inundou a cama, a roupa rosa da menina e camiseta preta de Julio. Temendo que ela se levantasse e fizesse o maior escândalo berrando: ‘ DEVOLVA MEUS OLHOS, DEVOLVA MEUS OLHOS’, ele amarrou os braços e as pernas dela com roupas. Ele detestava barulho, principalmente enquanto estava ’criando’, isso atrapalhava sua concentração.
_ Volte a dormir. – disse a ela enquanto depositava os olhos na sacola. Minutos depois de ter deixado o quarto, a pequena voltou a dormir mesmo, mas pra nunca mais acordar.
Foi até o quarto ao lado, a porta estava aberta. Seu irmão Filipe de nove anos, apenas um ano mais novo que ele, estava absorto no computador assistindo ao clipe ‘Welcome to the Jungle’, com o fone de ouvido ligado no último volume. Ele não reparou que seu irmão entrara no quarto, só se dera conta disso quando ele lhe tirara o fone de ouvido:
_ Ei cara, qual é? Esqueceu de tomar seu gardenal outra vez? Vê se se comporte. Arrancou o fone de ouvido das mãos do irmão e se virou pro computador, mas antes de colocá-lo novamente, sentiu um dor excruciante na orelha esquerda. Deixou o fone cair no chão e passou a mão sobre ela, mas não a sentiu. Se virou para Julio e viu que ele a segurava com um sorriso doentio cheio de baba e reparou que sua camiseta estava manchada de sangue.
Filipe abrira a boca para gritar mas não saiu som algum, Julio lhe enfiara a faca na garganta antes que conseguisse fazer ressoar uma nota. Sabia que o irmão iria protestar dizendo:
_Devolva minha orelha seu doido, não vê que estou ouvindo Guns N Roses?
_ Me desculpe – disse Julio retirando a faca e arrancando a outra orelha. - Preciso delas para terminar minha obra de arte.
Depositou as orelhas na sacola e se dirigiu para o quarto no final do corredor. Sarah, a irmã mais velha que há poucos dias tivera sua primeira menstruação, lia deitada de bruços na cama o livro de vampiro Lázarus da escritora brasileira Georgette Silen, com um ar apaixonado. Quase dava para ouvir o ribombar de seu coração.
_ O que você quer? – perguntou ela sem tirar os olhos do livro.
Julio que mantinha a faca e a sacola sangrenta ás costas respondeu:
_ Só quero terminar minha obra de arte.
_ Pois vá terminá-la longe daqui. Não vê que estou lendo? Saia logo.
Mas Julio não a obedeceu, só sairia dali quando tivesse o que queria.
Aproximou-se da mana. Observou seus cabelos e os achou um tanto feios, compridos demais, cheios de ondinhas e cachinhos que lembravam minhocas. Não ficaria bem no seu boneco gigante. Reparou no que dava para ver de suas mãos que apertavam o livro. Eram pequenas e brancas como a neve. Achou-as lindas.
Ergueu a faca e golpeou-a nas costas. A faca penetrou fundo, ergueu-a novamente e enterrou-a na goela da branquela quando esta aos berros se voltou para ele. Ela caiu na cama, em cima do livro. Agora ele podia fazer o seu trabalho sem que ela o impedisse.
_ Não vai cortar minhas mãos – diria ela – Preciso delas para segurar meu livro.
Levou quase uma hora para terminar e quando finalmente colocou as mãos na sacola, fitou o rosto dela manchado de sangue e baba e falou:
_ Meu boneco vai ter mãos femininas!
Seguiu então em direção ao ateliê. Consultou o relógio após depositar a sacola ao lado do boneco. Eram oito e meia. Tinha meia hora para colocar aquelas ‘peças’.
Ainda faltariam os cabelos, o nariz e a boca. Enquanto descia as escadas correndo fazendo balançar nervosamente a sacola sangrenta, imaginou que os cabelos lisos e curtos da mãe e o nariz arrebitado do pai, realçariam ainda mais a beleza de sua obra de arte. E a boca bem, já que babava demais, achou que talvez ela ficasse melhor no boneco.


FIM

de Bruno Wolff

Dezembro de 2010

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

ACUADA






_Anna!... Venha para mim! Deixe-me abraçá-la... cuidar de você!
Anna parou defronte a porta de um dos quartos de uma desconhecida casa do século XVIII e respirou fundo, com a mão na maçaneta. A voz masculina e misteriosa que a chamava era doce, mas no fundo, Anna sentia que tinha um pouco de malicia e maldade.
Gotas de suor escorreram de sua face quando reparou mais uma vez o corredor sombrio e escuro em que estava. A casa estava vazia, exceto por ela e o dono da voz que a chamava. A porta rangeu baixinho quando ela a empurrou e seus olhos se encheram de medo e fascínio ao observar o quarto. A luz da lua tentava em vão entrar pela cortina em tom escuro da janela fechada. Uma vela bruxuleante pousada numa escrivaninha, destacava fantasmagoricamente os contornos de um homem que se encontrava de costas para Anna.
_ Que bom que está aqui. – disse ele com aquele mesmo tom de voz e Anna, se sentindo um pouco mais confiante, aproximou-se alguns passos do homem.
_Quem é você? – perguntou.
_Hora, aproxime-se e descubra você mesma.
Anna então, segurando as bordas de seu vestido vermelho, se aproximou do estranho. Ele suspirou e pareceu se arrepiar quando ela pousou sua tremula mão em seu ombro e como num filme em câmera lenta, ele segurando agora a minguante vela, foi voltando seu rosto para Anna e esta quando o contemplou , emitiu um mudo urro enquanto seus olhos refletiam um homem com o rosto totalmente desfigurado. Pedaços de pele pendiam de sua face enquanto em seus olhos escorria uma fina linha de sangue. Uma gosma nojenta balançava sonolenta em seu nariz descarnado e sua enorme boca desdentada, sorria malignamente para ela.
Anna conseguiu recuar alguns passos, mas caiu em seguida. O estranho se aproximava dela estendendo suas mãos como garras e os rostos nos quadros das paredes começaram a rir e a zombar dela.
_Agora sabe quem sou? Sou seu medo, seu tormento, sua desgraça...
Quanto mais ele se aproximava, mais seu coração batia e quando suas mãos se fecharam sobre o pescoço da jovem ela acordou, suada e ofegante.
Ao abrir os olhos, sentiu como se não o tivesse feito. Estava tudo escuro e todo seu corpo doía pois se encontrava espremida em seu guarda-roupas.
_ Nem nos sonhos tenho sossego. - choramingou
Com o coração batendo a mil, abriu vagarosamente uma fresta da porta e espiou. Seu quarto estava silencioso e desarrumado. Enxugando o suor nas costas da mão, ela escancarou a porta e saiu.
Percorreu cada canto do quarto com olhar, com as mãos na boca, procurando pessoas dilaceradas e quando se deu conta de que estava só ali, foi verificar nos outros cômodos de seu apartamento. Quando constou que realmente estava sozinha, se dirigiu para a sala e seu gato gordo e cinzento miou do sofá para ela quando a viu. Ela o ignorou, havia se esquecido dele. Sua mente estava sempre ocupada. Parou diante da grande porta de vidro para apreciar o por do sol, imaginando se um dia aquela perseguição a abandonaria.
Lá na rua lá em baixo, a metros e mais metros de distância, os carros buzinavam, pessoas conversavam e levavam suas vidas normalmente enquanto ela permanecia ali, trancada, sozinha e com medo.
Ficou observando o sol até ele mergulhar atrás de um prédio à frente e quando as sombras se deitaram em sua sala, vozes desconhecidas começaram novamente a zombar dela. Sem se atrever a olhar pra trás, Anna tomada novamente pelo pânico, abriu a grande porta de vidro. O vento secou sua face suada e brincou com seu fino pijama. Seu gato a espiava curioso em seu sossegado descanso.
Anna então passou uma perna na grade do alpendre, seu estomago revirou quando olhou lá embaixo. As vozes estavam mais perto agora. Oh, não podia suportar mais aquilo, se atirar dali era menos horrível do que continuar a ver aqueles corpos! Lançando um olhar cheio de sofrimento a eles já ao redor dela, se jogou lá embaixo, terminando assim com seu triste tormento.
O gato gordo e cinzento ao vê-la se atirar, fechou os olhos e dormiu. Não havia mais nada interessante para observar agora.

Fim

de Bruno Wolff

sábado, 23 de outubro de 2010

TERROR NA CASA VELHA




Neste conto VOCÊ é o personagem principal.

Feche os olhos e quando abri-los novamente você viverá isso...

Um vento morno de fim de tarde abraça-te e seca o suor em sua testa e na palma das mãos. Um tremor, como se tivesse levando um choque de 60 watts envolve-te inteiramente e uma lagrima foge de suas pálpebras fechadas. Respira fundo tentando se acalmar e desanuviar a mente e ao fazer isso, abre os olhos e se vê diante de uma casa velha, rústica e de aparência abandonada. A simples visão desta casa com duas janelas de madeira fechadas, uma enorme porta de carvalho lhe dá uma enorme vontade de correr, mas você não pode, o grande amor de sua vida se encontra lá dentro e só Deus e as pessoas que habitam lá sabe o que ele está fazendo. Mas você irá descobrir, é por isso que está ai. Você tem duvida, curiosidade e o direito de saber o ele faz na estranha casa da pessoa que você mais detesta e que indiscretamente vive dando em cima da sua paixão, tentando conquista-lo (la) e tê-lo (la). Vários pensamentos absurdos mas coerentes invade sua mente, um deles é ‘ Será que eu o (a) perdi para ele (a)’?
Respirando fundo novamente você olha pros dois da rua que se encontra deserta. Poderia procurar alguém pra entrar ai com você, até mesmo a pessoa que lhe contou que viu seu amor entrar ai, mas isso é da sua conta e de mais ninguém. Portanto vá sozinho (a).
Com passos um tanto vacilantes você se dirige ao portão da casa. Passa pelo caminho cimentado ladeado por um jardim morto e com um anjo de pedra em cada lado. O da esquerda jaz no chão lacrimoso, com uma asa caída, enquanto o da direita com uma expressão sonhadora, eleva as mãos ao céus satisfeito e você se pergunta como se sentirá ao sair dali, como o anjo da esquerda ou direita, alegre ou triste?
Pára diante da gigantesca porta de carvalho, tenta ouvir vozes, mas não houve nada, nada a não ser sua respiração entrecortada e o tambor descompassado que é seu coração parecendo ser a digna musica do medo. O astro rei está prestes a ser engolido pelas montanhas ao longe, isso não melhora nada seu estado de espírito.
A pesada porta se abre com um grunhido parecido sair da garganta do diabo e revela uma sala mofada, cheia de quadros estranhos e moveis rústicos. Você chama os donos da casa, apenas dois nomes, o do pai de seu (sua) rival, que por sinal é o velho mais estranho da cidade que tem fama de ser feiticeiro e o da pessoa que você mais detesta. Ninguém responde, a casa parece dormir o sono da morte de tão silenciosa, mas o silencio modorrento é quebrado com o som de seus passos no chão de madeira. Pof, pof, pof... Algo lhe diz que uma coisa muito estranha está acontecendo ali, a atmosfera da casa denuncia isso. Sua boca está mais seca do que nunca. “ Meu amor está em perigo?”. Segue então por um longo corredor, chamando pelos donos da casa. Passa por portas fechadas com desenhos diabólicos esculpidos na maioria delas e no final do corredor encontra uma porta aberta. A luz do por do sol banha o aposento. Prateleiras cheias de livros indicam que é uma biblioteca. Você analisa-as e lê vários títulos estranhos como “ Demônios”, “ A força dos feitiços”, “ Sangue é vida”, “ Lamia, o Demônio” “ Invocando Demônios” e “ Necronomicon”. Este ultimo você já ouviu falar ou leu sobre, Lovecraft o cita em varias de suas obras. É um livro proibido escrito por um poeta árabe louco. Através dele é possível ressuscitar mortos, invocar demônios, conectar com entidades sobrenaturais, viajar por dimensões desconhecidas dentre outras coisas relacionadas ao oculto. Um livro um tanto maldito e assustador. Por isso sua coragem é enfraquecida e você se dá conta de que não há ninguém ai mesmo,muito menos seu amor. Ele poderia ter entrado ali mais cedo e ido embora rapidamente. Decide ir embora e esclarecer tudo com ele mais tarde.
As sombras começam a se deitar na casa e o silencio ainda paira parecendo retardar um acontecimento terrível. Desviando os olhos dos livros malditos você sai do aposento rapidamente e assim que toma o corredor, já com impulso de correr, mesmo com as pernas bambas, ouve uma voz conhecida chamando seu nome e você pára na hora.
A voz soou abafada, meio lenta. Chama então pelo nome de seu amor e ele responde chamando o seu. Ele está atrás de uma das portas. Mas qual? A voz saiu um tanto substancial, parecia vir de um sonho, ou um pesadelo?
Você então abre a porta mais próxima e mesmo através da quase total escuridão, vê vários frascos de aparência viscosa e nojenta dispostos em prateleiras. Fecha rapidamente a porta tentando não vomitar. Abre outra e se depara com um aposento cheio de pentágonos e objetos de formas estranhas. Fecha-a. Abre outra, esta parece ser um quarto normal, você imagina ser o dormitório da pessoa que você mais detesta. Abre outra e o horror lhe domina por completo. Há um corpo ensangüentado estirado no chão, com o rosto oculto por um pano. Um grito rouco sai de sua garganta. Com passos lentos, você se aproxima do corpo, torcendo para que não seja o do amor de sua vida, Mas acalme-se, não pode ser ele! Você não o ouviu chamar seu nome a pouco?
Um alivio o (a) envolve ao tirar o pano do rosto do cadáver. Este corpo, com o pescoço quase decapitado, sem olhos e com a boca aberta como se gritasse, não é o seu amor e ninguém que conhece. Sai então do aposento e já no corredor chama pelo seu amor desesperadamente, não obtém resposta. Abre outra porta, um quarto normal, com cama, cômoda, tapete... nada de horror e muito menos seu amor.
Sai para o corredor e abre outra e se depara numa cozinha com as paredes manchadas de sangue e aos pés da mesa um outro corpo ensangüentado se debate ao ouvir sua aproximação. Corre para ele e tenta ajuda-lo, mas perdera muito sangue. Talvez não há nada que possa fazer. ‘ Vou sair e pedir ajuda’ diz, mas o corpo ensangüentado segura-te pelo colarinho e diz com grande esforço. ‘ O feiticeiro... incorporarará um demônio... saia, salve-se...” e neste instante o pouco brilho que havia nos olhos da vitima é coberto por uma mortalha, a mortalha da morte.
Sai então correndo dali e cheio(a) de desespero continua a chamar pelo seu amor diversas vezes e milagrosamente obtém resposta, desta vez mais clara. Tenta abrir a ultima porta do corredor mas está trancada. Abre a porta ao lado e finalmente vê o grande amor de sua vida, amarrado numa cadeira, está intacto. Um tanto desesperado.
_ Não acredito que aquele(a) desgraçado(a) fez isso com você. – você grita enquanto desamarra-o - Sei que ele (a) te deseja, mas não precisava te submeter a isso..
_ Não foi ele(a) – diz seu amor com voz fraca quando lhe é tirado um chumaço de pano da boca – Foi o pai dele(a). É um louco, encontrei-o na rua e ele me pediu para ajuda-lo a carregar um móvel da casa, vim na hora. Quando cheguei aqui ele me golpeou por trás e quando acordei me vi amarrado aqui. Logo em seguida ouvi mais vozes, duas pessoas. Ouvi elas gritarem depois e o velho dizia que precisava do sangue delas para invocar um demônio do qual não me lembro o nome. Ele veio aqui depois, coberto de sangue e me disse que eu seria a presa para o demônio assim que ele o incorporasse. Ele vinha me comer.. Mais tarde, ouvi o (a) filho (a) dele chegar em casa.... Eles brigaram muito. O primogênito do velho disse-lhe que iria dar parte a policia , disse que iria embora e que o odiava... Ele então o (a) prendeu num dos quartos e não ouvi mais gritos. Depois ouvi ele entrar num quarto bater e trancar a porta.. Ouvi gemidos e lamurias, e ele meio que cochichava numa língua desconhecida e fazia uns barulhos inumanos. Era horrível de se ouvir e por isso desmaiei. Acordei com você me chamando...
_ Vamos dar o fora daqui e chamar a policia – você se vê dizendo.
Saem então e assim que chagam no corredor, a hora do horror sobrenatural chega.
Um uivo abissal é ouvido e você se dá conta de que vem da porta que estava trancada. Em seguida passos pesados.
_ CORRAAAAAAAAAAA... – você grita.
O corredor se enche com o barulho de passos apressados e quase na metade do corredor, vocês param quando ouvem a porta ser quebrada. Nenhum dos dois se atreve agora a olhar pra trás. O medo os domina, desta vez a tremedeira não está como se tivesse levando um choque de 60 wattz e sim de 120.
POF... O som de uma passada semelhante a um tambor de percussão.
POF...POF... Os passos estão lentos. Uma gota de suor escorre pelo seu rosto. Você olha para o seu amor que está também a tremer e parece estar incapaz de se mexer de tanto medo e fraqueza.
POF...POF...POF... Os passos na madeira aceleram um pouco.
_ Vamos... co..rrer – você consegue dizer numa voz tremula e cheia de pânico.
Começam então a caminhar, sem olhar pra trás. Os pesados passos continuam POF..POF..
Vocês aceleram o passo e a coisa atrás de vocês também. POF..POF..POF...POF...POF
E assim a coisa se aproxima. Seu amor olha pra traz e cai no chão, tentando gritar. Mesmo na escuridão, ao abaixar ao lado de seu amor, sem se atrever a olhar a coisa que se aproxima agora novamente com passos lentos, apesar da quase densa escuridão você vê os cabelos do seu jovem amor totalmente grisalhos. Volta o rosto dele para o seu e o vê num choque tremendo. Sua boca aberta num esgar desesperado, os olhos vítreos e saltados...
A coisa agora para ao lado de vocês. Você espera a qualquer momento ser rasgado(a) por grandes mãos inumanas e em seguida ser envolvido (a) por uma enorme boca cheia de dentes pontiagudos e ser engolido por uma garganta abissal. Mas nada acontece, por enquanto.
O tempo é precioso meu caro (minha cara). Levante esse seu traseiro, tente revidar seu amor e dê o fora daí enquanto lhe é dado tempo.
Com uma forte respiração, você pede ao seu amor para se levantar e não olhar pra trás.
Trêmulos e suados, envoltos por uma escuridão infernal, vocês começam a caminhar se perguntando por que não foram devorados pela coisa ainda. Então, quando estão próximos da sala e da enorme porta aberta, ouvem um urro gutural e a coisa começa a andar vagarosamente e em seguida ouve um abafado grito humano, vindo de uma porta um pouco á frente do qual não experimentara. Há alguém mais ali.
Parados defronte a porta, você se pergunta se deve perder tempo e abri-la . Sua bondade lhe diz para abrir. E ao fazer isso a luz da lua que entra pela janela, ilumina a pessoa que você mais detesta e da qual imaginara que estivesse aproveitando do seu amor, amarrada e amordaçada. A coisa está mais próxima, confiante de que pegará vocês, independente se correr ou não. Pelo barulho dos passos você calcula que a coisa está há uns sete metros de distancia de vocês.

Agora estão ai as escolhas da qual caberá a você se decidir por uma:
1. Manda seu amor correr e pedir ajuda enquanto tenta salvar seu (sua) rival, tendo o risco de ser dominado pela coisa
ou
2. foge com seu amor e deixa a coisa acabar com ele(a). O velho agora está dominado pelo demônio e não excitará em destruir o corpinho suculento de seu primogênito.

Tomada a escolha 1.

_ Corra e peça ajuda – diz ao seu amor – Tentarei salva-lo (a).
Seu amor lhe diz que irá ajudar, mas você sabe que não está em condições pois ele viu a coisa e está mais assustado que você.
_ Você está fraco (a), não conseguirá...VÁ. Tenha certeza de que sairemos ilesos (sas) desta.
Seu amor obedece e você percebe que a coisa parou novamente. Não se atrevendo a olhar pra trás, se dirige correndo ao seu (sua) rival e o (a) desamarra facilmente uma vez que as cordas estão bambas devido ao esforço inútil da vitima escapulir.
Assim que liberta a vitima, ela o abraça e agradece, em seguida olha na direção da porta e solta um urro de pavor. A coisa já estava lá, espreitando vocês na escuridão.
O (a) ex prisioneiro (a) começa a escorregar para o chão, quase perdendo os sentidos mas você dá uma bofetada no rosto dele (dela) para mante-lo (la) sóbrio (a) e acordado (a). Ele (ela) o encara com olhos interrogativos e amedrontados.
_ Comer – diz a coisa na soleira da porta – Quero sangue e carne frescos.
A voz é indescritivelmente horrível, jamais usada nos mais clássicos filmes de terror.
O medo tenta sufocar seus pensamentos, seu corpo quer escorregar para o chão e esperar a coisa acabar com seu (sua) rival pra em seguida dominá-lo (la).
Mas não, sua vontade de viver é maior e quer lutar para isso, se morrer, morrerá tentando sobreviver e não como um (uma) covarde inútil.
Seu (sua) rival te abraça novamente quando a coisa começa a se aproximar. Está bloqueando a porta. O aposento é pequeno, se tentar escapar pelos lados, a coisa os agarrará com seus braços longos e mãos gigantescas. Seu cérebro trabalha a mil, tentando encontrar uma saída. Então ao olhar pra os lados, vê a janela aberta e sem excitar puxa seu rival para ela e o joga pela fenda da salvação. A coisa ainda dirige com passos vagarosos até vocês, ela não tem pressa pois sabe que não adianta correr. Ela começa a rir quando você passa uma perna pela janela, ela ri do seu esforço inútil pela sobrevivência.
Correm então ao redor da casa em direção a rua. Seu (sua) rival grita e chora e agora estando mais claro, você repara os cabelos grisalhos da pessoa que acabou de salvar. Lá dentro a coisa continua a rir, um riso parecendo o barulho da matraca da morte e com aquela voz demoníaca a ela grita:
_ Lhes visitarei em sonhos e neles revelarei como irei apanhá-los. – outra risada abissal – E quando esse dia chegar espero encontra-los com muito medo, pois isso, ah, isso me diverte um tanto! – outra risada abissal e em seguida o silencio.
A rua se encontra deserta e silenciosa, e vocês dois partem, abraçados e mal acreditando que escaparam, por enquanto e apesar do acontecido, você se lembra da expressão dos anjos de pedra e se dá conta de que afinal, como o anjo da direita, a alegria e alivio lhe invadia por inteiro (a).

Tomada a escolha 2.

Você então olha para o rosto de seu (sua) rival. Esta com muito medo e se debate como um peixe fora d’água. Se surpreende ao perceber que não sente dó nenhuma.
_ Vamos dar o fora daqui – diz automaticamente
Correm em direção a grande porta de carvalho e quando chegam na rua, olhando para a casa, ouve os gritos aterrorizados da pobre presa enquanto a coisa inominável se banqueteava dela e quando os gritos cessaram, a coisa, provavelmente com a boca cheia de carne e sangue grita:
- Será uma questão de tempo para pegar vocês, enquanto isso brincarei com vocês em seus sonhos e um dia, um dia irei encontrá-los pessoalmente e quero ver pânico e ouvir gritos desesperados da garganta te vocês.
Partem então pela rua deserta, você com duvida, se perguntando se está se sentindo como o anjo da esquerda ou o da direita, no fundo, a tristeza e a alegria lutam por mais espaço em seu coração.

Pronto, agora você está seguro (a) de frente ao PC da sua casa ou lan, mas pelo menos por enquanto.

“ Quando as sombras se deitarem e o silencio em seu quarto escuro pairar, ele surgirá, o inominável gigantesco ser das profundezas do abismo, e com dentes pontiagudos triturará sua carne e os pedaços rolarão pelo abismo de sua garanta maldita”


Então, diz ai, qual fora sua escolha, opção um ou dois?

de Bruno Wolff

Outubro de 2010

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

OS CRIMES NO SÍTIO







_ Então o senhor confessa ter matado o Sr. Norberto Rodrigues? - perguntou o delegado de policia debruçado sobre sua mesa. Fitava o réu sentado á sua frente com olhos penetrantes e frios. Ao seu lado, um sargento os observava curioso, enquanto uma testemunha tremia da cabeça aos pés.
_ Sim. - respondeu o acusado, que estava algemado. Este vestia uma camisa xadrez rasgada e jeans desbotada, manchados de sangue. Tinha a face coberta por arranhões e hematomas. - Dei dois tiros num lugar bem merecido no infeliz. Mas como já lhe disse senhor delegado: Não teria feito isso se ele não tivesse matado primeiro.
O delegado recostou na cadeira e disse:
_ Assim será mais fácil, uma vez que não nega o crime. Sargento, deixe-nos a sós. Conversarei com a testemunha assim que terminar com ele.
O sargento empertigou-se. Estava estampado em sua cara barbada que queria ouvir todo o relato, pois sabia que houvera sexo antes do crime, o que resultou em mortes. E ele adorava relatos excitantes, mas obedeceu ao delegado, levando a trêmula testemunha consigo.
Assim que a porta se fechou, o delegado cruzou as pernas, apoiou o queixo nas mãos e disse:
_ Conte-me então como foi, Tião. Tudo, até os mínimos detalhes.
O caipira contemplou a janela por alguns segundos. Lá fora a chuva caia torrencialmente.
_ Bem... - começou ele - tudo começou quando o Sr. e a Sra. Rodrigues mudaram para um sitio próximo ao meu há mais ou menos quatro meses - tinha um sotaque típico de caipira Mineiro, - Devo dizer que fiquei feliz pois meus únicos vizinhos nos últimos anos moravam a três quilômetros de distância, ou seja, vivia sozinho e solitário desde que minha querida Madalena falecera há seis anos. Querendo ser solidário e fazer novos amigos, fui até a casa deles e me ofereci a ajudá-los com a mudança. Eles mais que satisfeitos aceitaram, pois tinham apenas um ajudante que era este homem que acabara de sair de sua sala. Enquanto descarregava-mos o caminhão, os Rodrigues se mostraram ser muito divertidos, faziam varias piadinhas maldosas com o preguiçoso motorista do caminhão que sentou-se á sombra de uma mangueira e puxou a palha, com isso rimos muito. Quando acabamos de por a mudança para dentro, eu ainda os ajudei a colocar os móveis no devido lugar, não eram muitos. Eles eram bem simples. Assim que terminamos, levei-os até minha casa e preparei um delicioso jantar do qual o saboreamos ao ar fresco de minha varanda. Conversamos, rimos e nos divertimos. Quiseram mudar pra roça com o intuito de terem paz e sossego uma vez que eram alvos de fofocas e inveja na cidade, como se fossem os únicos e principalmente porque apostaram no plantio para vender. Naquela noite, não pude deixar de notar o olhar penetrante que a Sra., Rodrigues me lançava a todo momento e quando o Sr. Rodrigues e seu empregado não estavam olhando, ela sorria pra mim de um modo um tanto sedutor. Fiquei indiferente a isso, claro, mas não por muito tempo"
"Com o passar dos dias, a Sra. Rodrigues não deixava de ir á minha casa ao menos três vezes por semana, quando seu marido e empregado saiam para trabalhar. Sempre com uma desculpa: levar alguma quitute, pedir algum mantimento emprestado... Ela ia só para me ver. Decidi então um dia lhe dar uma cantada, foi mais ou menos um mês depois que se mudaram. Foi numa bela manha ensolarada, Sr. delegado, onde me encontrava no curral tratando de minhas criações, ah!... os pássaros pareciam estar mais animados para cantar naquele dia, só para dar um clima mais bonito á cena." Difícil entender como uma mulher bonita como a senhora, com essas pernas bem torneadas, esses seios fartos querendo saltar desse seu decote, essa boca sensual...se interessaria por um magricela sem sal como seu marido" disse-lhe eu. Ela ficou satisfeita, nem se importou pelo que disse do seu marido, apenas lançou-me um olhar penetrante e para me provocar lambeu sensualmente os lábios. Não agüentei Sr. delegado, no mesmo instante eu me aproximei dela, envolvi-a com meus braços e dei-lhe um beijo que a fez respirar depois como se todo ar tivesse acabado. Ela me jogou então dentro dum cocho e pulou em cima de mim. Fizemos amor ali mesmo, Sr. delegado no curral, dentro do cocho, ao redor das vacas e cavalos que não faziam nada a não ser nos olhar com seus olhos negros e curiosos."
"A partir de então, quase todas as manhas eram sagradas á nos Sr. delegado. Ela esperava o marido e o empregado saírem para plantar pra em seguida correr para minha casa e assim, se entregar totalmente a mim. Ah, como ela gostava Sr. delegado, como ela gostava! Arranhava minhas costas, elogiava meu corpo que apesar dos 55 anos, se encontra saradão, minha pegada, minha mãos calosas e principalmente meu... Ela me chamava de Tiaozão Sr. delegado, pois sabia que me chamando assim me deixava mais excitado."
Nesse instante ele parou de falar ao encarar o delegado que o fitava com um olhar esbugalhado, a boca entreaberta, numa firme concentração.
_ O que mais ela dizia? - perguntou o delegado engolindo grande golfada de saliva - Quero dizer, - disse ele disfarçando, coçando o nariz e fazendo uma voz mais profissional. - continue, sem intervalos.
O caipira ignorando aquela expressão de excitação do delegado, continuou:
_ Foi bom enquanto durou, Sr. delegado. Até que um dia, tudo foi por água a baixo.
_ E esse dia fora hoje! O dia em que você se tornou assassino. - comentou o delegado agora impassível.
_ Sim. Foi uma loucura. A Sra. Rodrigues fora á minha casa mais cedo hoje, ás seis, sendo que costumava ir às oito devido o marido ter saído mais cedo, queria, segundo ela, terminar uma cerca que ele estava fazendo á uns quinhentos metros de distancia. Ela me chamou pra ir ate a casa dela, pra fazermos amor lá, Sr. delegado. Eu logo disse não, que era arriscado e estaríamos cometendo um pecado maior ainda, imagina só, ela trair o magricela do marido na própria casa! Mas ela contestou e me convenceu ao dizer que achava isso mais excitante. Fomos correndo sob uma fina garoa e nos atiramos na grande cama em que ela e o maridão se deitavam toda noite. Ah! Como fora bom, Sr. delegado, mas nosso ato louco e pecaminoso durou pouco. Quando estávamos chegando ao auge do prazer, a porta do quarto fora aberta de supetão revelando o Sr. Rodrigues. Sua expressão ao nos ver ali fora de profunda surpresa e ódio. No mesmo instante, gritando, ele me agarrou e me tirou de cima da mulher e logo em seguida deu-lhe uma forte bofetada na cara do qual lhe arrancara um dente. Fui pra cima dele pra defender a mulher, mas ele apesar da magreza, tinha uma forte aliada, a agilidade; me golpeou com o pé me jogando contra a parede da qual bati a cabeça. Receio que fiquei inconsciente por alguns segundo pois quando abri os olhos vi dois canos de uma espingarda apontada para minha cara. As portas do guarda-roupas estavam escancaradas, denunciando que ele havia tirado ela dali. A mulher gritava, ainda nua na cama, com a boca cheia de sangue mesclado com o meu sêmen."
_Levante seu monte de merda. E se quiser viver vai fazer o que eu mando - disse-me com uma voz que nem parecia ser a dele de tão grossa. É lógico que obedeci e quando me ergui, tremulo, ele, para minha surpresa me entregou a espingarda após pegar uma 38 do guarda-roupas, que alias merecia ser chamada de guarda-armas e ordenou:
_ Suba na cama.
"Quase não pude obedecer devido a tremura das minhas pernas. Não entendia o porquê me dera, poderia apontar pra ele e dar-lhe um tiro naquele momento, mas temi que a arma estivesse descarregada, sendo assim ele iria rir da minha cara enquanto disparava a poderosa na minha na minha."
_ Esfregue o cano da espingarda no seio da vadia. - ordenou ele.
"A Sra. Rodrigues urrou desesperada. Olhei pra ele indignado ao que na mesma hora ele agitou a 38 para mim ameaçadoramente."
_ Faça o que eu mando ou então farei um furo na sua testa.
"Fiquei um tempo encarando-o, esperando que ele dissesse: 'Brincadeira, você está sonhado!' e parasse com aquilo, mas ele me tirou do devaneio e incredulidade ao meter a coronha da sua arma na minha cara. No mesmo instante, apontei a espingarda para ele. Senti as mãos da Sra. Rodrigues posar frias e tremulas sobre meus ombros como se me incentivasse a atirar. O Sr. Rodrigues riu de se acabar, uma risada louca eu diria, cavernosa e sem emoção.
_ Sua anta. Atira! Acha mesmo que eu iria te dar uma arma carregada? Nãoooooooo. Posso ser bobo a ponto de confiar de mais em minha mulher e num caipira desconhecido como você, mas dar uma arma carregada ao meu inimigo, não, isso não! - e riu - Quero que me obedeça ou então mato os dois. Entenderam?
"Fomos obrigados a assentir."
_ Ótimo - continuou ele, um sorriso diabólico deformava-lhe a face seca. - Esfregue o cano, ou melhor, os canos da arma nos seios da vadia.
_ Meu amor, - começou ela, até então parecia ter perdido a voz de tanto medo - por favor, eu sei que errei e mereço ser castigada, mas não desta maneira. Guarde a arma e vamos conversar..."
_ Cale a boca, cadela - cortou ele - Cale-se pois da sua boca só sai merda, vadia imunda. E você seu ogro peludo, faça o que eu mando, esfregue esse cano nos malditos seios da minha mulher.
"Eu obedeci Sr. delegado. Ela se deitou chorando mais do que nunca e eu esfreguei o cano em seus seios, dos quais estavam molhados de suor e saliva."
_ Aposto que está adorando!Agora meta-o na boca dela. - mandou o chifrudo ensandecido. Eu o encarei novamente a fim de protestar, mas nesse instante ele metera a coronha da arma na minha cara novamente - Faça o que eu mando ou então se juntará a sua velha agora mesmo.
"Novamente e sem nenhum pingo de excitação, eu obedeci. Dava dó Sr. delegado, de ver a Sra. Rodrigues quase se engasgar com aqueles dois canos na boca enquanto as lagrimas escorriam e todo o seu corpo tremia, fazendo as molas da cama gemerem."
- Isso! Olha como a prostitua gosta.- mentiu ele rindo - Agora meta-o lá em baixo. - disse ele se aproximando mais, com olhos esbugalhados e translúcidos - E você sua vaca pode gemer a vontade. Imagine que é ele quem está te possuindo. Esqueça que eu estou aqui e que estão prestes a morrer, caso saiam da linha, claro.
"Nós obedecemos, senhor delegado, ela pelo menos gemeu devido ao choro e humilhação. Minhas mãos tremiam enquanto segurava a ponta da espingarda naquele magnífico local."
_ Está gostando vagabunda? - gritou ele - Tem dois canos penetrando em você, em? Dois canos penetrando em você! Não é excitante ouvir isso? Dá mesma forma que é excitante trair seu marido enquanto ele batalha honestamente para te vestir e te alimentar? Em vagabunda, responda?
"Ele esperou um momento onde a serena chuva era a única a ser ouvia e os lamurientos gemidos da Sra. Rodrigues, em seguida ele riu."
_ Que tal a lição em? Nunca mais vai enganar seu marido, vai? O homem que sempre foi fiel a você; que veio para esse fim de mundo para plantar e colher, pra melhorar nossa situação financeira. Vai respeitar o homem que você jurou fidelidade há seis anos na igreja na frente dos seus pais e amigos? Vai implorar perdão ao homem que lhe provocava arrepios e arrancava gemidos todas às malditas noites? Em vagabunda... RESPONDA!
_ Eu juro que.... - começou ela quase gritando
_ Cale-se. - cortou ele - Eu responderei pra você e a resposta é NÃO, para todas. Não serei mais o bobo da corte.
_ Posso tirar a arma agora? - perguntei humildemente.
_ Saia já daí com isso. - disse ele - Acabarei com isso agora.
_ Por favor - supliquei a ele enquanto atirava a espingarda no chão e corria a vestir minhas roupas - Por favor, me perdoe.. Nos perdoe. Não parei pra pensar no grave erro...
_ Suas palavras são inúteis - respondeu ele - é melhor ficar calado.
"E ao dizer isso se aproximou de mim com passos largos e pesados e fez esse estrago na minha cara". - Ele apontou para a face coberta de hematomas e profundos arranhões.
_ Como pode ser tão pobre de espírito a ponto de enganar um cara que sempre lhe tratou bem? - dizia ele enquanto quebrava minha cara - Como pode fazer isso a um homem que o via como um amigo?
"Então, a Sra. Rodrigues despertou do transe e medo que a paralisava e pulou nas costas do marido e o derrubou, mas o infeliz era ágil como um gato, antes que eu pudesse me erguer e aproveitar a situação para dominá-lo, ele já estava de pé apontando a arma na cara da mulher ao mesmo tempo em que a jogava na cama."
_ Eu te amava - disse ele lamuriento - Eu te amo. Sempre fui um homem bom. Talvez meu erro esteja ai, não é? Ser bom e honesto de mais com você!... Imagina, seu não tivesse vindo agora para pegar alguns pregos, só Deus sabe até quando você continuaria me enganando.
_ Norberto, por favor, - disse eu me erguendo aos poucos - vamos conversar, largue a arma e vamos conversar civilizadamente.
_ Cale-se e sente-se ai, seu ogro sujo.
"Ele então se deitou em cima da mulher e a beijou, senhor delegado, ele ainda a beijou na boca e ela correspondeu. Mas apontava a arma pra cabeça dela. Eu senti que podia fazer algo no momento, mas não me veio nada em mente, o horror e o medo me paralisaram. Vi ele elevar o bumbum pra cima, ainda beijando-a enquanto a mão que segurava a arma decia sorrateiramente para baixo pra se encaixava dentro da vagina da mulher. Ela empurrou-o quando sentiu o cano frio novamente e foi nesse momento que ele atirou, sim, senhor delegado. Ele atirou dentro da genitália dela e creio que a bala foi parar perto da sua goela. O que se sucedera depois foi muito difuso e rápido. Ele se levantou ao mesmo tempo em que me dirigia a ele. Não sei o que pensava naquele momento, vi uma lagrima se desprender de seus olhos, mas nunca saberei se era de remorso de ter atirado na esposa ou por ter sido traído."
"Mergulhei então em cima dele e caímos deitados na cama, em cima da Sra. Rodrigues que por sinal dava seus últimos espasmos. Travamos uma luta ali, nos lambuzando naquele sangue. Por fim consegui tirar a arma dele e logo ordenei que tirasse a roupa, ele implorou, chorou e obedeceu. Mandei-o fazer o que ordenara que eu fizesse com a infeliz e por fim, dei dois tiros no anus do desgraçado, que caiu no chão imóvel. Foi nesse instante que o empregado dele chegou e me viu apontando a arma para o copo do seu patrão no chão. Creio que ouvira o primeiro disparo e correra para ver do que se tratava. Ele gritou ao ver a cena e admiro a coragem dele, apesar de tudo ele voou ate mim e me socou a cara, como se eu precisasse de mais um golpe pra deformar ainda mais meu rosto. Deixei que ele me tomasse a arma e contei pra ele o acontecido enquanto verificava se seus patrões ainda estavam vivos. Não sei se me ouviu. Ele então ligou pra policia da qual não demorara mais que uma hora e meia pra chegar ao local que fica á quinze quilômetros desta cidade."

Ouve um longo e pesado selênico em que nenhum dos dois ouvia sequer a chuva lá fora, pois estavam mergulhados em pensamentos.
_É uma historia e tanto - disse o delegado, por fim - Difícil até de acreditar, pois nunca ouvi algo tão horrendamente semelhante. Dar tiro nas partes íntimas...
_ Ele ia me matar também Sr. delegado - disse o caipira - Matei para me defender. Foi em legitima defesa.
O delegado o estudou por alguns segundos. Não havia mentira no olhar do homem a sua frente. E ele conhecia muito bem quando um criminoso falava a verdade ou não. Afinal, havia mais de dez anos que trabalhava naquela sala.
_ Passará uma temporada preso, meu caro, até tudo ser esclarecido. - disse o delegado se levantando e se dirigindo a ele - Farei investigações, ouvirei a testemunha... Mas sabe de uma coisa? - ele agora estava atrás do caipira - Vamos nos divertir muito enquanto isso, Tiãozão! - terminou ele pousando as mãos nos ombros de Tião.

Fim

de Bruno Wolff

Outubro de 2010