quinta-feira, 18 de agosto de 2011

O ESPÍRITO DA PRAÇA



Rita acordara assustada a altas horas da noite com o bater de asas e olhando ao redor com os olhos meio turvos devido ao sono, vira á luz do luar que entrava pela janela entreaberta, uma coruja cinzenta pousada sobre sua escrivaninha. Esta a encarava com olhos acusadores e odiosos. Irritadíssima, Rita pegara um livro sobre seu criado mudo e atirara na ave, mas esta desviara do objeto com precisão e fora pousar no peitoril da janela.

Se levantou para espantar a ave, mas ao se aproximar da janela, ela abrira as asas ameaçadoramente e inesperadamente, para o horror de Rita, a coruja falara com ela com uma voz jovem e conhecida:
_ Te espero lá em cima. E voou para a praça mal iluminada e desmantelada no alto do morro ao redor da cidade.

Cheia de horror, Rita escorregou para o chão e pôs-se a chorar. Não agüentava mais. Há um ano era atormentada pelo espírito da garota da praça. Sonhava com ela e às vezes acordava e a via ao lado de sua cama, exigindo que fosse ao seu encontro.
Determinada a enfrentar o espírito e acabar com aquele tormento, Rita pulara a janela, de camisola branca, e se dirigiu para a praça no alto do morro. Andou por ruas desertas e silenciosas, sendo vigiada pela lua que mais parecia um olho sem pupila a observá-la do alto. Quando chegou à estradinha de paralelepípedo que levava ao alto do morro, parou e olhou para trás, com vontade de voltar. O medo a invadira ainda mais, sabia, tinha quase certeza de que se subisse, desceria dali sem vida, ou talvez apodrecesse lá em cima, uma vez que aquela praça era evitada por todos da cidade por causa das mortes ocorridas ali. Mas tinha que enfrentar seu medo ou viveria o resto de sua vida sendo atormentada pelo espírito da garota. Naquela noite inovara seu assombro possuindo uma coruja para chamá-la até lá. Que meios mais ou animais ela usaria para convencer Rita a subir lá em cima? Rita não queria descobrir e pensando nisso, começou a subir a estradinha tortuosa. Iria tentar por fim naquele tormento naquela noite. Imploraria a menina, de joelhos, para que ela parasse. Que a perdoasse. O vento assoviava em seus ouvidos enquanto subia o morro e animais ocultos farfalhavam os arbustos ao redor parecendo segui-la.

Quando finalmente chegou à praça, Rita viu o espírito da menina sentado num banco trincado sob um ipê amarelo. Sua luminosidade se destacava á sombra da árvore. Seu coração disparou descontrolado e suas vistas escureceram, respirou fundo, tinha que ter coragem, já chegara até ali.
_ Sabia que cedo ou tarde você acabaria vindo. – disse ela sem se virar.
_ Vim pois não agüento mais seus tormentos, Gnazzula. - falou Rita se esforçando para manter a voz firme _ Vamos acabar com isso agora. Quero que me perdoe e que me deixe em paz.
Gnazzula riu, uma risada alta, sem emoção que rapidamente fora levada pelo vento.
_ Você não teve compaixão de mim. Me odiava e me atormentava sem eu nunca ter te dado motivos para isso. Ficarei em paz quando me vingar de você. Assim partirei feliz para onde quer que seja.
_ Gnazulla, – começou Rita agora se aproximando – Eu reconheço que errei, que fui mau com você, mas peço, imploro que me perdoe. Se pudesse voltar no tempo, juro que jamais faria o que fiz...
A menina no banco balançou a cabeça negativamente, se levantou e se dirigiu a Rita que logo desviou o olhar. Não suportava olhar para aquela cabeça amassada, sangrenta e transparente.
_ Mas não se pode voltar no tempo. Pode-se receber a recompensa dos atos cometidos no passado. Aqui se faz e aqui se paga, meu bem. Você e seus amigos, Éder e Dione me atormentaram na escola feito demônios. Riam do meu cabelo crespo, da minha cara espinhenta, do meu nome diferente... Botavam apelidos grosseiros e preconceituosos. Diziam que devido a minha feiúra ‘monstruosa’ homem nenhum se apaixonaria por mim. Me odiavam pelo simples fato de me acharem feia... Com isso fui ficando cada vez mais triste e descontente comigo mesma, sabe?,retraída. Comecei a achar que vocês tinham razão, que jamais um homem se interessaria por mim já que até então nenhum havia me olhado diferente ou me convidado para sair. Mas um dia, essa nuvem negra se foi após receber um bilhete anônimo. De um admirador secreto! – Ganazulla sorriu sonhadora em deleite, se lembrando da alegria que sentira com aquela surpresa - No bilhete, escrito com letras recortadas de revistas, li o mais belo poema escrito por um garoto que se dizia tímido e que estava perdidamente apaixonado por mim. Isso pra mim fora o remédio para me curar da depressão que se instalava em minha alma. Durante meses os bilhetes perduraram, cheios de amor, com promessas até de casamento. Com isso, os insultos de vocês não me machucavam mais, cheguei até a mostrar um dos bilhetes pra vocês na esperança de que terminassem com a zombaria. Vocês apenas riram, e continuaram a me abominar.

“ Por várias vezes, na hora do recreio, sentada no banco do pátio, sozinha, me punha a observar os garotos da escola. Tentava imaginar qual deles estava apaixonado por mim. As vezes me perguntava com raiva porque não se revelava logo. Dizia ele nos bilhetes que era tímido e que estava se preparando para se revelar. Eu estava disposta a esperar, mesmo ansiosa e apaixonada, sim, apaixonada por um garoto que nem sabia quem era”.
“Então finalmente, quatro meses mais ou menos depois de receber o primeiro bilhete, ele me escreveu dizendo que iria se revelar, que iria se encontrar comigo nesta praça, assim que o sol se escondesse atrás dos montes. Quando li aquilo um balão de felicidade se encheu dentro de mim e quase me sufocou, de tanta alegria. Naquela tarde não vi o sol se por pois o céu estava nublado, prometendo uma tormenta, mas mesmo assim, quando começou a escurecer, me arrumei da melhor forma e sai escondida pois minha madrasta não permitia que eu saísse depois das dezoito horas e esperei neste banco. – ela apontou para o qual estava sentada - Quando cheguei não havia ninguém, por causa da chuva que estava por vir, mas mesmo assim esperei e depois de um tempo, ouvi passos que se aproximavam e quando me virei, me deparei com vocês três, rindo feito loucos. Perguntei o motivo da graça e vocês então me contaram a verdade. Disseram que não havia um admirador secreto, que eram vocês que escreviam os bilhetes. Aquilo pra mim fora indescritivelmente horrível, senti o balão de felicidade dentro de mim se estourar e ser substituído por outro de tristeza. Como se não bastassem vocês me rodearam e riram cada vez mais de mim, enquanto as lagrimas manchavam meu rosto. Não soube como agir, só olhava pra vocês, tão lindos mas tão malvados quanto o diabo. A chuva então veio e vocês continuaram. Ela se misturava com minhas lagrimas, borrava minha maquilagem, me deixando ainda mais feia, como você mesma dissera. Quando por fim criei forças para ir embora, um raio cortou o céu e partiu o galho mais grosso e alto deste ipê que caiu em minha cabeça pesadamente. Assustados, vocês correram, sem ver se eu ainda estava viva, sem prestar socorro. Enquanto corriam eu, em espírito ao lado do meu corpo ensangüentado, prometi que me vingaria de todos vocês aqui, que só partiria quando acabasse com todos.
Rita ouvia prostrada de joelhos diante dela, cada frase dita arrancava-lhe lagrimas de remorso e repulsa:
“E uma oportunidade de vingança veio horas depois, quando Éder veio acompanhado de policias. Vi-o contar a eles como morri, mas não mencionara o tormento que me fizeram e o motivo por ter ido ali. Acabei com ele indiretamente, na verdade. Ele ajudou a carregar meu corpo e quando me colocaram na ambulância, ele olhou para o meu corpo, pro meu rosto e eu abri os olhos e o encarei. Prometi que o atormentaria pelo resto da vida, ninguém viu, claro, apenas ele. Vi o desespero em seus olhos. Ele desceu atordoado o morro a pé e sozinho e naquela tarde se matou, como sabe.
_Ele ingeriu grande quantidade de veneno de rato - disse Rita _ ... Então foi por isso. Pensei que se matou de remorso...
_ Não. – disse Gnazulla séria. _ Se matou por medo de me enfrentar. Um garoto como ele não sente remorso. Dione voltou aqui um mês depois com seu pastor alemão depois de tanto assombrá-lo exigindo que viesse até aqui. Pediu-me desculpas, mas não acho que estava mesmo arrependido, queria mesmo era se livrar de mim. Possuí então seu animal. Olhei para ele e disse através do cachorro: “Você vai morrer”, e o ataquei. Dilacerei seu corpo, abri sua barriga, pondo suas vísceras à mostra. Fora tão prazeroso! Você como não é burra desconfiou que eu estava por trás disso tudo e não voltou mais aqui mesmo eu lhe chamando toda noite e você nada de aparecer. Esta noite achei melhor inovar e possuí aquela coruja para sair da rotina e tentar trazê-la aqui e você veio e está aos meus pés, vulnerável. Entregue a mim.

– Não sabe a dor que sinto pelo que fiz...
_ Que nada! Você nem se confessou. Não disse a ninguém que eram você e seus amigos que escreviam os bilhetes e que foi por causa de vocês que eu morri.
_ Farei isso e o que mais você pedir. Eu prometo. Por favor, me poupe.
Gnazulla a encarou com os olhos semi-serrados por um momento, fez um gesto afirmativo com a cabeça e falou:
_ Sim, quero que conte toda a verdade! Todos devem saber o quanto foram covardes.
Rita riu tremulamente aliviada. Não vou morrer, pensou. Olhou para a garota morta á sua frente e viu apenas uma massa brilhante de fumaça subir até o ipê amarelo e entrar pelo bico da coruja que permanecera ali todo o tempo. A coruja alçou vôo e voou até Rita. Atacou seu rosto arranhando-o e bicando-o. Furara um de seus olhos, arranhara cada parte daquele corpo esbelto coberto por uma fina camisola. Por fim, com a camisola rasgada e coberta de sangue, a ave a deixou e vôou para longe após o espírito de Gnazzula sair de dentro dela.

Ela então olhou para o corpo sangrento e agonizante diante de si e disse:
_ Conte para todos o que aconteceu aquela noite. Se continuar calada, voltarei e não serei uma garota boa. E pode ter certeza que ninguém vai querê-la por perto, e não será devido a sua beleza destruída, será pela negridão do seu coração.
Gnazzula então começou a rir, agora uma risada aguda, triunfante. Lançou um olhar cheio de repulsa e nojo a Rita e desapareceu.

FIM

de Bruno Wolff


12 comentários:

  1. Muito bom mesmo!!! Adoro contos de terror!!! Maneiro

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  2. Muito bom.
    Me lembro do dia em que você me perguntou se eu conhecia algum caso de possessão animal, era buscando material para esse conto então.

    Parabéns, foi um assunto clássico, mas muito bem abordado, cara.

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  3. Puta historia, se fosse um filme ate levaria alguns sustos,so acho que vc poderia dividir em mais postagem pois fica algo muito grande e complexo de se ler

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  4. Gostei do conto , eu ja prefiro ler de uma vez só para não quebrar o clima .
    seguindo seu blog , segue o meu ae

    http://andyantunes.blogspot.com/

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  5. Que vingativa sua personagem... Mas gostei do conto... Prendeu a atenção... teve suspense...

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  6. "E pode ter certeza que ninguém vai querê-la por perto, e não será devido a sua beleza destruída, será pela negridão do seu coração."

    Caraca" Adorei esse final..Muito bom mesmo! Parabéns

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  7. Me prendeu completamente a atenção, muito sinistro.. Mas muito bom, adorei!
    http://lollyoliver.wordpress.com

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  8. Em plena semana do folclore um pouco de sobrenatural cai bem!

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  9. adoreeei o blog e estou seguindo!!


    qnd tiver um tempinho, se quiser conhecer o meu serah mt bm vindo!


    grande beijo


    http://cabecafeminina.blogspot.com/

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  10. UM PARABÉNS VC TEM UMA IMAGINAÇÃO INCRIVÉL E UM TALENTO INDESCRITIVÉL PARABÉNS DE VERDADE!

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  11. caramba! seu blog é muito doido. gosto disso.kkk. parabéns pela criatividade.blogestarcomvoce.blogspot.com

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  12. A trama, em si, é muito boa! Gostei da criatividade!

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