segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Histórias Fantásticas vol 2


No final de 2010, fui selecionado para participar da antologia Histórias Fantásticas vol 2 com um conto intitulado "O Segredo de Jonathan". É a estória de um violinista apaixonado que ao chegar de viagem é obrigado a tomar atitudes nada normais para reencontrar sua amada. O livro, escrito por autores nacionais, será lançado oficialmente no final deste ano mas já se encontra á venda e pode ser adquirido pelo site da editora: http://www.lojadacidadela.com.br/produto/historias-fantasticas-volume-ii/66.html
A antologia prenderá o leitor com suas histórias cativantes, repletas de ação, suspense, horror, reflexão... e muita fantasia. Não deixe de adquiri-lo e se prepare para conhecer o segredo de Jonathan.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

O ESPÍRITO DA PRAÇA



Rita acordara assustada a altas horas da noite com o bater de asas e olhando ao redor com os olhos meio turvos devido ao sono, vira á luz do luar que entrava pela janela entreaberta, uma coruja cinzenta pousada sobre sua escrivaninha. Esta a encarava com olhos acusadores e odiosos. Irritadíssima, Rita pegara um livro sobre seu criado mudo e atirara na ave, mas esta desviara do objeto com precisão e fora pousar no peitoril da janela.

Se levantou para espantar a ave, mas ao se aproximar da janela, ela abrira as asas ameaçadoramente e inesperadamente, para o horror de Rita, a coruja falara com ela com uma voz jovem e conhecida:
_ Te espero lá em cima. E voou para a praça mal iluminada e desmantelada no alto do morro ao redor da cidade.

Cheia de horror, Rita escorregou para o chão e pôs-se a chorar. Não agüentava mais. Há um ano era atormentada pelo espírito da garota da praça. Sonhava com ela e às vezes acordava e a via ao lado de sua cama, exigindo que fosse ao seu encontro.
Determinada a enfrentar o espírito e acabar com aquele tormento, Rita pulara a janela, de camisola branca, e se dirigiu para a praça no alto do morro. Andou por ruas desertas e silenciosas, sendo vigiada pela lua que mais parecia um olho sem pupila a observá-la do alto. Quando chegou à estradinha de paralelepípedo que levava ao alto do morro, parou e olhou para trás, com vontade de voltar. O medo a invadira ainda mais, sabia, tinha quase certeza de que se subisse, desceria dali sem vida, ou talvez apodrecesse lá em cima, uma vez que aquela praça era evitada por todos da cidade por causa das mortes ocorridas ali. Mas tinha que enfrentar seu medo ou viveria o resto de sua vida sendo atormentada pelo espírito da garota. Naquela noite inovara seu assombro possuindo uma coruja para chamá-la até lá. Que meios mais ou animais ela usaria para convencer Rita a subir lá em cima? Rita não queria descobrir e pensando nisso, começou a subir a estradinha tortuosa. Iria tentar por fim naquele tormento naquela noite. Imploraria a menina, de joelhos, para que ela parasse. Que a perdoasse. O vento assoviava em seus ouvidos enquanto subia o morro e animais ocultos farfalhavam os arbustos ao redor parecendo segui-la.

Quando finalmente chegou à praça, Rita viu o espírito da menina sentado num banco trincado sob um ipê amarelo. Sua luminosidade se destacava á sombra da árvore. Seu coração disparou descontrolado e suas vistas escureceram, respirou fundo, tinha que ter coragem, já chegara até ali.
_ Sabia que cedo ou tarde você acabaria vindo. – disse ela sem se virar.
_ Vim pois não agüento mais seus tormentos, Gnazzula. - falou Rita se esforçando para manter a voz firme _ Vamos acabar com isso agora. Quero que me perdoe e que me deixe em paz.
Gnazzula riu, uma risada alta, sem emoção que rapidamente fora levada pelo vento.
_ Você não teve compaixão de mim. Me odiava e me atormentava sem eu nunca ter te dado motivos para isso. Ficarei em paz quando me vingar de você. Assim partirei feliz para onde quer que seja.
_ Gnazulla, – começou Rita agora se aproximando – Eu reconheço que errei, que fui mau com você, mas peço, imploro que me perdoe. Se pudesse voltar no tempo, juro que jamais faria o que fiz...
A menina no banco balançou a cabeça negativamente, se levantou e se dirigiu a Rita que logo desviou o olhar. Não suportava olhar para aquela cabeça amassada, sangrenta e transparente.
_ Mas não se pode voltar no tempo. Pode-se receber a recompensa dos atos cometidos no passado. Aqui se faz e aqui se paga, meu bem. Você e seus amigos, Éder e Dione me atormentaram na escola feito demônios. Riam do meu cabelo crespo, da minha cara espinhenta, do meu nome diferente... Botavam apelidos grosseiros e preconceituosos. Diziam que devido a minha feiúra ‘monstruosa’ homem nenhum se apaixonaria por mim. Me odiavam pelo simples fato de me acharem feia... Com isso fui ficando cada vez mais triste e descontente comigo mesma, sabe?,retraída. Comecei a achar que vocês tinham razão, que jamais um homem se interessaria por mim já que até então nenhum havia me olhado diferente ou me convidado para sair. Mas um dia, essa nuvem negra se foi após receber um bilhete anônimo. De um admirador secreto! – Ganazulla sorriu sonhadora em deleite, se lembrando da alegria que sentira com aquela surpresa - No bilhete, escrito com letras recortadas de revistas, li o mais belo poema escrito por um garoto que se dizia tímido e que estava perdidamente apaixonado por mim. Isso pra mim fora o remédio para me curar da depressão que se instalava em minha alma. Durante meses os bilhetes perduraram, cheios de amor, com promessas até de casamento. Com isso, os insultos de vocês não me machucavam mais, cheguei até a mostrar um dos bilhetes pra vocês na esperança de que terminassem com a zombaria. Vocês apenas riram, e continuaram a me abominar.

“ Por várias vezes, na hora do recreio, sentada no banco do pátio, sozinha, me punha a observar os garotos da escola. Tentava imaginar qual deles estava apaixonado por mim. As vezes me perguntava com raiva porque não se revelava logo. Dizia ele nos bilhetes que era tímido e que estava se preparando para se revelar. Eu estava disposta a esperar, mesmo ansiosa e apaixonada, sim, apaixonada por um garoto que nem sabia quem era”.
“Então finalmente, quatro meses mais ou menos depois de receber o primeiro bilhete, ele me escreveu dizendo que iria se revelar, que iria se encontrar comigo nesta praça, assim que o sol se escondesse atrás dos montes. Quando li aquilo um balão de felicidade se encheu dentro de mim e quase me sufocou, de tanta alegria. Naquela tarde não vi o sol se por pois o céu estava nublado, prometendo uma tormenta, mas mesmo assim, quando começou a escurecer, me arrumei da melhor forma e sai escondida pois minha madrasta não permitia que eu saísse depois das dezoito horas e esperei neste banco. – ela apontou para o qual estava sentada - Quando cheguei não havia ninguém, por causa da chuva que estava por vir, mas mesmo assim esperei e depois de um tempo, ouvi passos que se aproximavam e quando me virei, me deparei com vocês três, rindo feito loucos. Perguntei o motivo da graça e vocês então me contaram a verdade. Disseram que não havia um admirador secreto, que eram vocês que escreviam os bilhetes. Aquilo pra mim fora indescritivelmente horrível, senti o balão de felicidade dentro de mim se estourar e ser substituído por outro de tristeza. Como se não bastassem vocês me rodearam e riram cada vez mais de mim, enquanto as lagrimas manchavam meu rosto. Não soube como agir, só olhava pra vocês, tão lindos mas tão malvados quanto o diabo. A chuva então veio e vocês continuaram. Ela se misturava com minhas lagrimas, borrava minha maquilagem, me deixando ainda mais feia, como você mesma dissera. Quando por fim criei forças para ir embora, um raio cortou o céu e partiu o galho mais grosso e alto deste ipê que caiu em minha cabeça pesadamente. Assustados, vocês correram, sem ver se eu ainda estava viva, sem prestar socorro. Enquanto corriam eu, em espírito ao lado do meu corpo ensangüentado, prometi que me vingaria de todos vocês aqui, que só partiria quando acabasse com todos.
Rita ouvia prostrada de joelhos diante dela, cada frase dita arrancava-lhe lagrimas de remorso e repulsa:
“E uma oportunidade de vingança veio horas depois, quando Éder veio acompanhado de policias. Vi-o contar a eles como morri, mas não mencionara o tormento que me fizeram e o motivo por ter ido ali. Acabei com ele indiretamente, na verdade. Ele ajudou a carregar meu corpo e quando me colocaram na ambulância, ele olhou para o meu corpo, pro meu rosto e eu abri os olhos e o encarei. Prometi que o atormentaria pelo resto da vida, ninguém viu, claro, apenas ele. Vi o desespero em seus olhos. Ele desceu atordoado o morro a pé e sozinho e naquela tarde se matou, como sabe.
_Ele ingeriu grande quantidade de veneno de rato - disse Rita _ ... Então foi por isso. Pensei que se matou de remorso...
_ Não. – disse Gnazulla séria. _ Se matou por medo de me enfrentar. Um garoto como ele não sente remorso. Dione voltou aqui um mês depois com seu pastor alemão depois de tanto assombrá-lo exigindo que viesse até aqui. Pediu-me desculpas, mas não acho que estava mesmo arrependido, queria mesmo era se livrar de mim. Possuí então seu animal. Olhei para ele e disse através do cachorro: “Você vai morrer”, e o ataquei. Dilacerei seu corpo, abri sua barriga, pondo suas vísceras à mostra. Fora tão prazeroso! Você como não é burra desconfiou que eu estava por trás disso tudo e não voltou mais aqui mesmo eu lhe chamando toda noite e você nada de aparecer. Esta noite achei melhor inovar e possuí aquela coruja para sair da rotina e tentar trazê-la aqui e você veio e está aos meus pés, vulnerável. Entregue a mim.

– Não sabe a dor que sinto pelo que fiz...
_ Que nada! Você nem se confessou. Não disse a ninguém que eram você e seus amigos que escreviam os bilhetes e que foi por causa de vocês que eu morri.
_ Farei isso e o que mais você pedir. Eu prometo. Por favor, me poupe.
Gnazulla a encarou com os olhos semi-serrados por um momento, fez um gesto afirmativo com a cabeça e falou:
_ Sim, quero que conte toda a verdade! Todos devem saber o quanto foram covardes.
Rita riu tremulamente aliviada. Não vou morrer, pensou. Olhou para a garota morta á sua frente e viu apenas uma massa brilhante de fumaça subir até o ipê amarelo e entrar pelo bico da coruja que permanecera ali todo o tempo. A coruja alçou vôo e voou até Rita. Atacou seu rosto arranhando-o e bicando-o. Furara um de seus olhos, arranhara cada parte daquele corpo esbelto coberto por uma fina camisola. Por fim, com a camisola rasgada e coberta de sangue, a ave a deixou e vôou para longe após o espírito de Gnazzula sair de dentro dela.

Ela então olhou para o corpo sangrento e agonizante diante de si e disse:
_ Conte para todos o que aconteceu aquela noite. Se continuar calada, voltarei e não serei uma garota boa. E pode ter certeza que ninguém vai querê-la por perto, e não será devido a sua beleza destruída, será pela negridão do seu coração.
Gnazzula então começou a rir, agora uma risada aguda, triunfante. Lançou um olhar cheio de repulsa e nojo a Rita e desapareceu.

FIM

de Bruno Wolff


quarta-feira, 16 de março de 2011

A ULTIMA VIAGEM



Em meados do século XVII, o Grande Galeão recheado de ouro, prata e açucar, navegava imponente na noite fria e nevoenta no mar do Caribe. A maioria da tripulação (que era nada menos que duzentos marujos ao todo) descansava nas cabines e sonhavam com a chegada a Inglaterra onde beberiam muito rum nas tabernas e transariam em demasio, enquanto alguns trabalhavam no convés sendo observados pelo jovem capitão John. Enquanto caminhava pelo convés, apertando algo no bolso da calça, o capitão ditava ordens e vez ou outra, ajudava um marujo a puxar uma corda. Diferente das outras viagens que fizera, o capitão estava um pouco entristecido. O motivo era que aquela seria sua última viagem como capitão depois de cinco anos comandando o navio. Gostava muito da sua profissão, embora fosse um tanto arriscada, pois a qualquer momento, poderia ser atacado por piratas, saqueado, perder seus marujos e até acabar sendo morto. Mas isso nunca o impedira de seguir viagem, pelo contrário, achava que esses riscos temperavam ainda mais a aventura. Mas ele tinha certeza que iria se conformar mais tarde, afinal, estava abandonando a profissão para se casar com uma jovem que amava imensamente e não ficaria sem emprego, gerenciaria uma das empresas do pai.
Com o coração um pouco mais leve ao se imaginar num domingo no quintal de sua casa em Londres plantando legumes com a mulher enquanto os futuros filhos brincavam na terra, o capitão se dirigiu a proa e tirou o objeto que segurava no bolso. Era um anel de ouro incrustado de diamantes. Fora sua mãe quem o dera na véspera de sua morte, há quinze anos quando ele ainda era um adolescente obcecado pela vida no mar. Dissera ela que seu tataravô comprara o anel para sua tataravó e o mostrou a um amigo faquir que encantara o anel para ele. Segundo o faquir, o anel deveria ser dado a quem se amasse muito e a pessoa que o receber, poderia fazer um pedido ao qual seria realizado. O anel tinha o poder de realizar qualquer pedido, menos trazer a vida de volta. A mãe do capitão dissera que sua tataravó não acreditava no poder do anel, por isso, jamais fizera um pedido a ele, afinal, tinha tudo o que queria, um homem que amava, dinheiro e saúde e não fora diferente com as outras pessoas que o possuíram, ao ser passado de geração a geração. Nem mesmo a mãe do capitão acreditara, ela assim como ele, achava aquila história de encantamento uma babaquice. O capitão havia planejado meses atrás dar o anel na sua festa de noivado que seria dali a uma semana, um dia depois de chegar a Londres, mas achava que não conseguiria esperar mais nem um dia. Lucy acompanhava-o naquela última viagem e devido a isso a fome de vê-lo no delicado dedo da moça era incontrolável. Resolveu então dá-lo a ela assim que a visse pela manhã.
_ Então, senhor capitão – disse uma voz doce atrás dele, sobressaltando-o – Vai preferir passar a noite nesse convés frio á dormir na sua cabine confortável e quente?
O capitão repondo o anel no bolso virou-se e um sorriso se iluminou na sua face branca e pálida.
_ Quero aproveitar – disse segurando as mãos de Lucy – Afinal, essa é minha última viagem.
Ao dizer isso, Lucy baixou o olhar e uma fina ruga de preocupação surgiu em sua fronte.
_ Espero que esteja fazendo a o que acha melhor, John. Sei o quanto gosta do mar e... me sinto culpada por...
_ Não, Lucy... – interrompeu-a o capitão erguendo seu queixo para que ela o fitasse – Estou fazendo a escolha certa. Amo o mar imensamente, mas meu desejo de ficar contigo, de ter filhos e estar presente em sua vida todos os dias é maior do que minha vontade de continuar como capitão. Seria tolo se abrisse mão do amor que sinto por você para viver no mar. Abro mão de qualquer coisa para ficar com você, pois você é o que ha de mais importante em minha vida. Vamos! Não precisa se sentir culpada.
Ele então a abraçou e ela aconchegou seu rosto em seu peito e os dois ficaram um longo momento assim. Os marujos os observavam discretamente, ávidos de vontade de ter uma mulher para abraçar naquela noite fria, mas deviam se conformar, pois Lucy era a única mulher a bordo e eles deveriam vê-la como um homem.
_ Tenho uma coisa para você – disse o capitão de repente e afastando-se um pouco retirou o anel do bolso e ergueu a delicada mão de Lucy – É o anel de noivado, deveria dá-lo a você solenemente no dia da festa, mas não vejo problema algum em dá-lo agora. Ele então colocou o anel. Alguns marujos exclamaram, mas o casal nem ouviu, pois naquele momento tinham olhos e ouvidos apenas um para o outro.
- É lindo! – exclamou uma Lucy que não cabia em si de alegria – Isso quer dizer então que já estamos noivos?
_ Digamos que sim.
_ Mas... mas é tão... Não posso aceitar...
_ Lucy, esse anel tem passado de geração em geração em minha família. É dado para a pessoa que se ama. Foi minha mãe quem me deu. Nunca o usei é claro pois é um anel feminino. Creio que se minha mãe tivesse tido uma filha mulher... O fato é que o guardei para dar a mulher que escolhi para ser mãe dos meus filhos, a que mais amo nesse mundo.
_ John – disse Lucy suspirando – Se era da sua mãe você deveria guardá-lo, é uma lembrança, um...
_ Não, Lucy. É mais prazeroso vê-lo em seu dedo do que na caixinha encardida que o guardava. Haaa! – exclamou ele como quem se esquece de dizer uma coisa importante – Este anel é bem peculiar, sabe? – e contou a história do anel num tom divertido –Então – continuou ele observando a expressão surpresa de Lucy - quando quiser de todo coração algo, peça, seja o que for, menos que um defunto levante de sua tumba, o anel realizará seu desejo. Mas será apenas um, portanto, sugiro que faça o pedido numa noite, quando meu pai me segurar na empresa depois do horário, peça para que ele me libere logo para que eu possa ir embora vê-la, ou para que caiba num de seus vestidos após ter tido dez filhos ou...
_ Ei! – disse Lucy em meio a risos – Eu não quero engordar nunca. Vai que você resolva trocar a ‘leitoa’ por uma ‘gazela’!
_Hum! Se bem que não é uma má idéia!
Lucy lhe dera um tapa de leve e os dois riram.
_ Bem! – disse o capitão tentado conter o riso – Volte a dormir na sua cabine, daqui a pouco irei para a minha. Não quero que fique com olheiras porque senão acabarei trocando a ‘futura leitoa’ pela gazela mais cedo do que imagina!
E os risos entre eles explodiram como fogos de artifício.
_ Brincadeira – disse o capitão abraçando-a novamente e ficando sério – Prometo que a amarei sempre, pelo resto da vida e não haverá nunca outra mulher capaz de te substituir.
Lucy agora também séria, os olhos brilhando de paixão encarou-o e o capitão a beijou suavemente. A luz do luar tentava em vão atravessar a cortina nevoenta para abençoá-los e os marujos não conseguiram disfarçar agora o olhar sobre eles e o desejo de chegar a Londres ardia ainda mais em cada um. Então, inesperadamente um tiro de canhão fez com que o casal se despregasse assustados e olhando ao redor o capitão viu, em meio a nevoa, um navio encardido de aparencia velha e imenso emparelhado com o Grande Galeão á alguns metros. Um outro tiro de canhão disparou e acertou um dos mastros e rachou-o. Os marujos assim como Lucy viam agora o gigantesco e ameaçador navio ao lado deles, com uma bandeira preta com uma caveira com dois ossos cruzados no topo do mastro.
_ Você tem que sair daqui – disse o capitão agarrando-a e levando-a para o castelo do navio – Fique na sua cabine e não saia de lá até o isso terminar - frisou ele agora no corredor das cabines onde os outros marujos que dormiam saiam para o convés. Alguns desesperados pediam instruções ao capitão que tinha os olhos esbugalhados em Lucy. – Fique deitada no chão e não saia até que tudo isso termine. Sua cabine é reforçada, é segura... VÁ.
Lucy então desesperada agora que os tiros de canhões aumentaram, correra para sua cabine enquanto o capitão berrava instruções. Os marujos pegavam suas armas, enquanto outros ficavam a postos dos canhões do Grande Galeão, se preparando para contra atacar. No convés os piratas já invadiam o navio, armados com punhais, mosquetes, machados e pistolas. Assim que pisavam no convés, esses homens de feições malignas, pele judiada e roupas encardidas e rasgadas avançavam para os marujos e atacavam enfurecidos. Logo o som aterrador de espadas colidindo, tiros de mosquetes, golpes de machados e tiros de canhões se mesclavam com os gritos de desespero, dor e fúria dos lobos e os ratos do mar.
Os ratos do mar (que eram os piratas) mesmo estando em numero maior não levavam muita vantagem contra os lobos que apesar de serem poucos, eram fortes e ágeis enquanto os piratas eram fracos e burros.
O capitão John armado de seu mosquete parecia incansável e invencível. Ao seu redor o número de cabeças e braços decepados aumentavam na media em que os piratas avançavam sobre ele. Até agora, os lobos do mar não avistaram o capitão pirata que observava a batalha no castelo de seu navio que era destruído a cada tiro de canhão.
Lucy permanecia estirada em sua cabine, mas se sentia covarde em estar ali enquanto seu amado lutava lá em cima com seus homens. Sabia que não poderia fazer muita coisa se decidisse lutar, ou melhor, não poderia fazer nada, não sabia nem segurar uma pistola, mas mesmo assim, decidiu sair e enfrentar a seu modo os piratas. Sentia também uma necessidade e um desespero descontrolado de ver o capitão. Quando saiu da cabine, viu o corredor coberto de sangue e corpos espalhados, o horror a abraçou aponto de quase sufocá-la mas isso só aumentou sua coragem e determinação para lutar. Apanhou uma pistola sangrenta no chão e saiu para o convés. A luta pelo jeito não iria demorar para terminar, dezenas de corpos jaziam no chão, a maioria eram seus companheiros. Horrorizada, olhou para os lados e viu John lutando com três ou quatro piratas armados com machados. Ela então, segurando, a pistola com as duas mãos, disparou nos ratos que o atacavam e por sorte acertou um na cabeça, isso pareceu animá-la. Subiu pelo mastro e apoiando-se nas cordas, disparou novamente, mas não saiu tiro algum. As balas haviam acabado. Frustrada e trêmula desceu e retirou um cutelo enfiado na barriga de um pirata e golpeou um, dois, três... Os que golpeava eram os que lutavam contra os marujos do Grande Galeão. Com seu vestido branco, manchado de sangue esgueirava-se e arrancava uma cabeça aqui e um braço ali e por um bom tempo continuou assim.
O Grande Galeão estava em destroços. Um dos mastros se partira no meio e havia destruição por toda parte. O casco fora atingido em vários pontos e quando o capitão John ao reparar na proa do seu navio que se inclinava, avistou Lucy lutando. O pavor em seu rosto aumentou, girou seu mosquete e arrancara duas cabeças e correra ao encontro de Lucy.
_ Você é louca? – bradou ele decepando mais uma cabeça de um pirata esguio que corria para atacar Lucy – Mandei ficar na cabine. Está tentando se matar?
_ Não pude evitar – respondeu ela cada vez mais surpresa consigo mesma. - Não sou uma covarde. – e afundou seu cutelo na garganta de um pirata baixinho.
_ Vou...
Mas o resto da frase ele não terminou, pois uma voz gutural e estridente o fez emudecer:
_ Resistam pestes! – disse um corpulento homem com uma juba de cabelos emaranhados e rosto cicatrizado que acabara de pular no navio. Usava roupas extravagantes e um feio chapéu preto. Seu rosto era de poucos amigos – Não têm a menor chance contra os homens do capitão Casca Grossa.
O capitão John aproveitando que agora não havia nenhum pirata desocupado perto dele, agarrou o braço de Lucy e levou-a em direção ao castelo destruído, mas o feio capitão se interpôs entre eles e agarrou o outro braço de Lucy que gritou. John se virou e tentou golpeá-lo, mas o outro, diferente dos demais piratas não era burro e nem lento, desviou com precisão do golpe, desarmou John e Lucy com seu mosquete e arrastou-a em direção ao seu navio. Uma bala de canhão atingira a lateral do castelo e lascas de madeira acertaram a barriga de John que parou na hora e, meio agachado, cobriu-a com as mãos. Lucy o fitava desamparada, enquanto era arrastada como um saco vazio. Via as mãos de John cobertas de sangue, ele a fitava também. Uma lágrima escorria de seus olhos e se misturavam ao suor. O pirata jogou Lucy no ombro, segurou uma corda e se preparou para atravessar, mas nesse momento, John se ergueu, tirou as mãos da barriga para apanhar seu mosquete e um emaranhado de tripas caíra para o chão, ele, com os olhos em Lucy tentou dizer algo, mas não conseguiu, tombou de lado e antes que batesse no chão, um machado lhe arrancara a cabeça e a arremessara no mar. Lucy gritou e chamou por ele, o capitão com um sorriso firmou-se na corda e como um macaco num cipó, atravessou para o seu navio.
Pouco tempo depois, os marujos do Grande Galeão jaziam mortos e os piratas que sobreviveram, saquearam apressadamente todo o ouro e prata e depois de alguns minutos, todos observavam satisfeitos o Grande Galeão ser engolido pelo mar e assim que ele desapareceu, os piratas urraram de alegria. Uma pequena orquestra começou a tocar e a festa começou.
Lucy não vira o Grande Galeão se afundar, pois fora levada ao castelo do navio e agora jazia numa cadeira. Lagrimas não paravam de rolar de sua face e um tremor descontrolável dominava seu corpo, fazendo a cadeira balançar também. Estava rodeada de piratas, todos cheirando a sangue. O capitão Casca Grossa sentara-se defronte a ela e fazia perguntas do tipo, “ Qual seu nome, florzinha?, “ Que idade tem?”... Como ela não respondia as simples perguntas, bombardeou-a com frases obscenas do tipo: “ Quer que eu a possua?” “Garanto que sou bom de cama, mas se você não se sentir satisfeita, posso dividi-la com minha turma aqui! Você quer, gazela?” Ela ignorava-o completamente. Na verdade mal ouvia o que ele dizia, repassava em sua mente a cena em que vira John morrer. Não queria acreditar, a poucas horas estavam os dois juntos e felizes, cheios de planos e agora John estava morto e ela nas mãos dos piratas.
Depois de tentar inutilmente fazê-la conversar, o capitão Casca Grossa irritou-se, chutou a cadeira em que se sentava e a colocou de pé:
_ Acho que a dança a animará.
Agarrou-a na cintura e pôs-se a dançar grotescamente enquanto os piratas babavam em êxtase e bebiam rum. Lucy o esmurrava, tentava morde-lo, livrar-se dele, mas isso só provocava risos do capitão e sua tripulação. Depois de tanto rodopiar, o capitão a jogou na mesa e disse:
_ Chega de dança. Vamos pra melhor parte.
Retirou o cinto e abaixou as calças:
_ Marujos imundos – disse ele olhando ao redor – Aprendam como se trata uma prostituta de Satã na cama.
E se jogou em cima dela. Ela gritou, xingou, berrou e esperneou e isso aumentou ainda mais o tesão do Casca Grossa. Ele tentou beijá-la, mas ela afastou sua cabeça grande e feia com as mãos e com isso viu o anel em seu dedo. Um raio de esperança surgiu, fechou os olhos, se concentrou no anel e disse:
_ Quero que sejam todos mortos pelos espíritos daqueles que morreram nas malditas mãos de vocês. Que sangrem e que sofram.
Ouve silêncio total, até a banda que tocava ao fundo parou após ouvir essas palavras. Eles se entreolharam e caíram na gargalhada logo em seguida.
_ Prostituta imunda e doida! – berrou o capitão – Acha que é uma bruxa? – e desferiu um golpe em seu rosto – Vou fazer essa prostituta gemer tanto que até no inferno ouvirão seus gemidos, depois, o que sobrar é de vocês.
Todos urraram concordando. O capitão ordenou para que segurassem os braços e as pernas dela e começou a se despir. Logo após tirar a camisa, um vento avassalador tomou conta do navio e formaram ondas enormes no mar. O navio fora sacudido em todas as direções, as ondas pareciam querer virá-lo. A bandeira no alto do mastro rasgou-se com a força do vento.
_ Que diabos. – xingou o capitão saindo de cima dela e se segurando para não cair – Tempestade agora NÃO! HOMENS, PARA O CONVÉS. LEVEM ESSA PROSTITUTA PARA O PORÃO, DEPOIS CUIDAREMOS DELA. RÁPIDO, BANDO DE LESMAS.
Três homens agarraram Lucy enquanto o resto corria atrapalhados para o convés, mas na mediada que saiam, berros e urros de pavor aumentavam. Os três piratas que seguravam Lucy a soltaram e correram para lá e Lucy convicta do que acontecia lá fora, os seguiu. O que viu fora uma cena que jamais iria esquecer, assim como a morte de John, mesmo que vivesse cem anos. Vultos prateados armados sobrevoavam o navio e atacavam. Enterravam cutelos, cimitarras, punhais, mosquetes dentre outras armas nos piratas que impotentes e assustados tentavam correr para escapar do ataque. Num canto o capitão Casca Grossa era atacado por inúmeros fantasmas que enfiavam apenas a ponta de suas armas para que sofresse mais, depois sem pressa, decapitaram suas pernas braços e o deixaram morrer agonizado. Lucy olhava por todo lado a procura de John, sabia que ele também deveria estar ali, mas não o via, os fantasmas eram muitos e moviam-se rapidamente ficando impossível contemplá-los por muito tempo. Os gritos foram diminuindo e em pouco tempo cessaram e o mar voltou a ficar calmo.
Os raios do sol foram surgindo ao longe e os fantasmas foram desaparecendo aos poucos. Lucy andava pelo convés chamando por John, mas sua esperança de vê-lo ia sumindo junto com eles. Por fim, ela o avistou. John sorria tristemente enquanto acenava. Ela o chamou de volta, mas ele ia subindo cada vez mais, até que desapareceu. Lucy chorou, escorregou no chão sobre o sangue e gritou agoniada. Quase rouca, contemplou friamente os corpos mutilados ao redor e desejou morrer. Pegou um punhal no chão e fitou-o, a luz do sol refletiu-se nele e quase a cegou. Foi até a borda do navio e cortou as cordas que prendiam um bote e ele caiu no mar.
Quando o sol estava alto e o navio pirata era apenas um pontinho preto no horizonte, no bote, Lucy contemplava pensativa o lindo anel em seu dedo e se odiava por não ter se lembrado dele na hora em que o Grande Galeão estava sendo atacado.
Cansada, deitou-se e cobriu o rosto com as mãos e adormeceu. Quando acordou, se viu a bordo de um navio mercante.

FIM
de Bruno Wolff

Março de 2011