segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

A OBRA-PRIMA




Julio limpou a baba da boca que sempre insistia em escorrer e se afastou para admirar sua obra de arte estirada na mesa. Passara a tarde inteira de domingo trabalhando naquele boneco de dois metros que mais parecia um espantalho empalhado com roupas velhas, vestido com um macacão sujo e rasgado e com uma bola de futebol como cabeça, coberta por um saco marrom. Ainda não estava acabado, faltavam colocar as mãos, orelhas, nariz, olhos, boca e cabelos e ali no seu ateliê não havia nada que pudesse fazer se transformar nisso tudo. Foi então que limpando novamente a baba viscosa, saiu do aposento, ( que na verdade era um porão) apanhou uma faca e uma sacola na cozinha e subiu para os quartos.
Enquanto subia as escadas consultou seu relógio de pulso. Eram sete e dez da noite. Sentiu um friozinho de ansiedade na barriga. Tinha que terminar o boneco antes de seus pais voltarem.Tivera a idéia de fazê-lo enquanto almoçava com a família.
_ Hoje vou fazer um boneco enorme. – dissera a eles.
_ Hum! Que interessante. – falou seu pai de boca cheia.
_ Será que você vai se superar? – perguntou a mãe empolgada - Será que vai ficar tão interessante quanto o vaso de flor que você fez para mim com palitos de fósforo, o cinzeiro pro o seu pai com chicletes mascados, o porta retrato feito de folhas de árvores, o...
_ Vai ficar sensacional mamãe – prometera ele. – Hoje estou um tanto inspirado.
_ Ótimo. Eu e seu pai vamos visitar a vovó Gnazzula agorinha há pouco. Vamos voltar ás nove e quando chegar espero vê-lo pronto e muito criativo!
_ Pode acreditar que sim. – respondera ele sorrindo, com os dentes cheios de alface.
Os três irmãos assistiram aquilo fazendo caretas, detestavam as coisas sem sentido que o ‘doidão’ - como o chamavam nas costas - criava.

No corredor, abriu a porta do quarto da Irmã mais nova de três anos e espiou lá dentro. A pentelha estava dormido abraçada a uma blusa da mãe. Julio entrou sem fazer barulho, admirou aquele vívido rostinho rosado e lindo pela ultima vez. No momento em que ele encostara a faca em sua pálpebra, ela acordou assustada, mas na mesma hora Julio arrancara a blusa de suas mãos e enfiara na boca da menina para que não gritasse, assim, debruçado em cima dela para conter as contorções, ele arrancara os dois olhos castanhos da pequena. O sangue rapidamente inundou a cama, a roupa rosa da menina e camiseta preta de Julio. Temendo que ela se levantasse e fizesse o maior escândalo berrando: ‘ DEVOLVA MEUS OLHOS, DEVOLVA MEUS OLHOS’, ele amarrou os braços e as pernas dela com roupas. Ele detestava barulho, principalmente enquanto estava ’criando’, isso atrapalhava sua concentração.
_ Volte a dormir. – disse a ela enquanto depositava os olhos na sacola. Minutos depois de ter deixado o quarto, a pequena voltou a dormir mesmo, mas pra nunca mais acordar.
Foi até o quarto ao lado, a porta estava aberta. Seu irmão Filipe de nove anos, apenas um ano mais novo que ele, estava absorto no computador assistindo ao clipe ‘Welcome to the Jungle’, com o fone de ouvido ligado no último volume. Ele não reparou que seu irmão entrara no quarto, só se dera conta disso quando ele lhe tirara o fone de ouvido:
_ Ei cara, qual é? Esqueceu de tomar seu gardenal outra vez? Vê se se comporte. Arrancou o fone de ouvido das mãos do irmão e se virou pro computador, mas antes de colocá-lo novamente, sentiu um dor excruciante na orelha esquerda. Deixou o fone cair no chão e passou a mão sobre ela, mas não a sentiu. Se virou para Julio e viu que ele a segurava com um sorriso doentio cheio de baba e reparou que sua camiseta estava manchada de sangue.
Filipe abrira a boca para gritar mas não saiu som algum, Julio lhe enfiara a faca na garganta antes que conseguisse fazer ressoar uma nota. Sabia que o irmão iria protestar dizendo:
_Devolva minha orelha seu doido, não vê que estou ouvindo Guns N Roses?
_ Me desculpe – disse Julio retirando a faca e arrancando a outra orelha. - Preciso delas para terminar minha obra de arte.
Depositou as orelhas na sacola e se dirigiu para o quarto no final do corredor. Sarah, a irmã mais velha que há poucos dias tivera sua primeira menstruação, lia deitada de bruços na cama o livro de vampiro Lázarus da escritora brasileira Georgette Silen, com um ar apaixonado. Quase dava para ouvir o ribombar de seu coração.
_ O que você quer? – perguntou ela sem tirar os olhos do livro.
Julio que mantinha a faca e a sacola sangrenta ás costas respondeu:
_ Só quero terminar minha obra de arte.
_ Pois vá terminá-la longe daqui. Não vê que estou lendo? Saia logo.
Mas Julio não a obedeceu, só sairia dali quando tivesse o que queria.
Aproximou-se da mana. Observou seus cabelos e os achou um tanto feios, compridos demais, cheios de ondinhas e cachinhos que lembravam minhocas. Não ficaria bem no seu boneco gigante. Reparou no que dava para ver de suas mãos que apertavam o livro. Eram pequenas e brancas como a neve. Achou-as lindas.
Ergueu a faca e golpeou-a nas costas. A faca penetrou fundo, ergueu-a novamente e enterrou-a na goela da branquela quando esta aos berros se voltou para ele. Ela caiu na cama, em cima do livro. Agora ele podia fazer o seu trabalho sem que ela o impedisse.
_ Não vai cortar minhas mãos – diria ela – Preciso delas para segurar meu livro.
Levou quase uma hora para terminar e quando finalmente colocou as mãos na sacola, fitou o rosto dela manchado de sangue e baba e falou:
_ Meu boneco vai ter mãos femininas!
Seguiu então em direção ao ateliê. Consultou o relógio após depositar a sacola ao lado do boneco. Eram oito e meia. Tinha meia hora para colocar aquelas ‘peças’.
Ainda faltariam os cabelos, o nariz e a boca. Enquanto descia as escadas correndo fazendo balançar nervosamente a sacola sangrenta, imaginou que os cabelos lisos e curtos da mãe e o nariz arrebitado do pai, realçariam ainda mais a beleza de sua obra de arte. E a boca bem, já que babava demais, achou que talvez ela ficasse melhor no boneco.


FIM

de Bruno Wolff

Dezembro de 2010