quarta-feira, 3 de novembro de 2010

ACUADA






_Anna!... Venha para mim! Deixe-me abraçá-la... cuidar de você!
Anna parou defronte a porta de um dos quartos de uma desconhecida casa do século XVIII e respirou fundo, com a mão na maçaneta. A voz masculina e misteriosa que a chamava era doce, mas no fundo, Anna sentia que tinha um pouco de malicia e maldade.
Gotas de suor escorreram de sua face quando reparou mais uma vez o corredor sombrio e escuro em que estava. A casa estava vazia, exceto por ela e o dono da voz que a chamava. A porta rangeu baixinho quando ela a empurrou e seus olhos se encheram de medo e fascínio ao observar o quarto. A luz da lua tentava em vão entrar pela cortina em tom escuro da janela fechada. Uma vela bruxuleante pousada numa escrivaninha, destacava fantasmagoricamente os contornos de um homem que se encontrava de costas para Anna.
_ Que bom que está aqui. – disse ele com aquele mesmo tom de voz e Anna, se sentindo um pouco mais confiante, aproximou-se alguns passos do homem.
_Quem é você? – perguntou.
_Hora, aproxime-se e descubra você mesma.
Anna então, segurando as bordas de seu vestido vermelho, se aproximou do estranho. Ele suspirou e pareceu se arrepiar quando ela pousou sua tremula mão em seu ombro e como num filme em câmera lenta, ele segurando agora a minguante vela, foi voltando seu rosto para Anna e esta quando o contemplou , emitiu um mudo urro enquanto seus olhos refletiam um homem com o rosto totalmente desfigurado. Pedaços de pele pendiam de sua face enquanto em seus olhos escorria uma fina linha de sangue. Uma gosma nojenta balançava sonolenta em seu nariz descarnado e sua enorme boca desdentada, sorria malignamente para ela.
Anna conseguiu recuar alguns passos, mas caiu em seguida. O estranho se aproximava dela estendendo suas mãos como garras e os rostos nos quadros das paredes começaram a rir e a zombar dela.
_Agora sabe quem sou? Sou seu medo, seu tormento, sua desgraça...
Quanto mais ele se aproximava, mais seu coração batia e quando suas mãos se fecharam sobre o pescoço da jovem ela acordou, suada e ofegante.
Ao abrir os olhos, sentiu como se não o tivesse feito. Estava tudo escuro e todo seu corpo doía pois se encontrava espremida em seu guarda-roupas.
_ Nem nos sonhos tenho sossego. - choramingou
Com o coração batendo a mil, abriu vagarosamente uma fresta da porta e espiou. Seu quarto estava silencioso e desarrumado. Enxugando o suor nas costas da mão, ela escancarou a porta e saiu.
Percorreu cada canto do quarto com olhar, com as mãos na boca, procurando pessoas dilaceradas e quando se deu conta de que estava só ali, foi verificar nos outros cômodos de seu apartamento. Quando constou que realmente estava sozinha, se dirigiu para a sala e seu gato gordo e cinzento miou do sofá para ela quando a viu. Ela o ignorou, havia se esquecido dele. Sua mente estava sempre ocupada. Parou diante da grande porta de vidro para apreciar o por do sol, imaginando se um dia aquela perseguição a abandonaria.
Lá na rua lá em baixo, a metros e mais metros de distância, os carros buzinavam, pessoas conversavam e levavam suas vidas normalmente enquanto ela permanecia ali, trancada, sozinha e com medo.
Ficou observando o sol até ele mergulhar atrás de um prédio à frente e quando as sombras se deitaram em sua sala, vozes desconhecidas começaram novamente a zombar dela. Sem se atrever a olhar pra trás, Anna tomada novamente pelo pânico, abriu a grande porta de vidro. O vento secou sua face suada e brincou com seu fino pijama. Seu gato a espiava curioso em seu sossegado descanso.
Anna então passou uma perna na grade do alpendre, seu estomago revirou quando olhou lá embaixo. As vozes estavam mais perto agora. Oh, não podia suportar mais aquilo, se atirar dali era menos horrível do que continuar a ver aqueles corpos! Lançando um olhar cheio de sofrimento a eles já ao redor dela, se jogou lá embaixo, terminando assim com seu triste tormento.
O gato gordo e cinzento ao vê-la se atirar, fechou os olhos e dormiu. Não havia mais nada interessante para observar agora.

Fim

de Bruno Wolff