sábado, 23 de outubro de 2010

TERROR NA CASA VELHA




Neste conto VOCÊ é o personagem principal.

Feche os olhos e quando abri-los novamente você viverá isso...

Um vento morno de fim de tarde abraça-te e seca o suor em sua testa e na palma das mãos. Um tremor, como se tivesse levando um choque de 60 watts envolve-te inteiramente e uma lagrima foge de suas pálpebras fechadas. Respira fundo tentando se acalmar e desanuviar a mente e ao fazer isso, abre os olhos e se vê diante de uma casa velha, rústica e de aparência abandonada. A simples visão desta casa com duas janelas de madeira fechadas, uma enorme porta de carvalho lhe dá uma enorme vontade de correr, mas você não pode, o grande amor de sua vida se encontra lá dentro e só Deus e as pessoas que habitam lá sabe o que ele está fazendo. Mas você irá descobrir, é por isso que está ai. Você tem duvida, curiosidade e o direito de saber o ele faz na estranha casa da pessoa que você mais detesta e que indiscretamente vive dando em cima da sua paixão, tentando conquista-lo (la) e tê-lo (la). Vários pensamentos absurdos mas coerentes invade sua mente, um deles é ‘ Será que eu o (a) perdi para ele (a)’?
Respirando fundo novamente você olha pros dois da rua que se encontra deserta. Poderia procurar alguém pra entrar ai com você, até mesmo a pessoa que lhe contou que viu seu amor entrar ai, mas isso é da sua conta e de mais ninguém. Portanto vá sozinho (a).
Com passos um tanto vacilantes você se dirige ao portão da casa. Passa pelo caminho cimentado ladeado por um jardim morto e com um anjo de pedra em cada lado. O da esquerda jaz no chão lacrimoso, com uma asa caída, enquanto o da direita com uma expressão sonhadora, eleva as mãos ao céus satisfeito e você se pergunta como se sentirá ao sair dali, como o anjo da esquerda ou direita, alegre ou triste?
Pára diante da gigantesca porta de carvalho, tenta ouvir vozes, mas não houve nada, nada a não ser sua respiração entrecortada e o tambor descompassado que é seu coração parecendo ser a digna musica do medo. O astro rei está prestes a ser engolido pelas montanhas ao longe, isso não melhora nada seu estado de espírito.
A pesada porta se abre com um grunhido parecido sair da garganta do diabo e revela uma sala mofada, cheia de quadros estranhos e moveis rústicos. Você chama os donos da casa, apenas dois nomes, o do pai de seu (sua) rival, que por sinal é o velho mais estranho da cidade que tem fama de ser feiticeiro e o da pessoa que você mais detesta. Ninguém responde, a casa parece dormir o sono da morte de tão silenciosa, mas o silencio modorrento é quebrado com o som de seus passos no chão de madeira. Pof, pof, pof... Algo lhe diz que uma coisa muito estranha está acontecendo ali, a atmosfera da casa denuncia isso. Sua boca está mais seca do que nunca. “ Meu amor está em perigo?”. Segue então por um longo corredor, chamando pelos donos da casa. Passa por portas fechadas com desenhos diabólicos esculpidos na maioria delas e no final do corredor encontra uma porta aberta. A luz do por do sol banha o aposento. Prateleiras cheias de livros indicam que é uma biblioteca. Você analisa-as e lê vários títulos estranhos como “ Demônios”, “ A força dos feitiços”, “ Sangue é vida”, “ Lamia, o Demônio” “ Invocando Demônios” e “ Necronomicon”. Este ultimo você já ouviu falar ou leu sobre, Lovecraft o cita em varias de suas obras. É um livro proibido escrito por um poeta árabe louco. Através dele é possível ressuscitar mortos, invocar demônios, conectar com entidades sobrenaturais, viajar por dimensões desconhecidas dentre outras coisas relacionadas ao oculto. Um livro um tanto maldito e assustador. Por isso sua coragem é enfraquecida e você se dá conta de que não há ninguém ai mesmo,muito menos seu amor. Ele poderia ter entrado ali mais cedo e ido embora rapidamente. Decide ir embora e esclarecer tudo com ele mais tarde.
As sombras começam a se deitar na casa e o silencio ainda paira parecendo retardar um acontecimento terrível. Desviando os olhos dos livros malditos você sai do aposento rapidamente e assim que toma o corredor, já com impulso de correr, mesmo com as pernas bambas, ouve uma voz conhecida chamando seu nome e você pára na hora.
A voz soou abafada, meio lenta. Chama então pelo nome de seu amor e ele responde chamando o seu. Ele está atrás de uma das portas. Mas qual? A voz saiu um tanto substancial, parecia vir de um sonho, ou um pesadelo?
Você então abre a porta mais próxima e mesmo através da quase total escuridão, vê vários frascos de aparência viscosa e nojenta dispostos em prateleiras. Fecha rapidamente a porta tentando não vomitar. Abre outra e se depara com um aposento cheio de pentágonos e objetos de formas estranhas. Fecha-a. Abre outra, esta parece ser um quarto normal, você imagina ser o dormitório da pessoa que você mais detesta. Abre outra e o horror lhe domina por completo. Há um corpo ensangüentado estirado no chão, com o rosto oculto por um pano. Um grito rouco sai de sua garganta. Com passos lentos, você se aproxima do corpo, torcendo para que não seja o do amor de sua vida, Mas acalme-se, não pode ser ele! Você não o ouviu chamar seu nome a pouco?
Um alivio o (a) envolve ao tirar o pano do rosto do cadáver. Este corpo, com o pescoço quase decapitado, sem olhos e com a boca aberta como se gritasse, não é o seu amor e ninguém que conhece. Sai então do aposento e já no corredor chama pelo seu amor desesperadamente, não obtém resposta. Abre outra porta, um quarto normal, com cama, cômoda, tapete... nada de horror e muito menos seu amor.
Sai para o corredor e abre outra e se depara numa cozinha com as paredes manchadas de sangue e aos pés da mesa um outro corpo ensangüentado se debate ao ouvir sua aproximação. Corre para ele e tenta ajuda-lo, mas perdera muito sangue. Talvez não há nada que possa fazer. ‘ Vou sair e pedir ajuda’ diz, mas o corpo ensangüentado segura-te pelo colarinho e diz com grande esforço. ‘ O feiticeiro... incorporarará um demônio... saia, salve-se...” e neste instante o pouco brilho que havia nos olhos da vitima é coberto por uma mortalha, a mortalha da morte.
Sai então correndo dali e cheio(a) de desespero continua a chamar pelo seu amor diversas vezes e milagrosamente obtém resposta, desta vez mais clara. Tenta abrir a ultima porta do corredor mas está trancada. Abre a porta ao lado e finalmente vê o grande amor de sua vida, amarrado numa cadeira, está intacto. Um tanto desesperado.
_ Não acredito que aquele(a) desgraçado(a) fez isso com você. – você grita enquanto desamarra-o - Sei que ele (a) te deseja, mas não precisava te submeter a isso..
_ Não foi ele(a) – diz seu amor com voz fraca quando lhe é tirado um chumaço de pano da boca – Foi o pai dele(a). É um louco, encontrei-o na rua e ele me pediu para ajuda-lo a carregar um móvel da casa, vim na hora. Quando cheguei aqui ele me golpeou por trás e quando acordei me vi amarrado aqui. Logo em seguida ouvi mais vozes, duas pessoas. Ouvi elas gritarem depois e o velho dizia que precisava do sangue delas para invocar um demônio do qual não me lembro o nome. Ele veio aqui depois, coberto de sangue e me disse que eu seria a presa para o demônio assim que ele o incorporasse. Ele vinha me comer.. Mais tarde, ouvi o (a) filho (a) dele chegar em casa.... Eles brigaram muito. O primogênito do velho disse-lhe que iria dar parte a policia , disse que iria embora e que o odiava... Ele então o (a) prendeu num dos quartos e não ouvi mais gritos. Depois ouvi ele entrar num quarto bater e trancar a porta.. Ouvi gemidos e lamurias, e ele meio que cochichava numa língua desconhecida e fazia uns barulhos inumanos. Era horrível de se ouvir e por isso desmaiei. Acordei com você me chamando...
_ Vamos dar o fora daqui e chamar a policia – você se vê dizendo.
Saem então e assim que chagam no corredor, a hora do horror sobrenatural chega.
Um uivo abissal é ouvido e você se dá conta de que vem da porta que estava trancada. Em seguida passos pesados.
_ CORRAAAAAAAAAAA... – você grita.
O corredor se enche com o barulho de passos apressados e quase na metade do corredor, vocês param quando ouvem a porta ser quebrada. Nenhum dos dois se atreve agora a olhar pra trás. O medo os domina, desta vez a tremedeira não está como se tivesse levando um choque de 60 wattz e sim de 120.
POF... O som de uma passada semelhante a um tambor de percussão.
POF...POF... Os passos estão lentos. Uma gota de suor escorre pelo seu rosto. Você olha para o seu amor que está também a tremer e parece estar incapaz de se mexer de tanto medo e fraqueza.
POF...POF...POF... Os passos na madeira aceleram um pouco.
_ Vamos... co..rrer – você consegue dizer numa voz tremula e cheia de pânico.
Começam então a caminhar, sem olhar pra trás. Os pesados passos continuam POF..POF..
Vocês aceleram o passo e a coisa atrás de vocês também. POF..POF..POF...POF...POF
E assim a coisa se aproxima. Seu amor olha pra traz e cai no chão, tentando gritar. Mesmo na escuridão, ao abaixar ao lado de seu amor, sem se atrever a olhar a coisa que se aproxima agora novamente com passos lentos, apesar da quase densa escuridão você vê os cabelos do seu jovem amor totalmente grisalhos. Volta o rosto dele para o seu e o vê num choque tremendo. Sua boca aberta num esgar desesperado, os olhos vítreos e saltados...
A coisa agora para ao lado de vocês. Você espera a qualquer momento ser rasgado(a) por grandes mãos inumanas e em seguida ser envolvido (a) por uma enorme boca cheia de dentes pontiagudos e ser engolido por uma garganta abissal. Mas nada acontece, por enquanto.
O tempo é precioso meu caro (minha cara). Levante esse seu traseiro, tente revidar seu amor e dê o fora daí enquanto lhe é dado tempo.
Com uma forte respiração, você pede ao seu amor para se levantar e não olhar pra trás.
Trêmulos e suados, envoltos por uma escuridão infernal, vocês começam a caminhar se perguntando por que não foram devorados pela coisa ainda. Então, quando estão próximos da sala e da enorme porta aberta, ouvem um urro gutural e a coisa começa a andar vagarosamente e em seguida ouve um abafado grito humano, vindo de uma porta um pouco á frente do qual não experimentara. Há alguém mais ali.
Parados defronte a porta, você se pergunta se deve perder tempo e abri-la . Sua bondade lhe diz para abrir. E ao fazer isso a luz da lua que entra pela janela, ilumina a pessoa que você mais detesta e da qual imaginara que estivesse aproveitando do seu amor, amarrada e amordaçada. A coisa está mais próxima, confiante de que pegará vocês, independente se correr ou não. Pelo barulho dos passos você calcula que a coisa está há uns sete metros de distancia de vocês.

Agora estão ai as escolhas da qual caberá a você se decidir por uma:
1. Manda seu amor correr e pedir ajuda enquanto tenta salvar seu (sua) rival, tendo o risco de ser dominado pela coisa
ou
2. foge com seu amor e deixa a coisa acabar com ele(a). O velho agora está dominado pelo demônio e não excitará em destruir o corpinho suculento de seu primogênito.

Tomada a escolha 1.

_ Corra e peça ajuda – diz ao seu amor – Tentarei salva-lo (a).
Seu amor lhe diz que irá ajudar, mas você sabe que não está em condições pois ele viu a coisa e está mais assustado que você.
_ Você está fraco (a), não conseguirá...VÁ. Tenha certeza de que sairemos ilesos (sas) desta.
Seu amor obedece e você percebe que a coisa parou novamente. Não se atrevendo a olhar pra trás, se dirige correndo ao seu (sua) rival e o (a) desamarra facilmente uma vez que as cordas estão bambas devido ao esforço inútil da vitima escapulir.
Assim que liberta a vitima, ela o abraça e agradece, em seguida olha na direção da porta e solta um urro de pavor. A coisa já estava lá, espreitando vocês na escuridão.
O (a) ex prisioneiro (a) começa a escorregar para o chão, quase perdendo os sentidos mas você dá uma bofetada no rosto dele (dela) para mante-lo (la) sóbrio (a) e acordado (a). Ele (ela) o encara com olhos interrogativos e amedrontados.
_ Comer – diz a coisa na soleira da porta – Quero sangue e carne frescos.
A voz é indescritivelmente horrível, jamais usada nos mais clássicos filmes de terror.
O medo tenta sufocar seus pensamentos, seu corpo quer escorregar para o chão e esperar a coisa acabar com seu (sua) rival pra em seguida dominá-lo (la).
Mas não, sua vontade de viver é maior e quer lutar para isso, se morrer, morrerá tentando sobreviver e não como um (uma) covarde inútil.
Seu (sua) rival te abraça novamente quando a coisa começa a se aproximar. Está bloqueando a porta. O aposento é pequeno, se tentar escapar pelos lados, a coisa os agarrará com seus braços longos e mãos gigantescas. Seu cérebro trabalha a mil, tentando encontrar uma saída. Então ao olhar pra os lados, vê a janela aberta e sem excitar puxa seu rival para ela e o joga pela fenda da salvação. A coisa ainda dirige com passos vagarosos até vocês, ela não tem pressa pois sabe que não adianta correr. Ela começa a rir quando você passa uma perna pela janela, ela ri do seu esforço inútil pela sobrevivência.
Correm então ao redor da casa em direção a rua. Seu (sua) rival grita e chora e agora estando mais claro, você repara os cabelos grisalhos da pessoa que acabou de salvar. Lá dentro a coisa continua a rir, um riso parecendo o barulho da matraca da morte e com aquela voz demoníaca a ela grita:
_ Lhes visitarei em sonhos e neles revelarei como irei apanhá-los. – outra risada abissal – E quando esse dia chegar espero encontra-los com muito medo, pois isso, ah, isso me diverte um tanto! – outra risada abissal e em seguida o silencio.
A rua se encontra deserta e silenciosa, e vocês dois partem, abraçados e mal acreditando que escaparam, por enquanto e apesar do acontecido, você se lembra da expressão dos anjos de pedra e se dá conta de que afinal, como o anjo da direita, a alegria e alivio lhe invadia por inteiro (a).

Tomada a escolha 2.

Você então olha para o rosto de seu (sua) rival. Esta com muito medo e se debate como um peixe fora d’água. Se surpreende ao perceber que não sente dó nenhuma.
_ Vamos dar o fora daqui – diz automaticamente
Correm em direção a grande porta de carvalho e quando chegam na rua, olhando para a casa, ouve os gritos aterrorizados da pobre presa enquanto a coisa inominável se banqueteava dela e quando os gritos cessaram, a coisa, provavelmente com a boca cheia de carne e sangue grita:
- Será uma questão de tempo para pegar vocês, enquanto isso brincarei com vocês em seus sonhos e um dia, um dia irei encontrá-los pessoalmente e quero ver pânico e ouvir gritos desesperados da garganta te vocês.
Partem então pela rua deserta, você com duvida, se perguntando se está se sentindo como o anjo da esquerda ou o da direita, no fundo, a tristeza e a alegria lutam por mais espaço em seu coração.

Pronto, agora você está seguro (a) de frente ao PC da sua casa ou lan, mas pelo menos por enquanto.

“ Quando as sombras se deitarem e o silencio em seu quarto escuro pairar, ele surgirá, o inominável gigantesco ser das profundezas do abismo, e com dentes pontiagudos triturará sua carne e os pedaços rolarão pelo abismo de sua garanta maldita”


Então, diz ai, qual fora sua escolha, opção um ou dois?

de Bruno Wolff

Outubro de 2010

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

OS CRIMES NO SÍTIO







_ Então o senhor confessa ter matado o Sr. Norberto Rodrigues? - perguntou o delegado de policia debruçado sobre sua mesa. Fitava o réu sentado á sua frente com olhos penetrantes e frios. Ao seu lado, um sargento os observava curioso, enquanto uma testemunha tremia da cabeça aos pés.
_ Sim. - respondeu o acusado, que estava algemado. Este vestia uma camisa xadrez rasgada e jeans desbotada, manchados de sangue. Tinha a face coberta por arranhões e hematomas. - Dei dois tiros num lugar bem merecido no infeliz. Mas como já lhe disse senhor delegado: Não teria feito isso se ele não tivesse matado primeiro.
O delegado recostou na cadeira e disse:
_ Assim será mais fácil, uma vez que não nega o crime. Sargento, deixe-nos a sós. Conversarei com a testemunha assim que terminar com ele.
O sargento empertigou-se. Estava estampado em sua cara barbada que queria ouvir todo o relato, pois sabia que houvera sexo antes do crime, o que resultou em mortes. E ele adorava relatos excitantes, mas obedeceu ao delegado, levando a trêmula testemunha consigo.
Assim que a porta se fechou, o delegado cruzou as pernas, apoiou o queixo nas mãos e disse:
_ Conte-me então como foi, Tião. Tudo, até os mínimos detalhes.
O caipira contemplou a janela por alguns segundos. Lá fora a chuva caia torrencialmente.
_ Bem... - começou ele - tudo começou quando o Sr. e a Sra. Rodrigues mudaram para um sitio próximo ao meu há mais ou menos quatro meses - tinha um sotaque típico de caipira Mineiro, - Devo dizer que fiquei feliz pois meus únicos vizinhos nos últimos anos moravam a três quilômetros de distância, ou seja, vivia sozinho e solitário desde que minha querida Madalena falecera há seis anos. Querendo ser solidário e fazer novos amigos, fui até a casa deles e me ofereci a ajudá-los com a mudança. Eles mais que satisfeitos aceitaram, pois tinham apenas um ajudante que era este homem que acabara de sair de sua sala. Enquanto descarregava-mos o caminhão, os Rodrigues se mostraram ser muito divertidos, faziam varias piadinhas maldosas com o preguiçoso motorista do caminhão que sentou-se á sombra de uma mangueira e puxou a palha, com isso rimos muito. Quando acabamos de por a mudança para dentro, eu ainda os ajudei a colocar os móveis no devido lugar, não eram muitos. Eles eram bem simples. Assim que terminamos, levei-os até minha casa e preparei um delicioso jantar do qual o saboreamos ao ar fresco de minha varanda. Conversamos, rimos e nos divertimos. Quiseram mudar pra roça com o intuito de terem paz e sossego uma vez que eram alvos de fofocas e inveja na cidade, como se fossem os únicos e principalmente porque apostaram no plantio para vender. Naquela noite, não pude deixar de notar o olhar penetrante que a Sra., Rodrigues me lançava a todo momento e quando o Sr. Rodrigues e seu empregado não estavam olhando, ela sorria pra mim de um modo um tanto sedutor. Fiquei indiferente a isso, claro, mas não por muito tempo"
"Com o passar dos dias, a Sra. Rodrigues não deixava de ir á minha casa ao menos três vezes por semana, quando seu marido e empregado saiam para trabalhar. Sempre com uma desculpa: levar alguma quitute, pedir algum mantimento emprestado... Ela ia só para me ver. Decidi então um dia lhe dar uma cantada, foi mais ou menos um mês depois que se mudaram. Foi numa bela manha ensolarada, Sr. delegado, onde me encontrava no curral tratando de minhas criações, ah!... os pássaros pareciam estar mais animados para cantar naquele dia, só para dar um clima mais bonito á cena." Difícil entender como uma mulher bonita como a senhora, com essas pernas bem torneadas, esses seios fartos querendo saltar desse seu decote, essa boca sensual...se interessaria por um magricela sem sal como seu marido" disse-lhe eu. Ela ficou satisfeita, nem se importou pelo que disse do seu marido, apenas lançou-me um olhar penetrante e para me provocar lambeu sensualmente os lábios. Não agüentei Sr. delegado, no mesmo instante eu me aproximei dela, envolvi-a com meus braços e dei-lhe um beijo que a fez respirar depois como se todo ar tivesse acabado. Ela me jogou então dentro dum cocho e pulou em cima de mim. Fizemos amor ali mesmo, Sr. delegado no curral, dentro do cocho, ao redor das vacas e cavalos que não faziam nada a não ser nos olhar com seus olhos negros e curiosos."
"A partir de então, quase todas as manhas eram sagradas á nos Sr. delegado. Ela esperava o marido e o empregado saírem para plantar pra em seguida correr para minha casa e assim, se entregar totalmente a mim. Ah, como ela gostava Sr. delegado, como ela gostava! Arranhava minhas costas, elogiava meu corpo que apesar dos 55 anos, se encontra saradão, minha pegada, minha mãos calosas e principalmente meu... Ela me chamava de Tiaozão Sr. delegado, pois sabia que me chamando assim me deixava mais excitado."
Nesse instante ele parou de falar ao encarar o delegado que o fitava com um olhar esbugalhado, a boca entreaberta, numa firme concentração.
_ O que mais ela dizia? - perguntou o delegado engolindo grande golfada de saliva - Quero dizer, - disse ele disfarçando, coçando o nariz e fazendo uma voz mais profissional. - continue, sem intervalos.
O caipira ignorando aquela expressão de excitação do delegado, continuou:
_ Foi bom enquanto durou, Sr. delegado. Até que um dia, tudo foi por água a baixo.
_ E esse dia fora hoje! O dia em que você se tornou assassino. - comentou o delegado agora impassível.
_ Sim. Foi uma loucura. A Sra. Rodrigues fora á minha casa mais cedo hoje, ás seis, sendo que costumava ir às oito devido o marido ter saído mais cedo, queria, segundo ela, terminar uma cerca que ele estava fazendo á uns quinhentos metros de distancia. Ela me chamou pra ir ate a casa dela, pra fazermos amor lá, Sr. delegado. Eu logo disse não, que era arriscado e estaríamos cometendo um pecado maior ainda, imagina só, ela trair o magricela do marido na própria casa! Mas ela contestou e me convenceu ao dizer que achava isso mais excitante. Fomos correndo sob uma fina garoa e nos atiramos na grande cama em que ela e o maridão se deitavam toda noite. Ah! Como fora bom, Sr. delegado, mas nosso ato louco e pecaminoso durou pouco. Quando estávamos chegando ao auge do prazer, a porta do quarto fora aberta de supetão revelando o Sr. Rodrigues. Sua expressão ao nos ver ali fora de profunda surpresa e ódio. No mesmo instante, gritando, ele me agarrou e me tirou de cima da mulher e logo em seguida deu-lhe uma forte bofetada na cara do qual lhe arrancara um dente. Fui pra cima dele pra defender a mulher, mas ele apesar da magreza, tinha uma forte aliada, a agilidade; me golpeou com o pé me jogando contra a parede da qual bati a cabeça. Receio que fiquei inconsciente por alguns segundo pois quando abri os olhos vi dois canos de uma espingarda apontada para minha cara. As portas do guarda-roupas estavam escancaradas, denunciando que ele havia tirado ela dali. A mulher gritava, ainda nua na cama, com a boca cheia de sangue mesclado com o meu sêmen."
_Levante seu monte de merda. E se quiser viver vai fazer o que eu mando - disse-me com uma voz que nem parecia ser a dele de tão grossa. É lógico que obedeci e quando me ergui, tremulo, ele, para minha surpresa me entregou a espingarda após pegar uma 38 do guarda-roupas, que alias merecia ser chamada de guarda-armas e ordenou:
_ Suba na cama.
"Quase não pude obedecer devido a tremura das minhas pernas. Não entendia o porquê me dera, poderia apontar pra ele e dar-lhe um tiro naquele momento, mas temi que a arma estivesse descarregada, sendo assim ele iria rir da minha cara enquanto disparava a poderosa na minha na minha."
_ Esfregue o cano da espingarda no seio da vadia. - ordenou ele.
"A Sra. Rodrigues urrou desesperada. Olhei pra ele indignado ao que na mesma hora ele agitou a 38 para mim ameaçadoramente."
_ Faça o que eu mando ou então farei um furo na sua testa.
"Fiquei um tempo encarando-o, esperando que ele dissesse: 'Brincadeira, você está sonhado!' e parasse com aquilo, mas ele me tirou do devaneio e incredulidade ao meter a coronha da sua arma na minha cara. No mesmo instante, apontei a espingarda para ele. Senti as mãos da Sra. Rodrigues posar frias e tremulas sobre meus ombros como se me incentivasse a atirar. O Sr. Rodrigues riu de se acabar, uma risada louca eu diria, cavernosa e sem emoção.
_ Sua anta. Atira! Acha mesmo que eu iria te dar uma arma carregada? Nãoooooooo. Posso ser bobo a ponto de confiar de mais em minha mulher e num caipira desconhecido como você, mas dar uma arma carregada ao meu inimigo, não, isso não! - e riu - Quero que me obedeça ou então mato os dois. Entenderam?
"Fomos obrigados a assentir."
_ Ótimo - continuou ele, um sorriso diabólico deformava-lhe a face seca. - Esfregue o cano, ou melhor, os canos da arma nos seios da vadia.
_ Meu amor, - começou ela, até então parecia ter perdido a voz de tanto medo - por favor, eu sei que errei e mereço ser castigada, mas não desta maneira. Guarde a arma e vamos conversar..."
_ Cale a boca, cadela - cortou ele - Cale-se pois da sua boca só sai merda, vadia imunda. E você seu ogro peludo, faça o que eu mando, esfregue esse cano nos malditos seios da minha mulher.
"Eu obedeci Sr. delegado. Ela se deitou chorando mais do que nunca e eu esfreguei o cano em seus seios, dos quais estavam molhados de suor e saliva."
_ Aposto que está adorando!Agora meta-o na boca dela. - mandou o chifrudo ensandecido. Eu o encarei novamente a fim de protestar, mas nesse instante ele metera a coronha da arma na minha cara novamente - Faça o que eu mando ou então se juntará a sua velha agora mesmo.
"Novamente e sem nenhum pingo de excitação, eu obedeci. Dava dó Sr. delegado, de ver a Sra. Rodrigues quase se engasgar com aqueles dois canos na boca enquanto as lagrimas escorriam e todo o seu corpo tremia, fazendo as molas da cama gemerem."
- Isso! Olha como a prostitua gosta.- mentiu ele rindo - Agora meta-o lá em baixo. - disse ele se aproximando mais, com olhos esbugalhados e translúcidos - E você sua vaca pode gemer a vontade. Imagine que é ele quem está te possuindo. Esqueça que eu estou aqui e que estão prestes a morrer, caso saiam da linha, claro.
"Nós obedecemos, senhor delegado, ela pelo menos gemeu devido ao choro e humilhação. Minhas mãos tremiam enquanto segurava a ponta da espingarda naquele magnífico local."
_ Está gostando vagabunda? - gritou ele - Tem dois canos penetrando em você, em? Dois canos penetrando em você! Não é excitante ouvir isso? Dá mesma forma que é excitante trair seu marido enquanto ele batalha honestamente para te vestir e te alimentar? Em vagabunda, responda?
"Ele esperou um momento onde a serena chuva era a única a ser ouvia e os lamurientos gemidos da Sra. Rodrigues, em seguida ele riu."
_ Que tal a lição em? Nunca mais vai enganar seu marido, vai? O homem que sempre foi fiel a você; que veio para esse fim de mundo para plantar e colher, pra melhorar nossa situação financeira. Vai respeitar o homem que você jurou fidelidade há seis anos na igreja na frente dos seus pais e amigos? Vai implorar perdão ao homem que lhe provocava arrepios e arrancava gemidos todas às malditas noites? Em vagabunda... RESPONDA!
_ Eu juro que.... - começou ela quase gritando
_ Cale-se. - cortou ele - Eu responderei pra você e a resposta é NÃO, para todas. Não serei mais o bobo da corte.
_ Posso tirar a arma agora? - perguntei humildemente.
_ Saia já daí com isso. - disse ele - Acabarei com isso agora.
_ Por favor - supliquei a ele enquanto atirava a espingarda no chão e corria a vestir minhas roupas - Por favor, me perdoe.. Nos perdoe. Não parei pra pensar no grave erro...
_ Suas palavras são inúteis - respondeu ele - é melhor ficar calado.
"E ao dizer isso se aproximou de mim com passos largos e pesados e fez esse estrago na minha cara". - Ele apontou para a face coberta de hematomas e profundos arranhões.
_ Como pode ser tão pobre de espírito a ponto de enganar um cara que sempre lhe tratou bem? - dizia ele enquanto quebrava minha cara - Como pode fazer isso a um homem que o via como um amigo?
"Então, a Sra. Rodrigues despertou do transe e medo que a paralisava e pulou nas costas do marido e o derrubou, mas o infeliz era ágil como um gato, antes que eu pudesse me erguer e aproveitar a situação para dominá-lo, ele já estava de pé apontando a arma na cara da mulher ao mesmo tempo em que a jogava na cama."
_ Eu te amava - disse ele lamuriento - Eu te amo. Sempre fui um homem bom. Talvez meu erro esteja ai, não é? Ser bom e honesto de mais com você!... Imagina, seu não tivesse vindo agora para pegar alguns pregos, só Deus sabe até quando você continuaria me enganando.
_ Norberto, por favor, - disse eu me erguendo aos poucos - vamos conversar, largue a arma e vamos conversar civilizadamente.
_ Cale-se e sente-se ai, seu ogro sujo.
"Ele então se deitou em cima da mulher e a beijou, senhor delegado, ele ainda a beijou na boca e ela correspondeu. Mas apontava a arma pra cabeça dela. Eu senti que podia fazer algo no momento, mas não me veio nada em mente, o horror e o medo me paralisaram. Vi ele elevar o bumbum pra cima, ainda beijando-a enquanto a mão que segurava a arma decia sorrateiramente para baixo pra se encaixava dentro da vagina da mulher. Ela empurrou-o quando sentiu o cano frio novamente e foi nesse momento que ele atirou, sim, senhor delegado. Ele atirou dentro da genitália dela e creio que a bala foi parar perto da sua goela. O que se sucedera depois foi muito difuso e rápido. Ele se levantou ao mesmo tempo em que me dirigia a ele. Não sei o que pensava naquele momento, vi uma lagrima se desprender de seus olhos, mas nunca saberei se era de remorso de ter atirado na esposa ou por ter sido traído."
"Mergulhei então em cima dele e caímos deitados na cama, em cima da Sra. Rodrigues que por sinal dava seus últimos espasmos. Travamos uma luta ali, nos lambuzando naquele sangue. Por fim consegui tirar a arma dele e logo ordenei que tirasse a roupa, ele implorou, chorou e obedeceu. Mandei-o fazer o que ordenara que eu fizesse com a infeliz e por fim, dei dois tiros no anus do desgraçado, que caiu no chão imóvel. Foi nesse instante que o empregado dele chegou e me viu apontando a arma para o copo do seu patrão no chão. Creio que ouvira o primeiro disparo e correra para ver do que se tratava. Ele gritou ao ver a cena e admiro a coragem dele, apesar de tudo ele voou ate mim e me socou a cara, como se eu precisasse de mais um golpe pra deformar ainda mais meu rosto. Deixei que ele me tomasse a arma e contei pra ele o acontecido enquanto verificava se seus patrões ainda estavam vivos. Não sei se me ouviu. Ele então ligou pra policia da qual não demorara mais que uma hora e meia pra chegar ao local que fica á quinze quilômetros desta cidade."

Ouve um longo e pesado selênico em que nenhum dos dois ouvia sequer a chuva lá fora, pois estavam mergulhados em pensamentos.
_É uma historia e tanto - disse o delegado, por fim - Difícil até de acreditar, pois nunca ouvi algo tão horrendamente semelhante. Dar tiro nas partes íntimas...
_ Ele ia me matar também Sr. delegado - disse o caipira - Matei para me defender. Foi em legitima defesa.
O delegado o estudou por alguns segundos. Não havia mentira no olhar do homem a sua frente. E ele conhecia muito bem quando um criminoso falava a verdade ou não. Afinal, havia mais de dez anos que trabalhava naquela sala.
_ Passará uma temporada preso, meu caro, até tudo ser esclarecido. - disse o delegado se levantando e se dirigindo a ele - Farei investigações, ouvirei a testemunha... Mas sabe de uma coisa? - ele agora estava atrás do caipira - Vamos nos divertir muito enquanto isso, Tiãozão! - terminou ele pousando as mãos nos ombros de Tião.

Fim

de Bruno Wolff

Outubro de 2010