segunda-feira, 13 de setembro de 2010

A ESPOSA MORTA


Nem sempre eles nos deixam...


Diário do Sr. Carlos Rodrigues

Sexta- feira, 8 de Setembro de 2006 - Que dia triste! Acabo de chegar do sepultamento de minha esposa.
Lídia estava tão linda em seu vestido branco. Seus cabelos negros sobre os seios e o rosto bem maquiado. Parecia mais uma noiva do que uma defunta.
Maldito acidente de carro! Porque meu Deus! Porque ela teve que morrer!
Não sei como vou viver daqui pra frente. Céus, como irei me conformar com esse infortúnio! Ontem mesmo ela estava tão bem, alegre e animada e hoje... começa a apodrecer!
...

Sábado, 9 de Setembro de 2006. 3 h da madrugada. - Acabo de acordar suado e ofegante. Não sei se foi pesadelo, fruto de minha imaginação ou se fora mesmo real. Senti uma mão fina alisar meu rosto e ao abrir os olhos, vi de relance um vulto branco desaparecer rapidamente na escuridão do quarto. Deve ser minha mente agitada. Não conseguirei dormir. Vou ficar acordado e afogar-me-ei nas doces lembranças.

Domingo, 10 de setembro de 2006. Manhã. - Domingo! Costumava passar com minha amada nesses dias. Ela gostava de ir ao parque municipal. Como era agradável vê-la rodopiar feliz por entre as flores. Brincava-mos de pique-pega no pequeno bosque. Riamos, conversávamos... Os outros casais observava-nos de seus bancos, creio que tinham inveja pois eles pareciam não ser feliz como nós! Chegava-mos em casa de tardezinha, entravamos pro banheiro e ai começava nosso amor que durava horas e horas...
A campainha tocou!

Tarde.
Minha família almoçou comigo aqui em casa. Tentaram me animar, arrancar-me um sorriso, mas não conseguiram. Creio que jamais voltarei a ser feliz!
Quando foram embora, subi para o meu quarto, apanhei o álbum de fotografias do meu casamento e... ah, a dor que senti fora indescritível. Aquele dia imaginei ser o começo de uma historia de amor sem fim, mas Deus, veja só, não durara três anos!
Aconteceu algo meio estranho, enquanto sentado em minha cama, observava as fotos. Senti ao meu lado o colchão se afundar um pouco e ao olhar vi que havia um buraco nele, como se alguém invisível estivesse sentado ao meu lado, mas isso durou apenas segundos. Emoção, isso fora fruto de minha emoção.
Sinto sono, vou dormir. Amanhã preciso estar com uma cara aparentavel no trabalho.


Sexta feira, 15 de Setembro de 2006. - Acabei de chegar do trabalho.
Fora uma semana difícil. Meu desempenho no trabalho não fora bom. Antes trabalhava animado e satisfeito, pois tinha inúmeros planos traçados para realizar com minha esposa. Viagens, festas, concertos de musica clássica... Era bom trabalhar pensado nisso!
Senti imensa amargura ao chegar em casa e não receber o costumeiro beijo de minha esposa e ser bombardeado com suas perguntas intermináveis sobre o meu dia.
Ah, Lídia. Onde estarás. Será que pode me ver? Me ouvir?
Na quarta feira Pedro,meu colega de trabalho me disse que os mortos nunca nos deixam. Sempre vem nos visitar e até podemos sentir sua presença de varias formas, uma delas é arrepiamo-nos sem motivos. Queria acreditar nisso.

Sábado, 16 de Setembro de 2006. - Acabei de chegar da missa de sétimo dia de Lídia.
Fiquei um pouco melhor depois de ouvir as sabias palavras do padre. Foram reconfortantes, mas creio que logo logo aquele sentimento amargo voltará a me dominar.

Quarta-feira, 20 de Setembro de 2006. - Que dia insuportável. Sai mais cedo do trabalho pois parecia que ia morrer de tristeza. Desde que Lídia se foi, sinto constantemente um aperto no coração como se fosse uma mão de ferro a segurá-lo sem dó. Hoje este aperto está pior.
Vou assistir a alguns filmes pra ver se me distraio e essa dor passa.

Mais tarde.

Tenho certeza. O que ouvi fora real, não fora coisa da minha cabeça.
Assistia o filme do qual Lídia gostava muito. Á uma cena nele que é muito engraçada, sempre que Lídia assistia a esta, ela soltava uma gargalhada gostosa. Pois bem, estava eu deitado no sofá meio que cochilando e de repente despertei ao som de uma risada longa e aguda. Olhei pra tv convicto de que a risada viera de lá, mas não, passava aquela cena que Lídia mais gostava, e nesta cena não havia risadas.
Céus, fora ela. Tenho Certeza. Lembrei-me do que Pedro me dissera. Vejo que ele tem razão!

Terça-feira 26 de setembro de 2006. 4h da manhã. - Há três dias sonho a mesma coisa com Lídia. Nele, estou eu no cemitério diante de seu tumulo e de lá de dentro ouço ela gritar “ Tire-me daqui Carlos! Leve-me com você!” Ponho-me desesperadamente a cavar a terra com as mãos e logo sinto minhas unhas arranharem a tampa da urna. Nesta hora acordo gelado e tremendo.
Ainda estou tremendo e o sono se foi.
Isso não ajuda em nada o meu estado de espírito. Devo tomar alguns remédios para dormir sem ter sonhos.

Sábado, 30 de Setembro de 2006. - São uma da manhã e ponho-me a fazer estas anotações na pracinha deserta do meu bairro. Não voltarei pra casa enquanto não amanhecer e isso se deve pois... céus... não posso acreditar... Há uma hora atrás, com as vistas doendo de tanto ler um romance, fui pro meu quarto e joguei-me na cama, não estava com sono. Deitado de costas, refletia sobre uma certa mudança que resolvi fazer pois vejo que minha vida está muito pacata, e de repente senti um arrepio cobrir meu corpo. Assustado, lembrando-me novamente do que Pedro dissera, corri a acender a luz. O quarto estava quieto e quente. Um pouco mais calmo, voltei a deitar-me. Deixei a luz acesa. Mas aconteceu, ... momentos depois vi a porta do meu guarda-roupas se escancarar repentinamente. Paralisado de medo, vi um vestido vermelho sair voando de lá e ir pousar na minha cama aos meus pés. Era um dos vestidos que mais gostava de ver em Lídia. Em seguida ele se suspendeu e neste momento fechei os olhos e permaneci assim durante longos segundos. Ao abrí-los, vi-o voar ao redor da cama, vindo em minha direção. Estava cheio, como se algum corpo invisível estivesse dentro dele pois havia curvas, o bojo onde deveria estar os seios estava estufado, assim como o bumbum e a cintura estava bem desenhada. Sai correndo, tentando gritar, mas não saiu som algum.
Deveria contar isso a alguém, mas temo me julgarem louco e se eu insistir com isso me internarão num hospital para loucos; ai sim minha vida se transformaria num verdadeiro inferno.

Terça-feira, 10 de Outubro de 2006. – Meu Deus, novamente fui assaltado pelo inexplicável. O que farei? A quem pedirei ajuda? Alguém acreditaria em mim?
Acordei cedo pra ir pro trabalho e enquanto escovava meus dentes, ouvi a porta do banheiro se abrir ás minhas costas. Sobressaltado, olhei no espelho a minha frente e vi a porta se fechar novamente. Não havia vento algum e isso jamais aconteceu. Então uma voz conhecida soou atrás de mim:
_ Meu amor, sua barba está horrível.
Me virei e sai correndo pra rua. Com a boca cheia de creme dental. Decidi não ir trabalhar hoje. Passei a maior parte do dia andando sem rumo, tentando achar uma solução para esses fatos sobrenaturais e agora, sentado á mesa da minha cozinha, me vejo totalmente sem idéias de como enfrentar isso tudo. Ainda não tenho coragem de contar pra ninguém.
obs: Devo mesmo fazer minha barba!


Terça-feira, 24 de Outubro de 2006. - Estou no fundo do poço. Fui despedido do trabalho pois como á dias não durmo, meu desempenho piorou mais ainda.. Quanto aos remédios está fora de cogitação, teria que consultar um medico e acho que não adiantaria. Bebo suco de maracujá toda noite antes de me deitar e é como se eu tomasse água.

Quarta-feira, 8 de Novembro de 2006. – Não sei mais como é ter uma noite bem dormida.
Limito-me a sair na rua somente para comprar o que preciso. As pessoas não param de me olhar e todos que conversam comigo me perguntam se estou doente. É claro que não estou!

Quinta feira, 16 de Novembro de 2006. – Acabei de voltar da casa de meus pais e oh...como eles se assustaram com minha aparência. Há dias não os via. Eles bateram a minha porta várias vezes, mas eu não abri. Não tinha vontade de vê-los, nem eles e nem ninguém.
Minha mãe prometera que amanha irá ao medico pra marcar uma consulta para mim. Vou dizer a ele o que disse para os meus pais, que estou assim pois fui despedido e é claro, principalmente por causa da morte da maldita.

Quarta-feira, 22 de Novembro de 2006. - Fui ao medico hoje cedo. Me receitou alguns remédios dos quais não vou comprar e me pediu para consultar um psicólogo. Este não quero vê-lo nunca.
Ainda não tenho coragem pra contar tudo o que vem me acontecendo. Ontem por exemplo comprei uma revista pornô pra ver se me distraio. Levei-a até o banheiro e na hora me que ia ejacular, a revista pegou fogo. Alguém acreditaria nisso se eu contasse? Claro que não.

Segunda-feira, 27 de Novembro de 2006. – Hoje quando acordei após algumas sagradas horas de sono, deparei com um grande volume ao mau lado na cama. Estava totalmente coberto pela colcha. Levantando-me discretamente puxei a colcha, mas não havia nada. Nada.
Não agüento mais. Meu Deus, me ajude.

Sábado, 2 de dezembro de 2006. – Hoje é meu aniversario e logo de manha já tive surpresas. Acordei com a voz de Lídia cantando parabéns. Irritado, olhando ao redor procurando vê-la, xinguei-a. Gritei perguntando o que ela queria e por quê ainda estava aqui a me atormentar. Não dissera mais nada e nem sequer apareceu para mim.
Minha família apareceu à tarde. Foram embora agora a pouco. Fizeram-me uma festinha surpresa. Tentei parecer normal. Sorri – espero nunca ver as fotos que tiramos, tenho medo do meu sorriso – comemos bolo, cantamos e dançamos.
Ah, se eu pudesse-contar para eles. Se tivesse coragem.

Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2006. - Não agüento mais. Há três dias vejo o espírito de Lídia andando pela casa. Toda desengonçada, arrastando o vestido branco no assoalho. Não conversa comigo, apenas limita-se a me olhar. Cansei de mandá-la embora. Disse que ela está me desgraçando mais ainda e que eu já não a amo mais, pois a temo. Quando disse isso ela se irritou, quebrou vários vasos e desapareceu, mas depois apareceu de novo, com os olhos cheios de lágrimas.



Sexta feira, 25 de dezembro de 2006. 2 h da manhã. – Já sei o que Lídia quer e o porque que ela me atormenta. Ela me quer ao lado dela. Só não sei por que ainda não me disse isso. Vou fazer a sua vontade. Não suportarei viver desta forma mesmo, dormindo pouco, sem emprego pois creio que foi devido a minha aparência que não passei em nenhuma entrevista. Não posso nem arranjar outra mulher. Antes de ontem fui a um cabaré e na hora em que a penetrava esfomeadamente a prostituta, ela me encarou com olhos esbugalhados e disse com a voz de Lídia: “ Carlos, não acredito que você está fazendo isso, pensei que seria fiel”. Sai de cima da mulher gritando, paguei-a e sai correndo deixando-a confusa.
Já preparei tudo. Vou me embebedar e logo em seguida, cortarei meus pulsos. Se não adiantar, tenho uma boa corda na varanda.
Sinto pena da minha família, sei que lerão a isso pois deixarei o diário sobre meu criado mudo, espero que entendam o motivo da minha morte.
Pai, mãe, meus irmãos Claudia e Ricardo, amo todos vocês. Não tenho outra escolha, devo morrer caso contrario o espírito de Lídia me atormentará por toda a vida e me deixará louco. Isso não seria vida.
Espero que as boas lembranças do que vivemos estejam sempre com vocês!


* O diário foi encontrado na manhã de Natal por Dona Joana, mãe de Carlos. Segundo ela ao entrar no quarto do filho pra levá-lo á sua casa, se deparou com o mesmo morto sobre a cama, todo ensangüentado, ao lado jaziam uma garrafa de pinga, uma faca e sobre o corpo uma foto de Lídia.
Dona Joana afirma que quando deu ás costas ao corpo para sair à procura de ajuda, ouviu uma voz atrás de si que dizia. “ Mãe” e ao se virar a pobre senhora vira instantaneamente o espírito do filho ao lado do corpo, de mão dada á Lídia.
Lídia sorria enquanto Carlos, com o rosto serio, derramava uma silenciosa lagrima.

FIM
de Bruno Wolff

32 comentários:

  1. Aspirante a Stephen King huahua Li, lerei novamente a noite. Muito bom!

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  2. cara gosto muito do seu blog
    tem textos muito bem escrito
    prbns e muito sucesso pra vc ta.

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  3. A inteligência extrema beira à loucura... O medo extremo, à insanidade.

    www.catarseonline.blogspot.com

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  4. Nossa... confesso que me arrepiei... adoro essas histórias, mas da um medim...
    Parece até real a história... célssssss...
    Seguindo... e lendo... com medo, mas lendo...

    bjossss

    http://teclandocomigomesma.blogspot.com/

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  5. Pelas suas narrativas vc tem uma veia de cineasta.
    Bjks
    Passa lá tbm...
    http://estigmaangel.blogspot.com/

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  6. That's creepy! ^^
    Show o blog! Texto bem escrito.
    Continue assim!

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  7. show...cara parabéns pelo texto..
    seguirei com certeza....quero acompanhar os contos...
    XOXO

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  8. Que gata a mina da foto.

    Zé do Caixão
    Pobre Esponja

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  9. A história da um medo mesmo

    Agora, a muher da foto ta dando susto

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  10. Cara...muito bom seu conto!!
    Gosto bastante de contos de terror!

    Parabéns pelo blog!

    http://websarti.blogspot.com

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  11. Nossa mto bom msm.. só pela imagem do titulo eu me arrepiei..!
    seguindo aki \õ
    segue meu blog lá tmb..!
    BjãoO

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  12. puts... sei lá o que dizer viu, heuaheuhauea. tem umas imagens estranhas aqui

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  13. Minha nossa , tipo seu texto estaa ótimo .
    Mais nao sou muito fã de terror nao kkkk.
    A imagem esta meio que um pouco SUPER assustadora( pra mim esta kkk)
    Parabéns.

    http://dreamsofyorrana.blogspot.com/

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  14. Mesmo não sendo muita fã de terror.. gostei muito do seu texto.. seu blog é bem criativo!!..

    Parabens!!

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  15. Este comentário foi removido pelo autor.

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  16. O medo beira nossas vidas..é inevitável!

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  17. UUUAAAUU, que medo de um dia ver um fantasma desses ao meu lado..
    Muito bom !!

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  18. Oi...muito legal seu blog, parabéns continue sempre assim...sempre to entrando e dando uma olhadinha...:D
    To te seguindo,poderia seguir meu blog também?

    http://www-cinemagico.blogspot.com/

    Obrigado...

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  19. otimo conto... deveria escrever livros

    sucesso com o blog

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  20. Adorei a forma de diário de seu conto!
    Foi a primeira coisa que me atraiu a lê-lo...
    O ritmo me prendeu daí.
    Mas que esposa possessiva, neh?!
    Mesmo depois de morta fez tudo para que o cara ficasse com ela...
    Muito bom o seu trabalho.. parabéns!
    ;D

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  21. Nossa que intensa, muita boa *-*
    Tenha escrever um livro e tals, e manda para as editoras *-* parabéns.

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  22. Que medo!! Me pareceu uma mistura de "A noiva cadaver" com Nelson Rodrigues. :)

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  23. Massa, gostei dessa história... Deu um medinho rsrsrs. Muito bom seu blog.

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  24. ai tenho medo dessas coisas
    http://cabelobeleza.com

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  25. Terror é demais!

    Guilherme : http://saosomaispalavras.blogspot.com/

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  26. no final a silenciosa lágrima é como um grito estrondoso ....show

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  27. Mais uma vez seus textos me surpreendem. Me assustou muito porque a primeira vez que eu li um texto (terror na casa velha), eu tinha feito um texto parecido, com as estátuas na frente e agora me assusto por causa do aniversário do cara no dia 2 de dezembro, data de uma pessoa que amo muito.
    Incrível o texto, continue sempre postando. Certeza que voltarei mais uma vez para ler seus textos magníficos! PARABÉNS.

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  28. oi!!!
    adorei essa tua historia.
    eu,como escritora,adorei mesmo!!!
    voce devia tentar alguma coisa,editora e tal..
    beijo!!!!!!!
    michelle graf

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