sábado, 5 de junho de 2010

O CHEIO DE LÁGRIMAS





_ Me enganou! Como pude ser tão cego? Cara de anjo, mas coração de Lilith...
Durante horas, naquela noite fresca de lua minguante, o palhaço Tedy permanecera encolhido aos pés de uma árvore morta num bosque sombrio ao redor da cidade de Iguatama onde o circo se instalara. O medo ali não o perturbava, nem mesmo quando ouvia barulhos estranhos ao seu redor, vindo de trás dos arbustos e das altas árvores. Ele apenas se lamentava pela cena que vira horas antes, ao terminar seu espetáculo no circo: Ele com o coração leve, apaixonado e inocente se dirigira para o trailer de sua amada Paty - a mais talentosa acrobata do circo - levando consigo uma rosa para expressar um pouco do seu amor, mas quando chegou próximo ao trailer ouviu vozes e discretamente olhou pela janela e o que viu fez com que o brilho de seus olhos fossem cobertos por uma mortalha de tristeza, viu Paty ser acariciada por Chacal, o novato estranho atirador de facas, e ouvira-a dizer que iria embora com ele, com isso Chacal a envolveu em seus braços e quando pousou sua cabeça no ombro dela, ele olhou na direção da janela e viu Tedy, e este abaixando-se, correu para seu trailer, despedaçando a rosa da mesma forma que se encontrava seu coração e odiando a idéia de que aquele sorriso triunfante e zombeteiro que acabara de ver da face perniciosa de Chacal por cima dos ombros de Paty, jamais se apagaria de sua mente.

Agora ali no escuro, tomado pela confusão, com a maquilagem borrada pelas lágrimas - acentuando ainda mais sua expressão de tristeza - , tentava decidir o que fazer dali pra frente.
Como em todos os momentos de decisões de sua vida, aquelas duas vozes o bombardeava mentalmente com idéias de como enfrentar tal situação.
Uma voz fria o aconselhava a voltar para o circo e matá-los, picá-los em pedacinhos e dar para os leões famintos nas jaulas, por outro lado uma voz doce lhe dizia para não fazer aquilo, dizia para que voltasse e conversasse com ela.
Estava dividido. Queria fazer as duas coisas. Não poderia matá-la, pois a amava tanto que chegava até a doer. Queria apagar qualquer sorrisinho gozador de Chacal, mas teria ele chances contra um forte e habilidoso atirador de facas? Matá-los não seria tão fácil assim. Por outro lado achava dolorosamente humilhante resolver aquela situação numa boa.
_ Mate-se então, termine com essa dor agora. Pegue esta lâmina e se rasgue. – aconselhou a voz fria em sua mente.
Ele então levou a mão ao bolso, e sentiu a lamina que pegara em seu trailer. Tirou-a e contemplou o brilho tênue da lua que se refletia nela.
‘Sim, vou acabar com essa dor.’ Pensou.
_ Não. Não desista. Essa tempestade vai passar. Volte e resolva tudo numa boa. – irrompeu aquela voz doce.
‘Será?’ Pensou guardando a lamina.

Mas a dor em seu peito era insuportável.Por mais que tentasse não conseguia se conformar com a idéia de viver sem a sua acrobata. Todos aqueles anos felizes juntos, as noites de amor, - como a de ontem ali - os planos de se casarem, de terem filhos, toda aquela historia de amor... Não... Tudo aquilo não poderia terminar assim tão humilhantemente. ‘Aquele homem de feições duras certamente lançara nela um feitiço fortíssimo a ponto de fazê-la esquecer todas as promessas e se entregar a ele assim. É isso?’ Argumentara.
_ A resposta é tão simples e clara meu caro. – respondeu a voz fria – Ele simplesmente é melhor que você. E se há algum feitiço lançado, fora o de seu charme e beleza.
_Não... Por quê isso! – gemeu Tedy jogando as mãos no rosto.
A dor, desespero, amargura, solidão então o dominaram e ele chegara a um estado beirando a loucura. Estava entorpecido. Entorpecido de tristeza e ódio.
_ Tedy, Deus jamais permitirá que você carregue uma cruz que você não pode suportar. – a voz doce soou ainda mais divina em sua mente. – A vida humana é cheia de problemas, dificuldades..., você bem sabe disso, você tem que buscar forças. Deixe a luz divina penetrar em você para que tenha paciência e sabedoria para lidar com tais problemas, assim tudo se resolverá. Permita que Deus haja em você agora. Abra seu coração.
O vento soprou forte sobre ele, secando assim as lágrimas entre seus dedos.
Ainda estava indeciso. O sorriso maléfico de Chacal pairava em sua frente como um maldito retrato, estando ele de olhos abertos ou fechados.
Então aquela voz doce começou a cantar em línguas na mente de Tedy, confortando e aquecendo seu coração. Não entendia nada, mas aquela canção estava tendo o poder de podar as raízes de infelicidade em seu coração. Era maravilhoso. Simplesmente divino.
O vento tornou a soprar impetuoso e desta vez veio com ele um barulho de patas pisoteando a grama ao redor, o que fez com que Tedy se desentediasse da bela canção, tirando toda a sua atenção. Tirou as mãos do rosto e olhou ao redor, seus olhos lacrimejantes cresceram e seu coração disparou ao contemplar um ser trajando luto montado num cavalo vermelho de olhos chamejantes.
_ Como diz aquela mùsica ‘... guarde os pulsos pro final, saída de emergência... ’. Esta sim é uma saída de emergência. Liberte-se.
Aquela voz! Aquela criatura era dona daquela voz fria!
_ Venha! – continuou – Cavalgaremos até um lugar em quem esta dor já não mais será tão grande.
Tedy fitando extasiado aquela criatura se lembrou de uma frase ‘ Pra tudo á uma solução’ Seus olhos brilharam. Aquele ser era a solução?!
_ A lamina Tedy. Ela é chave para abrir os cadeados dessa corrente que lhe prende á dor.
Tedy tirou-a novamente do bolso e olhou-a mais uma vez.
_ Vamos. – disse o cavaleiro negro – Ou quer passar a vida toda chorando por ter sido traído?
Tedy então buscou com o olhar os olhos do estranho, queria ver ali um olhar de aprovação, mas não o viu devido ao capuz negro que escondia as faces do homem.
Suspirou então, beijou a lamina e depois abaixou-a para que deslizasse sobre seu pulso, mas naquele momento a clareira fora envolvida por uma luz incomum. Ted olhou e boquiabriu-se, seus olhos se encheram de luminosidade ao contemplar um ser divino, brilhante, de face serena, tez rosada e compridos cachos louros dourados.
O cavalo infernal relinchou nervoso enquanto tomava distancia daquele ser e sua luminosidade, enquanto o cavaleiro negro praguejava-o.
_ O que esta fazendo Teodoro. Pare e pense. – disse o anjo cintilante, dono daquela voz doce. Tedy encarava-o com uma sensação de que já o conhecia há anos apesar de nunca tê-lo visto, apenas sentido sua presença constantemente.
_ Não posso suportar a idéia de viver sem a Paty.- choramingou ele. – Não posso suportar a idéia de perdê-la assim.
_ Um dia ela enxergará o erro que está cometendo, Tedy...
_Tedy. – chamou o cavaleiro negro oculto nas sombras.. – Venha comigo. Você está precisando de diversão. Não quer se divertir um pouco? Levarei você a um lugar onde a bebida é gratuita e as mais belas mulheres são fáceis e experientes, você só precisa usar a lamina.
_ Não - insistiu o anjo rapidamente ao observá-lo manusear a lamina – Jesus te dá poder pra pisar em cobras e escorpiões,sem sofrer nenhum mal. Lute, vença a força do inimigo. Você pode. Tedy, não o deixe contaminar-te com sua maldade. Segure minha mão. Vamos passar por este vale de lagrimas juntos.

Tedy então suspirou fundo, tentou enxergar o cavaleiro negro e nem se espantou quando viu duas esferas vermelhas emergindo do capuz, depois fechou os olhos e viu o sorriso zombeteiro de Chacal, viu Paty envolvida naqueles braços fortes novamente... Não podia suportar. Não queria... Sem prestar atenção nas palavras do anjo que dizia que se ele fizesse aquilo perderia sua alma, deslizou a lamina sobre seu pulso. Enquanto seu sangue desaguava silenciosamente como as águas do Rio São Francisco próximo dali, rostos conhecidos passavam em lampejos á sua frente, todas aquelas pessoas que Tedy gostava, seus amigos, família... Ele os tinha... Eles precisavam dele e ele deles. Vislumbrava como em cena de um filme antigo, vários momentos bons que vivera com eles, e ali imponente, enquanto os minutos se arrastavam ele percebia a louca escolha que havia feito.

Abriu então os olhos e olhou arrependido para o anjo que o fitava com aqueles belos olhos claros que refletia nitidamente todo seu lamento e tristeza, depois o ser divino ajoelhou diante dele, desconsolado, com imensa pena daquela criatura fraca.
Tedy abriu a boca num esgar desesperado para gritar por ajuda, mas não conseguiu. Já se sentia fraco, trêmulo e incapaz de se levantar. O cavaleiro negro vendo todo aquele esforço inútil riu friamente.
_ Tolo.
Tedy olhou suplicante para seu anjo que chorava, mas este já não podia ajudá-lo. Tedy fizera sua escolha.
_ Estúpido. Sua alma agora me pertence. - disse o cavaleiro negro enquanto desmontava do cavalo. – Gosta de calor? Sinceramente espero que não.
Dizendo isso, com um gesto de mão, fez com que aparecesse ao lado de Tedy um enorme abismo negro de onde escapavam gritos e lamentos desesperados. Depois, se dirigindo ao palhaço – evitando ao máximo para que ao menos a luz do anjo não chegasse a seus olhos - agarrara-o bruscamente e arrastou-o para o abismo. Tedy tentou fugir daquelas garras quentes e malignas, mas não conseguiu. Clamou pelo anjo, mas quando se virara para ele ficou paralisado de horror, viu seu corpo ensangüentado e o anjo prostrado diante dele, com as mãos cobrindo o rosto, cheio de lagrimas que fugiam por entre seus dedos nobres. Esta fora a última cena que Tedy vira na terra antes que o abismo se fechasse completamente, engolindo seu espírito.

O demônio partiu satisfeito á procura de uma nova vitima, com seu cavalo cor de fogo relinchando e empinando e o anjo cintilante lançando um último olhar lacrimoso no rosto daquele cadáver, desapareceu desconsolado, levando no peito a tristeza de saber que o espírito de seu protegido partira para um lugar de trevas onde o sofrimento e o choro jamais cessavam.
Mas não abandonaria aquele corpo ainda. Providenciaria para que não apodrecesse ali.

***

_ Teodoro? Onde você está?
Uma mulher vestida com roupas finas e apertadas procurava ansiosa por uma grande árvore morta num bosque perto das margens do Rio São Francisco. Sua lanterna tremia em sua mão, enquanto apontava-a apressadamente em todas as direções.
_Teodoro? Eu sinto que você esta aqui. Vim conversar...
De súbito lembrou-se da direção em que ficava a árvore morta e se dirigiu para a direção oposta. De repente iluminou um tronco seco e ela teve certeza de que era a árvore que procurava. A árvore onde suas raízes fora há um dia antes, o ninho de amor entre ela e o homem que procurava. Descendo a luz da lanterna pelo tronco sem vida, ela viu um rosto pintado e rapidamente desligou a lanterna, ficando na penumbra.
_ Ai que bom que te encontrei Teodoro, senti que estava aqui... Tenho algo há lhe confessar. Cometi um grande erro. Mas agora consegui enxergá-lo ates que se tornasse pior e imperdoável... Me sinto tão envergonhada e suja. - Ela suspirou profundamente e torcendo as mãos nervosas continuou. – Mas antes de me confessar, quero que saiba que o amo muito e que conhecê-lo foi a melhor coisa que me aconteceu...
Por um momento, ela esperou ansiosa por alguma pergunta, uma indignação, um suspiro, um movimento, ... droga, um sinal de vida. Mas nada. Acendeu então a lanterna e iluminou o rosto. Reparou então que estava manchado de lagrimas e mantinha os olhos abertos e parados, indiferente com a luz. Estremeceu quando olhou sua boca semi-aberta, imóvel. Depois, lentamente, desceu a luz da lanterna pelo seu corpo enquanto sua boca se formava num grande e perfeito O.
_ TEEEDY....Urrou ela num misto de horror e desespero enquanto seus olhos esbugalhados via a lamina, o profundo corte e aquela roupa colorida encharcada de um líquido escarlate.

Fim.

de Bruno Wolff