sábado, 8 de maio de 2010

A VINGANÇA DO ORC




Em tempos imemoráveis, quando o sol ainda era jovem e seres humanos caminhavam no mesmo solo que extraordinárias criaturas bélicas e seres repugnantes,o rei Kram, que governava a bela região de Clamor, soube que um bando de orcs habitou uma montanha próxima ás suas terras. Contrariado, achando que aquelas criaturas enrugadas, esverdeadas e de um aspecto brutal pudessem destruir a paz e a beleza daquela região, preparou seus soldados e ordenou-lhes que invadissem aquela área na calada da noite e destruíssem todos eles. Muitos orcs foram aniquilados, e alguns mais espertos que não agüentaram mais lutar, fingiram-se de mortos e fugiram após a luta, mas destes poucos sobreviveram depois.
Krukz, o orc-chefe fora um dos sobreviventes, mesmo tendo vários ferimentos profundos. Este, enquanto fugia sozinho após a batalha, não conseguia entender o motivo daquela matança, pois os orcs de sua espécie eram conhecidos como ‘benignos’, sendo tranqüilos e inteligentes. Era verdade que tinham um aspecto bruto e maligno, mas eram muito sossegados e dificilmente se envolviam em conflitos com humanos. Eram extremamente diferentes das outras raças que matavam humanos por pura diversão.
Temendo que os soldados fossem caçar os que fugiram, Krukz fora se esconder numa caverna da montanha mais alta, onde humano nenhum poderia chegar, há milhas e milhas de distância das terras do rei Kram. Mas lá enquanto se recompunha dos ferimentos, um sentimento quase nunca explorado por ele e sua raça começou a dominá-lo. O ódio. Sentia sede de vingança. Tinha que se vingar do rei, pelos seus mortos, pelo sossego que já não tinha e pela amarga solidão que o acompanhava desde a matança.
Então, dias depois, quando se sentia forte e capaz, saíra pela primeira vez da caverna, para saciar-se da vingança. Iria ao menos matar alguém que faria o rei sentir o gosto amargo da perda.
Oculto na floresta na orla do castelo, Krukz passara dias observando e descobrira que o rei tinha uma linda filha chamada Nija e que estava prestes a se casar com um dos soldados, um dos malditos que destruira a vida de muitos da sua raça. Decidira então acabar com ela, mas precisava contar com a propícia oportunidade, não teria pressa.


Então numa fria e calma noite em que o orc dormia dentro de um tronco oco de uma árvore, algo o fez despertar. Eram vozes e risadas, estavam vindo de muito perto. Saindo então calma e silenciosamente de seu esconderijo, Krukz fora observar e mal acreditou quando viu por detrás de um arbusto a filha do rei numa pequena clareira deitada com seu amado. Riam e conversavam satisfeitos. Os olhos do orc brilharam como nunca, um brilho frio e malévolo.
Estava ali a oportunidade que esperava. Poderia matar os dois, despedaça-los e lanças suas cabeças numa das janelas do castelo. Que vingança deliciosa!
Ele ficara um tempo pensando em como agiria enquanto observava os dois se acariciarem e trocarem doces palavras de amor. Decidira então invadir de uma vez, sair correndo em direção a eles e esganá-los até a morte. Pegá-los-ia de surpresa, assim como o pai dela ordenara que fizessem com seu clã.
Então, quando se aprumou para atacá-los escutara algo de Nija que o fez mudar de plano. Ela dissera a seu amado que estava grávida, que sentia já um pequeno ser sendo gerado dentro dela. O soldado dissera algo sobre o rei se espantar com a gravidez antes da cerimônia de união, mas depois ele chorou satisfeito, os dois choraram emocionados e o orc sorriu pois viu que sua vingança não seria tão simples como supunha...


Nija então chamou seu amado pra irem embora. O orc ficou ansioso e excitado, perderia a chance? Nunca.
Enquanto os dois se levantavam, o orc pôs seu novo plano em ação; atirara uma pedra na cabeça do soldado afundando-a em seu crânio,e este caiu na hora, morto. Nija, assustada e chocada, ajoelhara ao seu lado e gritava por seu nome ‘Haggard, Haggard’, enquanto tentava enxergar na penumbra o autor daquilo. O orc então saiu de trás dos arbustos e correu em direção a Nija e esta quando o viu soltara um urro de medo e desmaiara de horror.
O orc sorriu novamente ao contemplar os dois ali; o soldado com uma cratera na cabeça e Nija profundamente desmaiada com uma expressão congelada de medo.
Percebendo que não poderia perder tempo por causa dos gritos de Nija, rasgara então a camisa do soldado e com a unha grande e afiada escrevera no peito dele:
“ Maldito rei Kram, tirara injustamente tudo de mim, por isso tirarei de você sua jóia mais preciosa, sua filha e o filho de Haggard que ela espera. Torço para que a tristeza o abrace, e que a agonia seja sua companheira dia e noite...Tenha certeza de que uma nova raça de orcs nascerá.... Krukz, orc-chefe”
Quando terminou de escrever, Krukz pegara delicadamente Nija e a pusera no ombro e partira o mais rápido possível pra caverna no alto da montanha enquanto ao longe ouvia pessoas que se aproximavam da clareira.
Então, naquela mesma noite, o rei, ao saber do grande infortúnio que lhe atingira, convocou todos os seus súditos e ordenou-lhes que os encontrassem, mandara também pedir ajuda aos reinos vizinhos na busca, deixando bem claro que trouxessem o orc vivo. Iria com suas próprias mãos castiga-lo com uma morte lenta e dolorosa. Mas todos seus esforços foram em vão.


Na medida em que o tempo ia passando, o rei com sua contínua angustia ia ficando cada vez mais doente e inconsolável e várias primaveras depois que tivera sua filha seqüestrada, os soldados finalmente a encontraram próximo ao portão do castelo, mas sem vida. Fora depositada ali durante a noite discretamente. O rei ao contemplá-la, mal pôde acreditar que aquela era sua Nija. Encontrava-se totalmente desprovida de sua beleza, ferida, suja e desgraçadamente morta, e como se não bastasse o rei fora tomado por uma terrível depressão por não ter absoluta certeza se ela ao menos dera luz ao filho de Haggard. Jamais esquecera ou descartara o que viu escrito na pele daquele pobre infeliz soldado.
Cheio de ódio e tristeza, o rei intensificara ainda mais as buscas, pedindo ajuda a outros reinos distantes, mas novamente frustrou-se com o fracasso.
Tempos depois, o rei que já não cabia em si de tristeza pra não falar da doença, morrera de choque e horror ao ler o que fora escrito na pele de três soldados que foram encontrados mortos na floreta. Com letras escarranchadas escritas á unha pelo próprio orc vingador, ele lera que durante o tempo em que Nija estivera em suas mãos, ele reencontrara os orcs de sua espécie que haviam sobrevivido ao ataque e que ela dera a luz a um menino, Drup, filho segundo ela de Haggard; e que depois deste, sendo estrupada por diversas vezes por Krukz, dera luz a mais três filhos semi-humanos, mestiços. Krukz garantira que criaria o neto do rei como um filho e confessou que mal podia esperar o dia em que seus quatros filhos lhes dessem netos, aumentando assim uma nova raça de orcs.

Fim
de Bruno Wolff