segunda-feira, 5 de abril de 2010

PASSEIO NOTURNO




1.

Anne ficara um bom tempo naquela noite fria diante do portão do cemitério esperando o vigia apagar as luzes do barraco no fundo e ir dormir. Ela sabia que ele não ficaria a noite toda vigiando aquele lugar calmo e silencioso e quando finalmente as luzes foram apagadas ela pulou o portão.
Enquanto caminhava devagar, arrastando a barra do seu vestido negro no chão, pisoteando gravetos secos entre túmulos e anjos tristes de pedra, ela tentava se explicar como estava tendo coragem para fazer aquilo, pois detestava aquele lugar e a primeira vez que estivera ali fora há duas semanas antes, ‘no enterro de Dick’. Só o que sabia era que sentia uma necessidade enorme de estar diante do tumulo dele. Acreditava que talvez aquele sofrimento lacerante que a dominava, se amenizasse e quem sabe até se sentiria mais próxima dele?!
Ela realmente precisava estar ali, naquela hora.

Lágrimas silenciosas rolaram de sua face quando, á luz do luar, contemplou a foto de seu amor sobre seu tumulo. A dor era profunda e amarga. Oh Deus, não conseguia absorver aquele infortunado fato de que aquele rapaz que via na foto, de olhar sapeca, rosto rosado e cabelos lisos e negros jazia ali, sem vida, se decompondo preguiçosamente.
A dor a desfragmentava ainda mais quando pensava que se estivesse estado lá na fazenda no dia do incêndio, poderia ter o salvado. Sentia-se culpada por isso. Naquele dia apenas Anita, a irmã de Anne se encontrava lá com ele, e Anita com um olhar vago e distante dissera que só foi se dar conta do incêndio quando ele já tinha terminado de destruir o paiol e fritado seu cunhado. Era horrível não saber a verdadeira causa do incêndio. A perícia tomando nota de que Dick fumava, apenas palpitou que a causa do fogo fora a ponta de cigarro que Dick distraidamente, poderia ter jogado perto dos galões de gasolina que se encontravam no local, causando assim uma explosão. E o caso fora encerrado.
Oh, como sofria por pensar que não o teria mais; que não veria mais aqueles olhos vívidos; nem seria mais abraçada por aqueles braços fortes e jamais seria afagada por aquelas mãos calosas de agricultor...
_ Depois que você se foi, - disse ela baixinho com a voz embargada - uma tempestade tomou conta do meu coração, destruindo o jardim que existia nele. Agora só existem lama e rosas mortas, sem vida.
As lágrimas continuavam a cair.
Uma coruja crocitou numa das árvores secas do local.
“As lembranças aliviam a dor por dentro”, pensando isso, Anne sentou-se diante daquela foto e viajou ao tempo lembrando-se dos doces momentos que vivera com ele e com isso sem que ela percebesse, o sono foi chegando e quando recostou sua cabeça sobre o tumulo, já estava dormindo.

2.

Estava num lugar verde e maravilhoso.
O sol brilhava graciosamente. Os pássaros nas árvores cantavam alegres. Vários animais selvagens se faziam ouvir.
Num morro daquele vasto paraíso maravilhoso, Anne subia apressada. Seu vestido branco e seus cabelos cor de fogo esvoaçavam delicadamente. Sorria triunfante e seus olhos brilhavam como diamantes. O motivo disso tudo era porque Dick, todo vestido de branco ao lado de um belo cavalo, á esperava no topo do morro.
Somente aquela exuberante natureza que os rodeava pudera presenciar aquele encontro: aquele abraço de urso, beijos ardentes, risos alegres, olhares apaixonados...
_ Não suportava mais ficar longe de você. – disse Anne fitando extasiada aquele rosto alegre e perfeito, sem nenhum vestígio do incêndio.
Dick a contemplava serenamente; pegou-a no colo e a montou no cavalo e juntos cavalgaram por entre morros, campos multicoloridos, bosques e animais selvagens.
Tempo depois, que pareceu a Anne segundos, – as horas ao lado dele parecia não existir - pararam ás margens de uma cascata. Ali deitados na relva verde á sombra das árvores eles conversaram e namoraram.
_ Por favor, me prometa, – dissera Anne momentos depois contemplando-o séria – me prometa que jamais iremos nos separar novamente.
Então Anne viu surgir uma sombra obscura nos olhos de Dick antes dele abaixar a cabeça. Anne indagou e ele apenas dissera com uma voz quase desesperada:
_ Venha. Já esta na hora... Quero lhe mostrar uma coisa.
Eles então se levantaram e Dick, segurando-a pela mão, a levou para o rio, em direção a cascata. Anne não entendia nada e quando viu que iam atravessá-la, fechou os olhos e ficou imaginando o que poderia ter do outro lado.

3.

Mas não era caverna e nem rochas que ela pensou que iria ver. Ao atravessarem, Anne se viu dentro do paiol da fazenda. Estava agora como era antes do incêndio.
Olhou indignada para Dick ao seu lado, mas quando o fitou, sentiu como se uma espada transpassasse seu coração partindo-o ao meio. Dick estava totalmente deformado e irreconhecível, da mesma forma que o encontraram ali após o incêndio.
_ Preciso que veja como acontecera. – disse ele com uma voz gutural e em seguida a porta do paiol se abrira e por ela entrara um outro Dick fumando um cigarro tranquilamente. Aquele estava intacto.
Anne chamou-o e correu até ele, mas ele não respondera e ela apenas o atravessou quando quis abraçá-lo. Então, enquanto o observava se sentar numa lata no fundo do paiol e pegar umas espigas de milho para descascar, ela compreendeu que estava num sonho, vendo um passado e que ali era menos que um fantasma.
De súbito então a porta do paiol se abriu e por ela entrou Anita, a irmã de Anne. Anita, remexendo sensualmente os quadris de uma maneira que Anne jamais vira , passou por ela sem a notar e se sentou no chão, diante de Dick. Ela então começara a se assanhar para ele dizendo coisas para deixá-lo louco de tesão. Implorava para que ele a possuísse. Ele a ignorava até mesmo com o olhar, dizia que não a queria, que amava Anne e jamais teria coragem de traí-la.
Anita então ofegante e agitada, decidida a tê-lo, tirara a roupa ali, ficando completamente nua.
_ Me possua – dizia ela esfregando os seios e estalando os lábios – Entre em mim, quero sentir o calor do seu corpo sobre o meu.
Mas nada disso adiantou. Dick lutava com êxito para não olha-la. Ela sentindo-se fracassada e rejeitada começou a xingá-lo.
_ Você é a coisa mais baixa que existe sobre a terra – dissera Dick concentrado nas espigas – Como pode ser tão cínica? Na frente de sua mãe e irmã você se faz de santa e basta elas virarem as costas pra você se transformar num demônio. Diz que vai á igreja mas vai e pra safadagem, pensa que eu não sei? E pode crer que não continuarei a ser o único aqui a saber...
_ Por quê? Vai abrir o bico? Isso não é da sua conta...
_ Decerto que não é, mas não se pode esconder algo pra sempre. Tenho pena de sua mãe por ter tido uma filha como você, mentirosa, misteriosa e cínica... Ela não merece...
Aquilo pra Anita fora demais, ela desnorteada e começando a sentir vergonha pegara de súbito um cabo de enxada e se pôs a golpeá-lo, sem dó. Seus seios brancos balançavam freneticamente enquanto o atacava e ele surpreso, não conseguiu reagir. Só parou quando o pobre caiu entre os milhos, desmaiado.
Durante aquela cena Anne ao redor tentava impedir. Gritava e implorava para que Anita parasse, mas nada adiantava, estava assistindo a uma cena do passado e em nada podia interferir.
Anita então respirando ofegante , com os olhos desvairados, pegara um dos galões de gasolina e o espalhou sobre ele. Vestiu as roupas e em seguida acendendo um dos fósforos de Dick atirou sobre ele dizendo:
_ Vai aprender a respeitar uma vagabunda seu frouxo.
_NÃO.... – Gritava Anne desesperada.
Anita então saíra rindo, um riso sem graça, mas triunfante de uma mulher que acabara de se vingar por ter sido rejeitada.
A cena então começou a ficar desfocada, distorcida. A última coisa que Anne vira eram as chamas esfomeadas consumir o grande amor de sua vida. Ela então desmaiou e quando acordou, viu novamente Dick intacto, de olhar triste e sereno ao lado dela. Não estavam mais naquele lugar em chamas, mas novamente nas margens da cachoeira.
_ Como ela pôde? – disse Anne abraçando-o – Jamais suspeitei que Anita fosse capaz de tudo isso. Ela ainda continua a se fingir de santa. Nem mostra sinais de arrependimento Dick, que monstro...
_ Ela está doente Anne, agora eu sei, e pode inconscientemente causar mais catástrofes. Não faria isto se estivesse em estado normal. Te mostrei isso para que tome providencias para que ela seja tratada. Não a odeie pelo que ela me fez, perdoe-a. Eu a perdoei.
Anne não conseguiu dizer nada, um caldeirão de sentimentos cozinhava em sua mente, mágoa, surpresa, dor... Ele então a abraçou forte e carinhosamente, um abraço de despedida.
_ Anne, está na hora de ir. – ele sentiu que ela também o abraçava mais forte – Mas pode ter certeza de que um dia nós estaremos juntos novamente e para sempre.
_ Não. – disse Anne se jogando aos pés dele, - Por favor, não quero ir. Quero estar onde você estiver, não...
_Anne, acredite, estarei sempre com você, dentro do seu coração. Jamais a abandonarei.
Anne fechou os olhos e com isso mais lágrimas escorreram e quando os abriu para encará-lo decidida a lutar pra ficar com ele, se vira deitada sobre o tumulo.
Então de ombros caídos e coração em frangalhos partiu com os primeiros raios solares, indo pra um lugar onde mais dor e sofrimento a esperavam.


4.

Quando chegou em casa e encarou o rosto tão inocente da irmã teve de se segurar para não espanca-la e estrangula-la até a morte mas conseguiu se conter, não iria adiantar nada. Ela então desnorteada, contara para sua mãe e a louca inconseqüente onde estivera e o ‘sonho’ que tivera. Anita, cheia de raiva e remorso, confessara tudo e depois daquilo a loucura que estava discretamente dentro dela até então, se explodiu como uma bomba e naquela mesma semana fora examinada, incriminada e internada num manicômio.

5.

Dias depois Anne se encontrava com um buquê de flores no manicômio com sua mãe.
Quando chegaram ao quarto de segurança onde estava a assassina, um enfermeiro sério e lacônico terminava de medicá-la e quando se retirou, ela disse com os olhos distantes e sonhadores:
_ Ele está louquinho por mim mamãe... Acho que ele quer mesmo é cuidar daquilo que tenho entre as pernas.
Ela então se encolheu na cama, soltou uma gargalhada descontrolada e sem emoção.

E nos dias que se seguiram, Anne se encontrava cada vez mais em paz consigo mesma. Ainda sentia a dor da perda de Dick e até pela loucura da irmã, mas a cada dia que passava se sentia mais forte e a única coisa que a consolava nas noites em que não conseguia dormir, era pensar que um dia, sim, um dia ela estaria novamente com ele, e os dois cavalgariam no paraíso por toda eternidade no êxtase da paz e da união.

FIM

de Bruno Wolff