segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

A OBRA-PRIMA




Julio limpou a baba da boca que sempre insistia em escorrer e se afastou para admirar sua obra de arte estirada na mesa. Passara a tarde inteira de domingo trabalhando naquele boneco de dois metros que mais parecia um espantalho empalhado com roupas velhas, vestido com um macacão sujo e rasgado e com uma bola de futebol como cabeça, coberta por um saco marrom. Ainda não estava acabado, faltavam colocar as mãos, orelhas, nariz, olhos, boca e cabelos e ali no seu ateliê não havia nada que pudesse fazer se transformar nisso tudo. Foi então que limpando novamente a baba viscosa, saiu do aposento, ( que na verdade era um porão) apanhou uma faca e uma sacola na cozinha e subiu para os quartos.
Enquanto subia as escadas consultou seu relógio de pulso. Eram sete e dez da noite. Sentiu um friozinho de ansiedade na barriga. Tinha que terminar o boneco antes de seus pais voltarem.Tivera a idéia de fazê-lo enquanto almoçava com a família.
_ Hoje vou fazer um boneco enorme. – dissera a eles.
_ Hum! Que interessante. – falou seu pai de boca cheia.
_ Será que você vai se superar? – perguntou a mãe empolgada - Será que vai ficar tão interessante quanto o vaso de flor que você fez para mim com palitos de fósforo, o cinzeiro pro o seu pai com chicletes mascados, o porta retrato feito de folhas de árvores, o...
_ Vai ficar sensacional mamãe – prometera ele. – Hoje estou um tanto inspirado.
_ Ótimo. Eu e seu pai vamos visitar a vovó Gnazzula agorinha há pouco. Vamos voltar ás nove e quando chegar espero vê-lo pronto e muito criativo!
_ Pode acreditar que sim. – respondera ele sorrindo, com os dentes cheios de alface.
Os três irmãos assistiram aquilo fazendo caretas, detestavam as coisas sem sentido que o ‘doidão’ - como o chamavam nas costas - criava.

No corredor, abriu a porta do quarto da Irmã mais nova de três anos e espiou lá dentro. A pentelha estava dormido abraçada a uma blusa da mãe. Julio entrou sem fazer barulho, admirou aquele vívido rostinho rosado e lindo pela ultima vez. No momento em que ele encostara a faca em sua pálpebra, ela acordou assustada, mas na mesma hora Julio arrancara a blusa de suas mãos e enfiara na boca da menina para que não gritasse, assim, debruçado em cima dela para conter as contorções, ele arrancara os dois olhos castanhos da pequena. O sangue rapidamente inundou a cama, a roupa rosa da menina e camiseta preta de Julio. Temendo que ela se levantasse e fizesse o maior escândalo berrando: ‘ DEVOLVA MEUS OLHOS, DEVOLVA MEUS OLHOS’, ele amarrou os braços e as pernas dela com roupas. Ele detestava barulho, principalmente enquanto estava ’criando’, isso atrapalhava sua concentração.
_ Volte a dormir. – disse a ela enquanto depositava os olhos na sacola. Minutos depois de ter deixado o quarto, a pequena voltou a dormir mesmo, mas pra nunca mais acordar.
Foi até o quarto ao lado, a porta estava aberta. Seu irmão Filipe de nove anos, apenas um ano mais novo que ele, estava absorto no computador assistindo ao clipe ‘Welcome to the Jungle’, com o fone de ouvido ligado no último volume. Ele não reparou que seu irmão entrara no quarto, só se dera conta disso quando ele lhe tirara o fone de ouvido:
_ Ei cara, qual é? Esqueceu de tomar seu gardenal outra vez? Vê se se comporte. Arrancou o fone de ouvido das mãos do irmão e se virou pro computador, mas antes de colocá-lo novamente, sentiu um dor excruciante na orelha esquerda. Deixou o fone cair no chão e passou a mão sobre ela, mas não a sentiu. Se virou para Julio e viu que ele a segurava com um sorriso doentio cheio de baba e reparou que sua camiseta estava manchada de sangue.
Filipe abrira a boca para gritar mas não saiu som algum, Julio lhe enfiara a faca na garganta antes que conseguisse fazer ressoar uma nota. Sabia que o irmão iria protestar dizendo:
_Devolva minha orelha seu doido, não vê que estou ouvindo Guns N Roses?
_ Me desculpe – disse Julio retirando a faca e arrancando a outra orelha. - Preciso delas para terminar minha obra de arte.
Depositou as orelhas na sacola e se dirigiu para o quarto no final do corredor. Sarah, a irmã mais velha que há poucos dias tivera sua primeira menstruação, lia deitada de bruços na cama o livro de vampiro Lázarus da escritora brasileira Georgette Silen, com um ar apaixonado. Quase dava para ouvir o ribombar de seu coração.
_ O que você quer? – perguntou ela sem tirar os olhos do livro.
Julio que mantinha a faca e a sacola sangrenta ás costas respondeu:
_ Só quero terminar minha obra de arte.
_ Pois vá terminá-la longe daqui. Não vê que estou lendo? Saia logo.
Mas Julio não a obedeceu, só sairia dali quando tivesse o que queria.
Aproximou-se da mana. Observou seus cabelos e os achou um tanto feios, compridos demais, cheios de ondinhas e cachinhos que lembravam minhocas. Não ficaria bem no seu boneco gigante. Reparou no que dava para ver de suas mãos que apertavam o livro. Eram pequenas e brancas como a neve. Achou-as lindas.
Ergueu a faca e golpeou-a nas costas. A faca penetrou fundo, ergueu-a novamente e enterrou-a na goela da branquela quando esta aos berros se voltou para ele. Ela caiu na cama, em cima do livro. Agora ele podia fazer o seu trabalho sem que ela o impedisse.
_ Não vai cortar minhas mãos – diria ela – Preciso delas para segurar meu livro.
Levou quase uma hora para terminar e quando finalmente colocou as mãos na sacola, fitou o rosto dela manchado de sangue e baba e falou:
_ Meu boneco vai ter mãos femininas!
Seguiu então em direção ao ateliê. Consultou o relógio após depositar a sacola ao lado do boneco. Eram oito e meia. Tinha meia hora para colocar aquelas ‘peças’.
Ainda faltariam os cabelos, o nariz e a boca. Enquanto descia as escadas correndo fazendo balançar nervosamente a sacola sangrenta, imaginou que os cabelos lisos e curtos da mãe e o nariz arrebitado do pai, realçariam ainda mais a beleza de sua obra de arte. E a boca bem, já que babava demais, achou que talvez ela ficasse melhor no boneco.


FIM

de Bruno Wolff

Dezembro de 2010

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

ACUADA






_Anna!... Venha para mim! Deixe-me abraçá-la... cuidar de você!
Anna parou defronte a porta de um dos quartos de uma desconhecida casa do século XVIII e respirou fundo, com a mão na maçaneta. A voz masculina e misteriosa que a chamava era doce, mas no fundo, Anna sentia que tinha um pouco de malicia e maldade.
Gotas de suor escorreram de sua face quando reparou mais uma vez o corredor sombrio e escuro em que estava. A casa estava vazia, exceto por ela e o dono da voz que a chamava. A porta rangeu baixinho quando ela a empurrou e seus olhos se encheram de medo e fascínio ao observar o quarto. A luz da lua tentava em vão entrar pela cortina em tom escuro da janela fechada. Uma vela bruxuleante pousada numa escrivaninha, destacava fantasmagoricamente os contornos de um homem que se encontrava de costas para Anna.
_ Que bom que está aqui. – disse ele com aquele mesmo tom de voz e Anna, se sentindo um pouco mais confiante, aproximou-se alguns passos do homem.
_Quem é você? – perguntou.
_Hora, aproxime-se e descubra você mesma.
Anna então, segurando as bordas de seu vestido vermelho, se aproximou do estranho. Ele suspirou e pareceu se arrepiar quando ela pousou sua tremula mão em seu ombro e como num filme em câmera lenta, ele segurando agora a minguante vela, foi voltando seu rosto para Anna e esta quando o contemplou , emitiu um mudo urro enquanto seus olhos refletiam um homem com o rosto totalmente desfigurado. Pedaços de pele pendiam de sua face enquanto em seus olhos escorria uma fina linha de sangue. Uma gosma nojenta balançava sonolenta em seu nariz descarnado e sua enorme boca desdentada, sorria malignamente para ela.
Anna conseguiu recuar alguns passos, mas caiu em seguida. O estranho se aproximava dela estendendo suas mãos como garras e os rostos nos quadros das paredes começaram a rir e a zombar dela.
_Agora sabe quem sou? Sou seu medo, seu tormento, sua desgraça...
Quanto mais ele se aproximava, mais seu coração batia e quando suas mãos se fecharam sobre o pescoço da jovem ela acordou, suada e ofegante.
Ao abrir os olhos, sentiu como se não o tivesse feito. Estava tudo escuro e todo seu corpo doía pois se encontrava espremida em seu guarda-roupas.
_ Nem nos sonhos tenho sossego. - choramingou
Com o coração batendo a mil, abriu vagarosamente uma fresta da porta e espiou. Seu quarto estava silencioso e desarrumado. Enxugando o suor nas costas da mão, ela escancarou a porta e saiu.
Percorreu cada canto do quarto com olhar, com as mãos na boca, procurando pessoas dilaceradas e quando se deu conta de que estava só ali, foi verificar nos outros cômodos de seu apartamento. Quando constou que realmente estava sozinha, se dirigiu para a sala e seu gato gordo e cinzento miou do sofá para ela quando a viu. Ela o ignorou, havia se esquecido dele. Sua mente estava sempre ocupada. Parou diante da grande porta de vidro para apreciar o por do sol, imaginando se um dia aquela perseguição a abandonaria.
Lá na rua lá em baixo, a metros e mais metros de distância, os carros buzinavam, pessoas conversavam e levavam suas vidas normalmente enquanto ela permanecia ali, trancada, sozinha e com medo.
Ficou observando o sol até ele mergulhar atrás de um prédio à frente e quando as sombras se deitaram em sua sala, vozes desconhecidas começaram novamente a zombar dela. Sem se atrever a olhar pra trás, Anna tomada novamente pelo pânico, abriu a grande porta de vidro. O vento secou sua face suada e brincou com seu fino pijama. Seu gato a espiava curioso em seu sossegado descanso.
Anna então passou uma perna na grade do alpendre, seu estomago revirou quando olhou lá embaixo. As vozes estavam mais perto agora. Oh, não podia suportar mais aquilo, se atirar dali era menos horrível do que continuar a ver aqueles corpos! Lançando um olhar cheio de sofrimento a eles já ao redor dela, se jogou lá embaixo, terminando assim com seu triste tormento.
O gato gordo e cinzento ao vê-la se atirar, fechou os olhos e dormiu. Não havia mais nada interessante para observar agora.

Fim

de Bruno Wolff

sábado, 23 de outubro de 2010

TERROR NA CASA VELHA




Neste conto VOCÊ é o personagem principal.

Feche os olhos e quando abri-los novamente você viverá isso...

Um vento morno de fim de tarde abraça-te e seca o suor em sua testa e na palma das mãos. Um tremor, como se tivesse levando um choque de 60 watts envolve-te inteiramente e uma lagrima foge de suas pálpebras fechadas. Respira fundo tentando se acalmar e desanuviar a mente e ao fazer isso, abre os olhos e se vê diante de uma casa velha, rústica e de aparência abandonada. A simples visão desta casa com duas janelas de madeira fechadas, uma enorme porta de carvalho lhe dá uma enorme vontade de correr, mas você não pode, o grande amor de sua vida se encontra lá dentro e só Deus e as pessoas que habitam lá sabe o que ele está fazendo. Mas você irá descobrir, é por isso que está ai. Você tem duvida, curiosidade e o direito de saber o ele faz na estranha casa da pessoa que você mais detesta e que indiscretamente vive dando em cima da sua paixão, tentando conquista-lo (la) e tê-lo (la). Vários pensamentos absurdos mas coerentes invade sua mente, um deles é ‘ Será que eu o (a) perdi para ele (a)’?
Respirando fundo novamente você olha pros dois da rua que se encontra deserta. Poderia procurar alguém pra entrar ai com você, até mesmo a pessoa que lhe contou que viu seu amor entrar ai, mas isso é da sua conta e de mais ninguém. Portanto vá sozinho (a).
Com passos um tanto vacilantes você se dirige ao portão da casa. Passa pelo caminho cimentado ladeado por um jardim morto e com um anjo de pedra em cada lado. O da esquerda jaz no chão lacrimoso, com uma asa caída, enquanto o da direita com uma expressão sonhadora, eleva as mãos ao céus satisfeito e você se pergunta como se sentirá ao sair dali, como o anjo da esquerda ou direita, alegre ou triste?
Pára diante da gigantesca porta de carvalho, tenta ouvir vozes, mas não houve nada, nada a não ser sua respiração entrecortada e o tambor descompassado que é seu coração parecendo ser a digna musica do medo. O astro rei está prestes a ser engolido pelas montanhas ao longe, isso não melhora nada seu estado de espírito.
A pesada porta se abre com um grunhido parecido sair da garganta do diabo e revela uma sala mofada, cheia de quadros estranhos e moveis rústicos. Você chama os donos da casa, apenas dois nomes, o do pai de seu (sua) rival, que por sinal é o velho mais estranho da cidade que tem fama de ser feiticeiro e o da pessoa que você mais detesta. Ninguém responde, a casa parece dormir o sono da morte de tão silenciosa, mas o silencio modorrento é quebrado com o som de seus passos no chão de madeira. Pof, pof, pof... Algo lhe diz que uma coisa muito estranha está acontecendo ali, a atmosfera da casa denuncia isso. Sua boca está mais seca do que nunca. “ Meu amor está em perigo?”. Segue então por um longo corredor, chamando pelos donos da casa. Passa por portas fechadas com desenhos diabólicos esculpidos na maioria delas e no final do corredor encontra uma porta aberta. A luz do por do sol banha o aposento. Prateleiras cheias de livros indicam que é uma biblioteca. Você analisa-as e lê vários títulos estranhos como “ Demônios”, “ A força dos feitiços”, “ Sangue é vida”, “ Lamia, o Demônio” “ Invocando Demônios” e “ Necronomicon”. Este ultimo você já ouviu falar ou leu sobre, Lovecraft o cita em varias de suas obras. É um livro proibido escrito por um poeta árabe louco. Através dele é possível ressuscitar mortos, invocar demônios, conectar com entidades sobrenaturais, viajar por dimensões desconhecidas dentre outras coisas relacionadas ao oculto. Um livro um tanto maldito e assustador. Por isso sua coragem é enfraquecida e você se dá conta de que não há ninguém ai mesmo,muito menos seu amor. Ele poderia ter entrado ali mais cedo e ido embora rapidamente. Decide ir embora e esclarecer tudo com ele mais tarde.
As sombras começam a se deitar na casa e o silencio ainda paira parecendo retardar um acontecimento terrível. Desviando os olhos dos livros malditos você sai do aposento rapidamente e assim que toma o corredor, já com impulso de correr, mesmo com as pernas bambas, ouve uma voz conhecida chamando seu nome e você pára na hora.
A voz soou abafada, meio lenta. Chama então pelo nome de seu amor e ele responde chamando o seu. Ele está atrás de uma das portas. Mas qual? A voz saiu um tanto substancial, parecia vir de um sonho, ou um pesadelo?
Você então abre a porta mais próxima e mesmo através da quase total escuridão, vê vários frascos de aparência viscosa e nojenta dispostos em prateleiras. Fecha rapidamente a porta tentando não vomitar. Abre outra e se depara com um aposento cheio de pentágonos e objetos de formas estranhas. Fecha-a. Abre outra, esta parece ser um quarto normal, você imagina ser o dormitório da pessoa que você mais detesta. Abre outra e o horror lhe domina por completo. Há um corpo ensangüentado estirado no chão, com o rosto oculto por um pano. Um grito rouco sai de sua garganta. Com passos lentos, você se aproxima do corpo, torcendo para que não seja o do amor de sua vida, Mas acalme-se, não pode ser ele! Você não o ouviu chamar seu nome a pouco?
Um alivio o (a) envolve ao tirar o pano do rosto do cadáver. Este corpo, com o pescoço quase decapitado, sem olhos e com a boca aberta como se gritasse, não é o seu amor e ninguém que conhece. Sai então do aposento e já no corredor chama pelo seu amor desesperadamente, não obtém resposta. Abre outra porta, um quarto normal, com cama, cômoda, tapete... nada de horror e muito menos seu amor.
Sai para o corredor e abre outra e se depara numa cozinha com as paredes manchadas de sangue e aos pés da mesa um outro corpo ensangüentado se debate ao ouvir sua aproximação. Corre para ele e tenta ajuda-lo, mas perdera muito sangue. Talvez não há nada que possa fazer. ‘ Vou sair e pedir ajuda’ diz, mas o corpo ensangüentado segura-te pelo colarinho e diz com grande esforço. ‘ O feiticeiro... incorporarará um demônio... saia, salve-se...” e neste instante o pouco brilho que havia nos olhos da vitima é coberto por uma mortalha, a mortalha da morte.
Sai então correndo dali e cheio(a) de desespero continua a chamar pelo seu amor diversas vezes e milagrosamente obtém resposta, desta vez mais clara. Tenta abrir a ultima porta do corredor mas está trancada. Abre a porta ao lado e finalmente vê o grande amor de sua vida, amarrado numa cadeira, está intacto. Um tanto desesperado.
_ Não acredito que aquele(a) desgraçado(a) fez isso com você. – você grita enquanto desamarra-o - Sei que ele (a) te deseja, mas não precisava te submeter a isso..
_ Não foi ele(a) – diz seu amor com voz fraca quando lhe é tirado um chumaço de pano da boca – Foi o pai dele(a). É um louco, encontrei-o na rua e ele me pediu para ajuda-lo a carregar um móvel da casa, vim na hora. Quando cheguei aqui ele me golpeou por trás e quando acordei me vi amarrado aqui. Logo em seguida ouvi mais vozes, duas pessoas. Ouvi elas gritarem depois e o velho dizia que precisava do sangue delas para invocar um demônio do qual não me lembro o nome. Ele veio aqui depois, coberto de sangue e me disse que eu seria a presa para o demônio assim que ele o incorporasse. Ele vinha me comer.. Mais tarde, ouvi o (a) filho (a) dele chegar em casa.... Eles brigaram muito. O primogênito do velho disse-lhe que iria dar parte a policia , disse que iria embora e que o odiava... Ele então o (a) prendeu num dos quartos e não ouvi mais gritos. Depois ouvi ele entrar num quarto bater e trancar a porta.. Ouvi gemidos e lamurias, e ele meio que cochichava numa língua desconhecida e fazia uns barulhos inumanos. Era horrível de se ouvir e por isso desmaiei. Acordei com você me chamando...
_ Vamos dar o fora daqui e chamar a policia – você se vê dizendo.
Saem então e assim que chagam no corredor, a hora do horror sobrenatural chega.
Um uivo abissal é ouvido e você se dá conta de que vem da porta que estava trancada. Em seguida passos pesados.
_ CORRAAAAAAAAAAA... – você grita.
O corredor se enche com o barulho de passos apressados e quase na metade do corredor, vocês param quando ouvem a porta ser quebrada. Nenhum dos dois se atreve agora a olhar pra trás. O medo os domina, desta vez a tremedeira não está como se tivesse levando um choque de 60 wattz e sim de 120.
POF... O som de uma passada semelhante a um tambor de percussão.
POF...POF... Os passos estão lentos. Uma gota de suor escorre pelo seu rosto. Você olha para o seu amor que está também a tremer e parece estar incapaz de se mexer de tanto medo e fraqueza.
POF...POF...POF... Os passos na madeira aceleram um pouco.
_ Vamos... co..rrer – você consegue dizer numa voz tremula e cheia de pânico.
Começam então a caminhar, sem olhar pra trás. Os pesados passos continuam POF..POF..
Vocês aceleram o passo e a coisa atrás de vocês também. POF..POF..POF...POF...POF
E assim a coisa se aproxima. Seu amor olha pra traz e cai no chão, tentando gritar. Mesmo na escuridão, ao abaixar ao lado de seu amor, sem se atrever a olhar a coisa que se aproxima agora novamente com passos lentos, apesar da quase densa escuridão você vê os cabelos do seu jovem amor totalmente grisalhos. Volta o rosto dele para o seu e o vê num choque tremendo. Sua boca aberta num esgar desesperado, os olhos vítreos e saltados...
A coisa agora para ao lado de vocês. Você espera a qualquer momento ser rasgado(a) por grandes mãos inumanas e em seguida ser envolvido (a) por uma enorme boca cheia de dentes pontiagudos e ser engolido por uma garganta abissal. Mas nada acontece, por enquanto.
O tempo é precioso meu caro (minha cara). Levante esse seu traseiro, tente revidar seu amor e dê o fora daí enquanto lhe é dado tempo.
Com uma forte respiração, você pede ao seu amor para se levantar e não olhar pra trás.
Trêmulos e suados, envoltos por uma escuridão infernal, vocês começam a caminhar se perguntando por que não foram devorados pela coisa ainda. Então, quando estão próximos da sala e da enorme porta aberta, ouvem um urro gutural e a coisa começa a andar vagarosamente e em seguida ouve um abafado grito humano, vindo de uma porta um pouco á frente do qual não experimentara. Há alguém mais ali.
Parados defronte a porta, você se pergunta se deve perder tempo e abri-la . Sua bondade lhe diz para abrir. E ao fazer isso a luz da lua que entra pela janela, ilumina a pessoa que você mais detesta e da qual imaginara que estivesse aproveitando do seu amor, amarrada e amordaçada. A coisa está mais próxima, confiante de que pegará vocês, independente se correr ou não. Pelo barulho dos passos você calcula que a coisa está há uns sete metros de distancia de vocês.

Agora estão ai as escolhas da qual caberá a você se decidir por uma:
1. Manda seu amor correr e pedir ajuda enquanto tenta salvar seu (sua) rival, tendo o risco de ser dominado pela coisa
ou
2. foge com seu amor e deixa a coisa acabar com ele(a). O velho agora está dominado pelo demônio e não excitará em destruir o corpinho suculento de seu primogênito.

Tomada a escolha 1.

_ Corra e peça ajuda – diz ao seu amor – Tentarei salva-lo (a).
Seu amor lhe diz que irá ajudar, mas você sabe que não está em condições pois ele viu a coisa e está mais assustado que você.
_ Você está fraco (a), não conseguirá...VÁ. Tenha certeza de que sairemos ilesos (sas) desta.
Seu amor obedece e você percebe que a coisa parou novamente. Não se atrevendo a olhar pra trás, se dirige correndo ao seu (sua) rival e o (a) desamarra facilmente uma vez que as cordas estão bambas devido ao esforço inútil da vitima escapulir.
Assim que liberta a vitima, ela o abraça e agradece, em seguida olha na direção da porta e solta um urro de pavor. A coisa já estava lá, espreitando vocês na escuridão.
O (a) ex prisioneiro (a) começa a escorregar para o chão, quase perdendo os sentidos mas você dá uma bofetada no rosto dele (dela) para mante-lo (la) sóbrio (a) e acordado (a). Ele (ela) o encara com olhos interrogativos e amedrontados.
_ Comer – diz a coisa na soleira da porta – Quero sangue e carne frescos.
A voz é indescritivelmente horrível, jamais usada nos mais clássicos filmes de terror.
O medo tenta sufocar seus pensamentos, seu corpo quer escorregar para o chão e esperar a coisa acabar com seu (sua) rival pra em seguida dominá-lo (la).
Mas não, sua vontade de viver é maior e quer lutar para isso, se morrer, morrerá tentando sobreviver e não como um (uma) covarde inútil.
Seu (sua) rival te abraça novamente quando a coisa começa a se aproximar. Está bloqueando a porta. O aposento é pequeno, se tentar escapar pelos lados, a coisa os agarrará com seus braços longos e mãos gigantescas. Seu cérebro trabalha a mil, tentando encontrar uma saída. Então ao olhar pra os lados, vê a janela aberta e sem excitar puxa seu rival para ela e o joga pela fenda da salvação. A coisa ainda dirige com passos vagarosos até vocês, ela não tem pressa pois sabe que não adianta correr. Ela começa a rir quando você passa uma perna pela janela, ela ri do seu esforço inútil pela sobrevivência.
Correm então ao redor da casa em direção a rua. Seu (sua) rival grita e chora e agora estando mais claro, você repara os cabelos grisalhos da pessoa que acabou de salvar. Lá dentro a coisa continua a rir, um riso parecendo o barulho da matraca da morte e com aquela voz demoníaca a ela grita:
_ Lhes visitarei em sonhos e neles revelarei como irei apanhá-los. – outra risada abissal – E quando esse dia chegar espero encontra-los com muito medo, pois isso, ah, isso me diverte um tanto! – outra risada abissal e em seguida o silencio.
A rua se encontra deserta e silenciosa, e vocês dois partem, abraçados e mal acreditando que escaparam, por enquanto e apesar do acontecido, você se lembra da expressão dos anjos de pedra e se dá conta de que afinal, como o anjo da direita, a alegria e alivio lhe invadia por inteiro (a).

Tomada a escolha 2.

Você então olha para o rosto de seu (sua) rival. Esta com muito medo e se debate como um peixe fora d’água. Se surpreende ao perceber que não sente dó nenhuma.
_ Vamos dar o fora daqui – diz automaticamente
Correm em direção a grande porta de carvalho e quando chegam na rua, olhando para a casa, ouve os gritos aterrorizados da pobre presa enquanto a coisa inominável se banqueteava dela e quando os gritos cessaram, a coisa, provavelmente com a boca cheia de carne e sangue grita:
- Será uma questão de tempo para pegar vocês, enquanto isso brincarei com vocês em seus sonhos e um dia, um dia irei encontrá-los pessoalmente e quero ver pânico e ouvir gritos desesperados da garganta te vocês.
Partem então pela rua deserta, você com duvida, se perguntando se está se sentindo como o anjo da esquerda ou o da direita, no fundo, a tristeza e a alegria lutam por mais espaço em seu coração.

Pronto, agora você está seguro (a) de frente ao PC da sua casa ou lan, mas pelo menos por enquanto.

“ Quando as sombras se deitarem e o silencio em seu quarto escuro pairar, ele surgirá, o inominável gigantesco ser das profundezas do abismo, e com dentes pontiagudos triturará sua carne e os pedaços rolarão pelo abismo de sua garanta maldita”


Então, diz ai, qual fora sua escolha, opção um ou dois?

de Bruno Wolff

Outubro de 2010

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

OS CRIMES NO SÍTIO







_ Então o senhor confessa ter matado o Sr. Norberto Rodrigues? - perguntou o delegado de policia debruçado sobre sua mesa. Fitava o réu sentado á sua frente com olhos penetrantes e frios. Ao seu lado, um sargento os observava curioso, enquanto uma testemunha tremia da cabeça aos pés.
_ Sim. - respondeu o acusado, que estava algemado. Este vestia uma camisa xadrez rasgada e jeans desbotada, manchados de sangue. Tinha a face coberta por arranhões e hematomas. - Dei dois tiros num lugar bem merecido no infeliz. Mas como já lhe disse senhor delegado: Não teria feito isso se ele não tivesse matado primeiro.
O delegado recostou na cadeira e disse:
_ Assim será mais fácil, uma vez que não nega o crime. Sargento, deixe-nos a sós. Conversarei com a testemunha assim que terminar com ele.
O sargento empertigou-se. Estava estampado em sua cara barbada que queria ouvir todo o relato, pois sabia que houvera sexo antes do crime, o que resultou em mortes. E ele adorava relatos excitantes, mas obedeceu ao delegado, levando a trêmula testemunha consigo.
Assim que a porta se fechou, o delegado cruzou as pernas, apoiou o queixo nas mãos e disse:
_ Conte-me então como foi, Tião. Tudo, até os mínimos detalhes.
O caipira contemplou a janela por alguns segundos. Lá fora a chuva caia torrencialmente.
_ Bem... - começou ele - tudo começou quando o Sr. e a Sra. Rodrigues mudaram para um sitio próximo ao meu há mais ou menos quatro meses - tinha um sotaque típico de caipira Mineiro, - Devo dizer que fiquei feliz pois meus únicos vizinhos nos últimos anos moravam a três quilômetros de distância, ou seja, vivia sozinho e solitário desde que minha querida Madalena falecera há seis anos. Querendo ser solidário e fazer novos amigos, fui até a casa deles e me ofereci a ajudá-los com a mudança. Eles mais que satisfeitos aceitaram, pois tinham apenas um ajudante que era este homem que acabara de sair de sua sala. Enquanto descarregava-mos o caminhão, os Rodrigues se mostraram ser muito divertidos, faziam varias piadinhas maldosas com o preguiçoso motorista do caminhão que sentou-se á sombra de uma mangueira e puxou a palha, com isso rimos muito. Quando acabamos de por a mudança para dentro, eu ainda os ajudei a colocar os móveis no devido lugar, não eram muitos. Eles eram bem simples. Assim que terminamos, levei-os até minha casa e preparei um delicioso jantar do qual o saboreamos ao ar fresco de minha varanda. Conversamos, rimos e nos divertimos. Quiseram mudar pra roça com o intuito de terem paz e sossego uma vez que eram alvos de fofocas e inveja na cidade, como se fossem os únicos e principalmente porque apostaram no plantio para vender. Naquela noite, não pude deixar de notar o olhar penetrante que a Sra., Rodrigues me lançava a todo momento e quando o Sr. Rodrigues e seu empregado não estavam olhando, ela sorria pra mim de um modo um tanto sedutor. Fiquei indiferente a isso, claro, mas não por muito tempo"
"Com o passar dos dias, a Sra. Rodrigues não deixava de ir á minha casa ao menos três vezes por semana, quando seu marido e empregado saiam para trabalhar. Sempre com uma desculpa: levar alguma quitute, pedir algum mantimento emprestado... Ela ia só para me ver. Decidi então um dia lhe dar uma cantada, foi mais ou menos um mês depois que se mudaram. Foi numa bela manha ensolarada, Sr. delegado, onde me encontrava no curral tratando de minhas criações, ah!... os pássaros pareciam estar mais animados para cantar naquele dia, só para dar um clima mais bonito á cena." Difícil entender como uma mulher bonita como a senhora, com essas pernas bem torneadas, esses seios fartos querendo saltar desse seu decote, essa boca sensual...se interessaria por um magricela sem sal como seu marido" disse-lhe eu. Ela ficou satisfeita, nem se importou pelo que disse do seu marido, apenas lançou-me um olhar penetrante e para me provocar lambeu sensualmente os lábios. Não agüentei Sr. delegado, no mesmo instante eu me aproximei dela, envolvi-a com meus braços e dei-lhe um beijo que a fez respirar depois como se todo ar tivesse acabado. Ela me jogou então dentro dum cocho e pulou em cima de mim. Fizemos amor ali mesmo, Sr. delegado no curral, dentro do cocho, ao redor das vacas e cavalos que não faziam nada a não ser nos olhar com seus olhos negros e curiosos."
"A partir de então, quase todas as manhas eram sagradas á nos Sr. delegado. Ela esperava o marido e o empregado saírem para plantar pra em seguida correr para minha casa e assim, se entregar totalmente a mim. Ah, como ela gostava Sr. delegado, como ela gostava! Arranhava minhas costas, elogiava meu corpo que apesar dos 55 anos, se encontra saradão, minha pegada, minha mãos calosas e principalmente meu... Ela me chamava de Tiaozão Sr. delegado, pois sabia que me chamando assim me deixava mais excitado."
Nesse instante ele parou de falar ao encarar o delegado que o fitava com um olhar esbugalhado, a boca entreaberta, numa firme concentração.
_ O que mais ela dizia? - perguntou o delegado engolindo grande golfada de saliva - Quero dizer, - disse ele disfarçando, coçando o nariz e fazendo uma voz mais profissional. - continue, sem intervalos.
O caipira ignorando aquela expressão de excitação do delegado, continuou:
_ Foi bom enquanto durou, Sr. delegado. Até que um dia, tudo foi por água a baixo.
_ E esse dia fora hoje! O dia em que você se tornou assassino. - comentou o delegado agora impassível.
_ Sim. Foi uma loucura. A Sra. Rodrigues fora á minha casa mais cedo hoje, ás seis, sendo que costumava ir às oito devido o marido ter saído mais cedo, queria, segundo ela, terminar uma cerca que ele estava fazendo á uns quinhentos metros de distancia. Ela me chamou pra ir ate a casa dela, pra fazermos amor lá, Sr. delegado. Eu logo disse não, que era arriscado e estaríamos cometendo um pecado maior ainda, imagina só, ela trair o magricela do marido na própria casa! Mas ela contestou e me convenceu ao dizer que achava isso mais excitante. Fomos correndo sob uma fina garoa e nos atiramos na grande cama em que ela e o maridão se deitavam toda noite. Ah! Como fora bom, Sr. delegado, mas nosso ato louco e pecaminoso durou pouco. Quando estávamos chegando ao auge do prazer, a porta do quarto fora aberta de supetão revelando o Sr. Rodrigues. Sua expressão ao nos ver ali fora de profunda surpresa e ódio. No mesmo instante, gritando, ele me agarrou e me tirou de cima da mulher e logo em seguida deu-lhe uma forte bofetada na cara do qual lhe arrancara um dente. Fui pra cima dele pra defender a mulher, mas ele apesar da magreza, tinha uma forte aliada, a agilidade; me golpeou com o pé me jogando contra a parede da qual bati a cabeça. Receio que fiquei inconsciente por alguns segundo pois quando abri os olhos vi dois canos de uma espingarda apontada para minha cara. As portas do guarda-roupas estavam escancaradas, denunciando que ele havia tirado ela dali. A mulher gritava, ainda nua na cama, com a boca cheia de sangue mesclado com o meu sêmen."
_Levante seu monte de merda. E se quiser viver vai fazer o que eu mando - disse-me com uma voz que nem parecia ser a dele de tão grossa. É lógico que obedeci e quando me ergui, tremulo, ele, para minha surpresa me entregou a espingarda após pegar uma 38 do guarda-roupas, que alias merecia ser chamada de guarda-armas e ordenou:
_ Suba na cama.
"Quase não pude obedecer devido a tremura das minhas pernas. Não entendia o porquê me dera, poderia apontar pra ele e dar-lhe um tiro naquele momento, mas temi que a arma estivesse descarregada, sendo assim ele iria rir da minha cara enquanto disparava a poderosa na minha na minha."
_ Esfregue o cano da espingarda no seio da vadia. - ordenou ele.
"A Sra. Rodrigues urrou desesperada. Olhei pra ele indignado ao que na mesma hora ele agitou a 38 para mim ameaçadoramente."
_ Faça o que eu mando ou então farei um furo na sua testa.
"Fiquei um tempo encarando-o, esperando que ele dissesse: 'Brincadeira, você está sonhado!' e parasse com aquilo, mas ele me tirou do devaneio e incredulidade ao meter a coronha da sua arma na minha cara. No mesmo instante, apontei a espingarda para ele. Senti as mãos da Sra. Rodrigues posar frias e tremulas sobre meus ombros como se me incentivasse a atirar. O Sr. Rodrigues riu de se acabar, uma risada louca eu diria, cavernosa e sem emoção.
_ Sua anta. Atira! Acha mesmo que eu iria te dar uma arma carregada? Nãoooooooo. Posso ser bobo a ponto de confiar de mais em minha mulher e num caipira desconhecido como você, mas dar uma arma carregada ao meu inimigo, não, isso não! - e riu - Quero que me obedeça ou então mato os dois. Entenderam?
"Fomos obrigados a assentir."
_ Ótimo - continuou ele, um sorriso diabólico deformava-lhe a face seca. - Esfregue o cano, ou melhor, os canos da arma nos seios da vadia.
_ Meu amor, - começou ela, até então parecia ter perdido a voz de tanto medo - por favor, eu sei que errei e mereço ser castigada, mas não desta maneira. Guarde a arma e vamos conversar..."
_ Cale a boca, cadela - cortou ele - Cale-se pois da sua boca só sai merda, vadia imunda. E você seu ogro peludo, faça o que eu mando, esfregue esse cano nos malditos seios da minha mulher.
"Eu obedeci Sr. delegado. Ela se deitou chorando mais do que nunca e eu esfreguei o cano em seus seios, dos quais estavam molhados de suor e saliva."
_ Aposto que está adorando!Agora meta-o na boca dela. - mandou o chifrudo ensandecido. Eu o encarei novamente a fim de protestar, mas nesse instante ele metera a coronha da arma na minha cara novamente - Faça o que eu mando ou então se juntará a sua velha agora mesmo.
"Novamente e sem nenhum pingo de excitação, eu obedeci. Dava dó Sr. delegado, de ver a Sra. Rodrigues quase se engasgar com aqueles dois canos na boca enquanto as lagrimas escorriam e todo o seu corpo tremia, fazendo as molas da cama gemerem."
- Isso! Olha como a prostitua gosta.- mentiu ele rindo - Agora meta-o lá em baixo. - disse ele se aproximando mais, com olhos esbugalhados e translúcidos - E você sua vaca pode gemer a vontade. Imagine que é ele quem está te possuindo. Esqueça que eu estou aqui e que estão prestes a morrer, caso saiam da linha, claro.
"Nós obedecemos, senhor delegado, ela pelo menos gemeu devido ao choro e humilhação. Minhas mãos tremiam enquanto segurava a ponta da espingarda naquele magnífico local."
_ Está gostando vagabunda? - gritou ele - Tem dois canos penetrando em você, em? Dois canos penetrando em você! Não é excitante ouvir isso? Dá mesma forma que é excitante trair seu marido enquanto ele batalha honestamente para te vestir e te alimentar? Em vagabunda, responda?
"Ele esperou um momento onde a serena chuva era a única a ser ouvia e os lamurientos gemidos da Sra. Rodrigues, em seguida ele riu."
_ Que tal a lição em? Nunca mais vai enganar seu marido, vai? O homem que sempre foi fiel a você; que veio para esse fim de mundo para plantar e colher, pra melhorar nossa situação financeira. Vai respeitar o homem que você jurou fidelidade há seis anos na igreja na frente dos seus pais e amigos? Vai implorar perdão ao homem que lhe provocava arrepios e arrancava gemidos todas às malditas noites? Em vagabunda... RESPONDA!
_ Eu juro que.... - começou ela quase gritando
_ Cale-se. - cortou ele - Eu responderei pra você e a resposta é NÃO, para todas. Não serei mais o bobo da corte.
_ Posso tirar a arma agora? - perguntei humildemente.
_ Saia já daí com isso. - disse ele - Acabarei com isso agora.
_ Por favor - supliquei a ele enquanto atirava a espingarda no chão e corria a vestir minhas roupas - Por favor, me perdoe.. Nos perdoe. Não parei pra pensar no grave erro...
_ Suas palavras são inúteis - respondeu ele - é melhor ficar calado.
"E ao dizer isso se aproximou de mim com passos largos e pesados e fez esse estrago na minha cara". - Ele apontou para a face coberta de hematomas e profundos arranhões.
_ Como pode ser tão pobre de espírito a ponto de enganar um cara que sempre lhe tratou bem? - dizia ele enquanto quebrava minha cara - Como pode fazer isso a um homem que o via como um amigo?
"Então, a Sra. Rodrigues despertou do transe e medo que a paralisava e pulou nas costas do marido e o derrubou, mas o infeliz era ágil como um gato, antes que eu pudesse me erguer e aproveitar a situação para dominá-lo, ele já estava de pé apontando a arma na cara da mulher ao mesmo tempo em que a jogava na cama."
_ Eu te amava - disse ele lamuriento - Eu te amo. Sempre fui um homem bom. Talvez meu erro esteja ai, não é? Ser bom e honesto de mais com você!... Imagina, seu não tivesse vindo agora para pegar alguns pregos, só Deus sabe até quando você continuaria me enganando.
_ Norberto, por favor, - disse eu me erguendo aos poucos - vamos conversar, largue a arma e vamos conversar civilizadamente.
_ Cale-se e sente-se ai, seu ogro sujo.
"Ele então se deitou em cima da mulher e a beijou, senhor delegado, ele ainda a beijou na boca e ela correspondeu. Mas apontava a arma pra cabeça dela. Eu senti que podia fazer algo no momento, mas não me veio nada em mente, o horror e o medo me paralisaram. Vi ele elevar o bumbum pra cima, ainda beijando-a enquanto a mão que segurava a arma decia sorrateiramente para baixo pra se encaixava dentro da vagina da mulher. Ela empurrou-o quando sentiu o cano frio novamente e foi nesse momento que ele atirou, sim, senhor delegado. Ele atirou dentro da genitália dela e creio que a bala foi parar perto da sua goela. O que se sucedera depois foi muito difuso e rápido. Ele se levantou ao mesmo tempo em que me dirigia a ele. Não sei o que pensava naquele momento, vi uma lagrima se desprender de seus olhos, mas nunca saberei se era de remorso de ter atirado na esposa ou por ter sido traído."
"Mergulhei então em cima dele e caímos deitados na cama, em cima da Sra. Rodrigues que por sinal dava seus últimos espasmos. Travamos uma luta ali, nos lambuzando naquele sangue. Por fim consegui tirar a arma dele e logo ordenei que tirasse a roupa, ele implorou, chorou e obedeceu. Mandei-o fazer o que ordenara que eu fizesse com a infeliz e por fim, dei dois tiros no anus do desgraçado, que caiu no chão imóvel. Foi nesse instante que o empregado dele chegou e me viu apontando a arma para o copo do seu patrão no chão. Creio que ouvira o primeiro disparo e correra para ver do que se tratava. Ele gritou ao ver a cena e admiro a coragem dele, apesar de tudo ele voou ate mim e me socou a cara, como se eu precisasse de mais um golpe pra deformar ainda mais meu rosto. Deixei que ele me tomasse a arma e contei pra ele o acontecido enquanto verificava se seus patrões ainda estavam vivos. Não sei se me ouviu. Ele então ligou pra policia da qual não demorara mais que uma hora e meia pra chegar ao local que fica á quinze quilômetros desta cidade."

Ouve um longo e pesado selênico em que nenhum dos dois ouvia sequer a chuva lá fora, pois estavam mergulhados em pensamentos.
_É uma historia e tanto - disse o delegado, por fim - Difícil até de acreditar, pois nunca ouvi algo tão horrendamente semelhante. Dar tiro nas partes íntimas...
_ Ele ia me matar também Sr. delegado - disse o caipira - Matei para me defender. Foi em legitima defesa.
O delegado o estudou por alguns segundos. Não havia mentira no olhar do homem a sua frente. E ele conhecia muito bem quando um criminoso falava a verdade ou não. Afinal, havia mais de dez anos que trabalhava naquela sala.
_ Passará uma temporada preso, meu caro, até tudo ser esclarecido. - disse o delegado se levantando e se dirigindo a ele - Farei investigações, ouvirei a testemunha... Mas sabe de uma coisa? - ele agora estava atrás do caipira - Vamos nos divertir muito enquanto isso, Tiãozão! - terminou ele pousando as mãos nos ombros de Tião.

Fim

de Bruno Wolff

Outubro de 2010

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Historias Fantasticas 2


Este mes faz um ano que mantenho este blog onde divulgo meus escritos,e para minha surpresa, neste mes fui selecionado para participar do segundo volume da antologia Historias Fantasticas. A coleçao conta com quatro volumes e é fruto da parceria entre a organizadora e escritora Georgette Silen, a Cidadela Editorial e o site Estronho e Esquésito. Convido-os a viajarem nas paginas destes livros onde o horror os esperam em cenas macabras, juntamente com criaturas fantasticas do imaginario coletivo.
Conhecam o trabalho de novos escritores brasileiros. Saibam mais sobre a coleçao e os autores participantes e se voce também gosta de escrever e deseja ter um de seus contos publicados, ainda á tempo de participar. Saibam tudo aqui: http://www.estronho.com.br/hf/

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

A ESPOSA MORTA


Nem sempre eles nos deixam...


Diário do Sr. Carlos Rodrigues

Sexta- feira, 8 de Setembro de 2006 - Que dia triste! Acabo de chegar do sepultamento de minha esposa.
Lídia estava tão linda em seu vestido branco. Seus cabelos negros sobre os seios e o rosto bem maquiado. Parecia mais uma noiva do que uma defunta.
Maldito acidente de carro! Porque meu Deus! Porque ela teve que morrer!
Não sei como vou viver daqui pra frente. Céus, como irei me conformar com esse infortúnio! Ontem mesmo ela estava tão bem, alegre e animada e hoje... começa a apodrecer!
...

Sábado, 9 de Setembro de 2006. 3 h da madrugada. - Acabo de acordar suado e ofegante. Não sei se foi pesadelo, fruto de minha imaginação ou se fora mesmo real. Senti uma mão fina alisar meu rosto e ao abrir os olhos, vi de relance um vulto branco desaparecer rapidamente na escuridão do quarto. Deve ser minha mente agitada. Não conseguirei dormir. Vou ficar acordado e afogar-me-ei nas doces lembranças.

Domingo, 10 de setembro de 2006. Manhã. - Domingo! Costumava passar com minha amada nesses dias. Ela gostava de ir ao parque municipal. Como era agradável vê-la rodopiar feliz por entre as flores. Brincava-mos de pique-pega no pequeno bosque. Riamos, conversávamos... Os outros casais observava-nos de seus bancos, creio que tinham inveja pois eles pareciam não ser feliz como nós! Chegava-mos em casa de tardezinha, entravamos pro banheiro e ai começava nosso amor que durava horas e horas...
A campainha tocou!

Tarde.
Minha família almoçou comigo aqui em casa. Tentaram me animar, arrancar-me um sorriso, mas não conseguiram. Creio que jamais voltarei a ser feliz!
Quando foram embora, subi para o meu quarto, apanhei o álbum de fotografias do meu casamento e... ah, a dor que senti fora indescritível. Aquele dia imaginei ser o começo de uma historia de amor sem fim, mas Deus, veja só, não durara três anos!
Aconteceu algo meio estranho, enquanto sentado em minha cama, observava as fotos. Senti ao meu lado o colchão se afundar um pouco e ao olhar vi que havia um buraco nele, como se alguém invisível estivesse sentado ao meu lado, mas isso durou apenas segundos. Emoção, isso fora fruto de minha emoção.
Sinto sono, vou dormir. Amanhã preciso estar com uma cara aparentavel no trabalho.


Sexta feira, 15 de Setembro de 2006. - Acabei de chegar do trabalho.
Fora uma semana difícil. Meu desempenho no trabalho não fora bom. Antes trabalhava animado e satisfeito, pois tinha inúmeros planos traçados para realizar com minha esposa. Viagens, festas, concertos de musica clássica... Era bom trabalhar pensado nisso!
Senti imensa amargura ao chegar em casa e não receber o costumeiro beijo de minha esposa e ser bombardeado com suas perguntas intermináveis sobre o meu dia.
Ah, Lídia. Onde estarás. Será que pode me ver? Me ouvir?
Na quarta feira Pedro,meu colega de trabalho me disse que os mortos nunca nos deixam. Sempre vem nos visitar e até podemos sentir sua presença de varias formas, uma delas é arrepiamo-nos sem motivos. Queria acreditar nisso.

Sábado, 16 de Setembro de 2006. - Acabei de chegar da missa de sétimo dia de Lídia.
Fiquei um pouco melhor depois de ouvir as sabias palavras do padre. Foram reconfortantes, mas creio que logo logo aquele sentimento amargo voltará a me dominar.

Quarta-feira, 20 de Setembro de 2006. - Que dia insuportável. Sai mais cedo do trabalho pois parecia que ia morrer de tristeza. Desde que Lídia se foi, sinto constantemente um aperto no coração como se fosse uma mão de ferro a segurá-lo sem dó. Hoje este aperto está pior.
Vou assistir a alguns filmes pra ver se me distraio e essa dor passa.

Mais tarde.

Tenho certeza. O que ouvi fora real, não fora coisa da minha cabeça.
Assistia o filme do qual Lídia gostava muito. Á uma cena nele que é muito engraçada, sempre que Lídia assistia a esta, ela soltava uma gargalhada gostosa. Pois bem, estava eu deitado no sofá meio que cochilando e de repente despertei ao som de uma risada longa e aguda. Olhei pra tv convicto de que a risada viera de lá, mas não, passava aquela cena que Lídia mais gostava, e nesta cena não havia risadas.
Céus, fora ela. Tenho Certeza. Lembrei-me do que Pedro me dissera. Vejo que ele tem razão!

Terça-feira 26 de setembro de 2006. 4h da manhã. - Há três dias sonho a mesma coisa com Lídia. Nele, estou eu no cemitério diante de seu tumulo e de lá de dentro ouço ela gritar “ Tire-me daqui Carlos! Leve-me com você!” Ponho-me desesperadamente a cavar a terra com as mãos e logo sinto minhas unhas arranharem a tampa da urna. Nesta hora acordo gelado e tremendo.
Ainda estou tremendo e o sono se foi.
Isso não ajuda em nada o meu estado de espírito. Devo tomar alguns remédios para dormir sem ter sonhos.

Sábado, 30 de Setembro de 2006. - São uma da manhã e ponho-me a fazer estas anotações na pracinha deserta do meu bairro. Não voltarei pra casa enquanto não amanhecer e isso se deve pois... céus... não posso acreditar... Há uma hora atrás, com as vistas doendo de tanto ler um romance, fui pro meu quarto e joguei-me na cama, não estava com sono. Deitado de costas, refletia sobre uma certa mudança que resolvi fazer pois vejo que minha vida está muito pacata, e de repente senti um arrepio cobrir meu corpo. Assustado, lembrando-me novamente do que Pedro dissera, corri a acender a luz. O quarto estava quieto e quente. Um pouco mais calmo, voltei a deitar-me. Deixei a luz acesa. Mas aconteceu, ... momentos depois vi a porta do meu guarda-roupas se escancarar repentinamente. Paralisado de medo, vi um vestido vermelho sair voando de lá e ir pousar na minha cama aos meus pés. Era um dos vestidos que mais gostava de ver em Lídia. Em seguida ele se suspendeu e neste momento fechei os olhos e permaneci assim durante longos segundos. Ao abrí-los, vi-o voar ao redor da cama, vindo em minha direção. Estava cheio, como se algum corpo invisível estivesse dentro dele pois havia curvas, o bojo onde deveria estar os seios estava estufado, assim como o bumbum e a cintura estava bem desenhada. Sai correndo, tentando gritar, mas não saiu som algum.
Deveria contar isso a alguém, mas temo me julgarem louco e se eu insistir com isso me internarão num hospital para loucos; ai sim minha vida se transformaria num verdadeiro inferno.

Terça-feira, 10 de Outubro de 2006. – Meu Deus, novamente fui assaltado pelo inexplicável. O que farei? A quem pedirei ajuda? Alguém acreditaria em mim?
Acordei cedo pra ir pro trabalho e enquanto escovava meus dentes, ouvi a porta do banheiro se abrir ás minhas costas. Sobressaltado, olhei no espelho a minha frente e vi a porta se fechar novamente. Não havia vento algum e isso jamais aconteceu. Então uma voz conhecida soou atrás de mim:
_ Meu amor, sua barba está horrível.
Me virei e sai correndo pra rua. Com a boca cheia de creme dental. Decidi não ir trabalhar hoje. Passei a maior parte do dia andando sem rumo, tentando achar uma solução para esses fatos sobrenaturais e agora, sentado á mesa da minha cozinha, me vejo totalmente sem idéias de como enfrentar isso tudo. Ainda não tenho coragem de contar pra ninguém.
obs: Devo mesmo fazer minha barba!


Terça-feira, 24 de Outubro de 2006. - Estou no fundo do poço. Fui despedido do trabalho pois como á dias não durmo, meu desempenho piorou mais ainda.. Quanto aos remédios está fora de cogitação, teria que consultar um medico e acho que não adiantaria. Bebo suco de maracujá toda noite antes de me deitar e é como se eu tomasse água.

Quarta-feira, 8 de Novembro de 2006. – Não sei mais como é ter uma noite bem dormida.
Limito-me a sair na rua somente para comprar o que preciso. As pessoas não param de me olhar e todos que conversam comigo me perguntam se estou doente. É claro que não estou!

Quinta feira, 16 de Novembro de 2006. – Acabei de voltar da casa de meus pais e oh...como eles se assustaram com minha aparência. Há dias não os via. Eles bateram a minha porta várias vezes, mas eu não abri. Não tinha vontade de vê-los, nem eles e nem ninguém.
Minha mãe prometera que amanha irá ao medico pra marcar uma consulta para mim. Vou dizer a ele o que disse para os meus pais, que estou assim pois fui despedido e é claro, principalmente por causa da morte da maldita.

Quarta-feira, 22 de Novembro de 2006. - Fui ao medico hoje cedo. Me receitou alguns remédios dos quais não vou comprar e me pediu para consultar um psicólogo. Este não quero vê-lo nunca.
Ainda não tenho coragem pra contar tudo o que vem me acontecendo. Ontem por exemplo comprei uma revista pornô pra ver se me distraio. Levei-a até o banheiro e na hora me que ia ejacular, a revista pegou fogo. Alguém acreditaria nisso se eu contasse? Claro que não.

Segunda-feira, 27 de Novembro de 2006. – Hoje quando acordei após algumas sagradas horas de sono, deparei com um grande volume ao mau lado na cama. Estava totalmente coberto pela colcha. Levantando-me discretamente puxei a colcha, mas não havia nada. Nada.
Não agüento mais. Meu Deus, me ajude.

Sábado, 2 de dezembro de 2006. – Hoje é meu aniversario e logo de manha já tive surpresas. Acordei com a voz de Lídia cantando parabéns. Irritado, olhando ao redor procurando vê-la, xinguei-a. Gritei perguntando o que ela queria e por quê ainda estava aqui a me atormentar. Não dissera mais nada e nem sequer apareceu para mim.
Minha família apareceu à tarde. Foram embora agora a pouco. Fizeram-me uma festinha surpresa. Tentei parecer normal. Sorri – espero nunca ver as fotos que tiramos, tenho medo do meu sorriso – comemos bolo, cantamos e dançamos.
Ah, se eu pudesse-contar para eles. Se tivesse coragem.

Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2006. - Não agüento mais. Há três dias vejo o espírito de Lídia andando pela casa. Toda desengonçada, arrastando o vestido branco no assoalho. Não conversa comigo, apenas limita-se a me olhar. Cansei de mandá-la embora. Disse que ela está me desgraçando mais ainda e que eu já não a amo mais, pois a temo. Quando disse isso ela se irritou, quebrou vários vasos e desapareceu, mas depois apareceu de novo, com os olhos cheios de lágrimas.



Sexta feira, 25 de dezembro de 2006. 2 h da manhã. – Já sei o que Lídia quer e o porque que ela me atormenta. Ela me quer ao lado dela. Só não sei por que ainda não me disse isso. Vou fazer a sua vontade. Não suportarei viver desta forma mesmo, dormindo pouco, sem emprego pois creio que foi devido a minha aparência que não passei em nenhuma entrevista. Não posso nem arranjar outra mulher. Antes de ontem fui a um cabaré e na hora em que a penetrava esfomeadamente a prostituta, ela me encarou com olhos esbugalhados e disse com a voz de Lídia: “ Carlos, não acredito que você está fazendo isso, pensei que seria fiel”. Sai de cima da mulher gritando, paguei-a e sai correndo deixando-a confusa.
Já preparei tudo. Vou me embebedar e logo em seguida, cortarei meus pulsos. Se não adiantar, tenho uma boa corda na varanda.
Sinto pena da minha família, sei que lerão a isso pois deixarei o diário sobre meu criado mudo, espero que entendam o motivo da minha morte.
Pai, mãe, meus irmãos Claudia e Ricardo, amo todos vocês. Não tenho outra escolha, devo morrer caso contrario o espírito de Lídia me atormentará por toda a vida e me deixará louco. Isso não seria vida.
Espero que as boas lembranças do que vivemos estejam sempre com vocês!


* O diário foi encontrado na manhã de Natal por Dona Joana, mãe de Carlos. Segundo ela ao entrar no quarto do filho pra levá-lo á sua casa, se deparou com o mesmo morto sobre a cama, todo ensangüentado, ao lado jaziam uma garrafa de pinga, uma faca e sobre o corpo uma foto de Lídia.
Dona Joana afirma que quando deu ás costas ao corpo para sair à procura de ajuda, ouviu uma voz atrás de si que dizia. “ Mãe” e ao se virar a pobre senhora vira instantaneamente o espírito do filho ao lado do corpo, de mão dada á Lídia.
Lídia sorria enquanto Carlos, com o rosto serio, derramava uma silenciosa lagrima.

FIM
de Bruno Wolff

terça-feira, 24 de agosto de 2010

PRESENÇA






Medo, perverso companheiro! Penso que ele é como um fantasma e que está sempre por perto, esperando uma oportunidade para se apossar da gente e quando esta surge, num ímpeto de agilidade, prende-nos com seu manto e brinca conosco passando sua mão podre sobre nosso corpo fazendo arrepiarmo-nos; de sua boca abismal, sopra pensamentos que nos cobre de incapacidade e insegurança... Ah... ele me pegou hoje e sinto-o ao meu lado agora fitando-me com olhos ansiosos, esperando por mais uma oportunidade. Posso sentir o roçar de seu manto ao meu redor, sua respiração gelada... Quer espezinhar-me com suas façanhas, mas estou tentando ser forte. Não posso deixar que me possua novamente, pois caso isso aconteça, creio que me levará a loucura e logo em seguida, á morte.

de Bruno Wolff

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

A NOIVA VIRGINAL







AS PALAVRAS TÊM PODER SOBRENATURAL. CUIDADO COM O QUE VOCÊ DIZ!

...

Um Palio preto parara em frente a uma casa azul e de portões de grades amarelas. Eram 11h20min da noite.
_ Posso te pegar amanhã ás oito? – perguntou o jovem ao volante.
_ Claro, meu amor - respondeu a moça, e ao dizer isso beijou-o demoradamente e em seguida abriu a porta do carro para descer, mas o homem segurou-a pelo braço:
_ Espero que amanhã não fique só no jantar! – disse ele serio.
_ Leo, isso que você esta querendo vai acontecer só depois do nosso casamento. Já conversamos várias vezes sobre isto!
_ Mas que merda, Leiliane! – disse o rapaz irritado. – Temos três anos de namoro, estamos noivos e faltam dois meses pra nos casarmos... Não sei por que quer esperar mais..
_ Já está decidido! Você não vai se orgulhar por se casar com uma virgem?
_ Que diferença faz, antes ou depois... O importante é que será minha!
_ Não. Me desculpe. Mas vai ter que esperar. Já esperou três anos, o que são dois meses?
_ MUITA COISA – gritou ele – Sou homem, sacou? Não está sendo fácil... Acho que vou enlouquecer.
_ Tenha paciência! – disse decidida – O sistema em que fui criada consiste nisso: sexo só depois do casamento.Te disse isso logo no inicio do namoro. – E desceu do carro deixando Leu irritadiço.
_Quer saber de uma coisa? – disse Léu saindo do carro. Ela o encarou, os olhos dele estavam chamejantes de raiva, ela nunca os tinha visto assim. – Cansei dessa sua frescura... Em pleno século vinte e um e você com essa idéia maluca de absitencia sexual. Deve estar sedenta de vontade e fica aí passando vontade, provavelmente se satisfazendo com os dedos ou ...
_ Leo, -disse ela espantada - essa foi a coisa mais absurda que jamais ouvi..
_ Absurdo! – disso ele cuspindo saliva – Quer saber o que é absurdo, quer? É VOCÊ FICAR NEGANDO PRAZER AO HOMEM QUE TE AMA.
_ Leo, - disse Leiliane tremula e roxa de raiva – Você não presta. Se me amasse me entenderia e...
– Ah, não vem com ladainha agora não! – disse apontando o dedo na cara dela.
_ Sou uma idiota mesmo! Perder meu tempo com um animal feito você. Ponha esse seu traseiro nesse carro e suma daqui e não volte nunca mais.
_ Como quiser freirinha. Mas vai se arrepender. – disse se dirigindo ao carro, presentes a se explodir de raiva – Tomara que perca a virgindade com o diabo, pra deixar de frescura.
Ligou o carro então e partiu cantando peneu.

Leiliane ficou um tempo para ali sozinha na rua deserta e silenciosa, tonta, tentando digerir tudo o que ouvira. Não conseguia acreditar que terminara um relacionamento com um homem que amava daquela forma, por pura ignorância dele.
Arrasada, arrastou-se cabisbaixa até seu quarto, torcendo para que aquela confusão toda não tivesse acordado seus pais, mas deu sorte, não os vira aquela noite, na verdade, não os vira nunca mais.
Ficara horas chorando no quarto. Cada lagrima que escorria era a lembrança de bons momentos e cada soluço era a dor ao pensar que devido ao fato de Leo não ter conseguido controlar as rédeas da raiva, por conseqüência, perdera-a para sempre. Sim, era o que ela achava, o fio que os unia arrebentara. Teria ela agora que viver, só Deus sabia ate quando, com a inevitável dor e tristeza.
Quando finalmente o cansaço a dominou levando-a a sonolência, seu celular tocou e bocejando, pegou-o e viu que era uma mensagem de Leo que dizia:
“Meu amor, me desculpe. Agi com a cabeça quente. Espero que me dê a chance de me desculpar pessoalmente. Não quero te perder, pois a amo imensamente. Ainda posso te pegar ás oito para APENAS jantarmos e conversarmos? Beijos”
Um imenso sorriso surgiu no rosto de Leiliane após ler a mensagem. “ Ele se arrependeu e quer se desculpar!”. Nem precisou pensar duas vezes para se decidir. Iria perdoá-lo, afinal era a primeira vez que agia daquela forma e o amor que ela sentia por ele era forte o suficiente para esquecer tudo o que ele dissera. “Sempre dizemos coisas impensadas na hora da raiva e nos arrependemos depois!”.
Respondeu então á mensagem com um lacônico ‘SIM’ e pegando uma foto de Leo num porta-retrato sobre a escrivaninha, adormeceu abraçada a ele.


Mergulhada indefesa nos imagináveis e inimagináveis planos dos sonhos, Leiliane se viu num quarto enorme e pouco iluminado. Um vento morno entrava pelas frestas das poucas janelas do aposento e brincavam com os vários véus vermelhos que pendiam do teto. Assustada e ao mesmo tempo curiosa, Leiliane caminhou por entre eles, tentando adivinhar que lugar seria aquele e porque estava ali.
De repente após afastar um dos véus, se deparara com uma cama redonda, de lençóis finos e de um vermelho mias intenso. Ficara um tempo fitando-a, perdida em pensamentos interrogativos.
_ Bonita, não? Maravilhoso ninho de amor. – disse uma voz de repente e ao olhar sobressaltada na direção do som, Leiliane vira uma sombra disforme atrás de um dos véus.
_ Quem é você? – perguntou assustada.
_ Seu desejo reprimido.
Então, a sombra se aproximou de Leiliane revelando quem era.
_ Leo! – disse ela, o coração disparado.
Por um breve momento, os dois fitaram-se sem dizer palavra, estudando um ao outro.
_ Entregue-se a mim. – disse de repente apontando para a cama.
_ Não, Leo... Não posso... - respondeu ela, sentindo uma estranha repulsa por ele.
Lentamente, ele se aproximara dela, fitando-a intensamente, e ela pôde notar agora estando mais perto, a estranheza que havia naquele olhar. Chamas. Os olhos do rapaz pareciam arder em línguas de fogo.
Ela então sentiu que aquele não era realmente o homem que amava, apesar de ser idêntico fisicamente. Tinha um jeito diferente de andar, falar e principalmente olhar. Seus olhos, ah, seu olhos pareciam ser a porta do abismo do prazer, e depois de um tempo em que não conseguia parar de encará-los, sentiu despertar nela desejos sexuais.
Os olhos do homem seduziam-na e agora faziam seus hormônios inflamarem em chamas. Não conseguia parar de encará-los. Não conseguia.
Leiliane então se perdeu naquele olhar, perdeu a consciência de onde estava, do que era e quem era. Sentia apenas um desejo ardente de transar com ele e quando ele a tocou, levando-a pra cama, sentiu que cada célula de seu corpo o desejava ardentemente ainda mais.
Luxuria. Luxuria.
Leiliane sentia alucinada a boca carnuda do jovem beijar seu corpo á cada peça de roupa que lhe era tirada.
Luxuria. Luxuria.
O jovem ordenara que Leiliane o despisse, e ela fez o mesmo, beijando cada parte daquele corpo sarado que a enlouquecia.
Luxuria. Luxuria.
A pele do homem era quente e seu toque agressivo. Causava arrepios por todo corpo da jovem...
Luxuria. Luxuria.
O jovem a posicionava em várias posições, fazendo-a gemer e implorar para que ele a penetrasse, mas ele fazia suspense. Brincava com ela...
Luxuria. Luxuria.
A boca do homem passeava por todo corpo da jovem fazendo-a gritar de prazer quando mordiscava, lambia e chupava suas partes intimas...
Luxuria. Luxuria.
Corpos suados e ofegantes. Os dois agora se tornaram um só. Trocavam arranhões, tapas e mordidas...
Luxuria. Luxuria.
O homem bebia insaciado o sangue que fluía pela vagina da jovem e ela gostava... Luxuria. Luxuria
Pareceram horas de prazer intenso, e quando os dois finalmente juntos, alcançaram o auge do prazer, o horror tomou conta de Leiliane.
Ao abrir os olhos, vira em cima de si um ser monstruoso. Metade homem, metade bode. Leiliane sentiu como se estivesse no inferno e que fora seduzida, enganada e possuída pelo diabo.
O ser demoníaco então sumiu por entre os véus enquanto Leiliane horrorizada, tentava se vestir. Queria esconder seu corpo, protege-lo, como sempre fizera. Mas agora já era tarde demais...

Leiliane acordou assustada e ofegante. Sentia um crescente formigamento na barriga. Mas não se preocupou com isso.
Sentou-se na cama e olhou ao redor. O sol entrava pela janela de seu quarto. Ouvia seus pais conversarem lá da cozinha. Sentiu um imenso alivio ao se dar conta de onde estava. ‘Fora só um pesadelo’, pensara. Aquele ser mefistofélico se passara por Leo e a enfeitiçou, enchera-a de luxuria. Isso era o fastígio do horror, imaginara. Mas fora apenas um maldito pesadelo.
Ao se levantar, ainda tremula, viu o porta-retrato de Leo no chão. Apanhou-o e beijou-o. Depois tonta, foi até sua suíte tomar um banho, pensando no encontro que teria com ele naquela noite. Entregar-se-ia á ele ou esperaria até o casamento? Indagava. Achava a segunda opção ainda mais apropriada.
Abriu o registro de água para encher a banheira e começou a despir-se mas, fora assaltada por um grande choque e horror. Seu corpo todo fora tomado por uma incontrolável tremedeira. Tentou gritar, berrar, urrar, mas não conseguiu.
‘Não pode ser...’
Incapaz de permanecer de pé, caiu no chão.
Tentava convencer seus olhos de que aquelas marcas de mordidas, arranhões, e sua vagina sangrenta, não passavam de mera ilusão. Fechava os olhos e abria-os na esperança de ver que as marcas haviam sumido. Mas continuavam lá.
“– Tomara que perca a virgindade com o diabo...”
Não fora apenas um pesadelo.
Fora uma praga concretizada.
O formigamento na barriga se transformara então numa dor crucial. Perdera completamente as forças. Sentia apenas terríveis dores e contorções na barriga. Sua visão ficara escura.
Desespero. Lagrimas. Dor...
Perdera a consciência....
E os minutos se arrastaram...

Leiliane abriu os olhos, sua visão estava um pouco distorcida. Sentia-se confusa e mais fraca do que nunca. As dores na barriga cessaram, mas foram se concentrar na vagina da mulher.
Se deu conta de que estava molhada. Tentou se mexer, querendo se levantar, mas conseguiu movimentar apenas sua cabeça pro lado esquerdo e com isso viu a pia, a banheira transbordando água e o chão molhado tingido de vermelho. Sangrava.
Respirando fundo tentando se acalmar, fechara os olhos e buscou forças para conseguir chamar seus pais, mas não conseguira pronunciar qualquer ruído.
Procurou não pensar na situação em que se encontrava. Logo recobraria as forças e... E o que? O que poderia quer fazer depois que descobrira que perdera a virgindade com o diabo?
Então, Leiliane ouviu um grunhido medonho jamais pronunciado nos mais tenebrosos filmes de terror e ao abrir os olhos, se deparou com uma criatura de uns quarenta centímetros que se desenvolvia diante de si. Tinha da cintura pra baixo corpo de bebê musculoso e da cintura pra cima, era coberto por uma pelagem escura e animalesca. Possuía patas ao invés de pés e suas pequeninas mãos mais pareciam uma arma com aquelas unhas grandes e de aparência afiada, e no topo do pescoço fino, uma pequenina cabeça de bode a fitava com olhos odiosos.
Uma confusão de sentimentos a envolvera deixando-a ainda mais tonta e vulnerável: medo, repulsa, horror, choque... Virou a cabeça lentamente para não ter que olhar aquele monstro que crescia diante de seus olhos, mas ele, com um baixo grunhido abissal, se prostrara sobre ela e com pequeninos dentes pontiagudos, pôs-se a chupar os mamilos da mãe que de tanto nojo, morria asfixiada com seu próprio vômito.

FIM


de Bruno Wolff

sábado, 5 de junho de 2010

O CHEIO DE LÁGRIMAS





_ Me enganou! Como pude ser tão cego? Cara de anjo, mas coração de Lilith...
Durante horas, naquela noite fresca de lua minguante, o palhaço Tedy permanecera encolhido aos pés de uma árvore morta num bosque sombrio ao redor da cidade de Iguatama onde o circo se instalara. O medo ali não o perturbava, nem mesmo quando ouvia barulhos estranhos ao seu redor, vindo de trás dos arbustos e das altas árvores. Ele apenas se lamentava pela cena que vira horas antes, ao terminar seu espetáculo no circo: Ele com o coração leve, apaixonado e inocente se dirigira para o trailer de sua amada Paty - a mais talentosa acrobata do circo - levando consigo uma rosa para expressar um pouco do seu amor, mas quando chegou próximo ao trailer ouviu vozes e discretamente olhou pela janela e o que viu fez com que o brilho de seus olhos fossem cobertos por uma mortalha de tristeza, viu Paty ser acariciada por Chacal, o novato estranho atirador de facas, e ouvira-a dizer que iria embora com ele, com isso Chacal a envolveu em seus braços e quando pousou sua cabeça no ombro dela, ele olhou na direção da janela e viu Tedy, e este abaixando-se, correu para seu trailer, despedaçando a rosa da mesma forma que se encontrava seu coração e odiando a idéia de que aquele sorriso triunfante e zombeteiro que acabara de ver da face perniciosa de Chacal por cima dos ombros de Paty, jamais se apagaria de sua mente.

Agora ali no escuro, tomado pela confusão, com a maquilagem borrada pelas lágrimas - acentuando ainda mais sua expressão de tristeza - , tentava decidir o que fazer dali pra frente.
Como em todos os momentos de decisões de sua vida, aquelas duas vozes o bombardeava mentalmente com idéias de como enfrentar tal situação.
Uma voz fria o aconselhava a voltar para o circo e matá-los, picá-los em pedacinhos e dar para os leões famintos nas jaulas, por outro lado uma voz doce lhe dizia para não fazer aquilo, dizia para que voltasse e conversasse com ela.
Estava dividido. Queria fazer as duas coisas. Não poderia matá-la, pois a amava tanto que chegava até a doer. Queria apagar qualquer sorrisinho gozador de Chacal, mas teria ele chances contra um forte e habilidoso atirador de facas? Matá-los não seria tão fácil assim. Por outro lado achava dolorosamente humilhante resolver aquela situação numa boa.
_ Mate-se então, termine com essa dor agora. Pegue esta lâmina e se rasgue. – aconselhou a voz fria em sua mente.
Ele então levou a mão ao bolso, e sentiu a lamina que pegara em seu trailer. Tirou-a e contemplou o brilho tênue da lua que se refletia nela.
‘Sim, vou acabar com essa dor.’ Pensou.
_ Não. Não desista. Essa tempestade vai passar. Volte e resolva tudo numa boa. – irrompeu aquela voz doce.
‘Será?’ Pensou guardando a lamina.

Mas a dor em seu peito era insuportável.Por mais que tentasse não conseguia se conformar com a idéia de viver sem a sua acrobata. Todos aqueles anos felizes juntos, as noites de amor, - como a de ontem ali - os planos de se casarem, de terem filhos, toda aquela historia de amor... Não... Tudo aquilo não poderia terminar assim tão humilhantemente. ‘Aquele homem de feições duras certamente lançara nela um feitiço fortíssimo a ponto de fazê-la esquecer todas as promessas e se entregar a ele assim. É isso?’ Argumentara.
_ A resposta é tão simples e clara meu caro. – respondeu a voz fria – Ele simplesmente é melhor que você. E se há algum feitiço lançado, fora o de seu charme e beleza.
_Não... Por quê isso! – gemeu Tedy jogando as mãos no rosto.
A dor, desespero, amargura, solidão então o dominaram e ele chegara a um estado beirando a loucura. Estava entorpecido. Entorpecido de tristeza e ódio.
_ Tedy, Deus jamais permitirá que você carregue uma cruz que você não pode suportar. – a voz doce soou ainda mais divina em sua mente. – A vida humana é cheia de problemas, dificuldades..., você bem sabe disso, você tem que buscar forças. Deixe a luz divina penetrar em você para que tenha paciência e sabedoria para lidar com tais problemas, assim tudo se resolverá. Permita que Deus haja em você agora. Abra seu coração.
O vento soprou forte sobre ele, secando assim as lágrimas entre seus dedos.
Ainda estava indeciso. O sorriso maléfico de Chacal pairava em sua frente como um maldito retrato, estando ele de olhos abertos ou fechados.
Então aquela voz doce começou a cantar em línguas na mente de Tedy, confortando e aquecendo seu coração. Não entendia nada, mas aquela canção estava tendo o poder de podar as raízes de infelicidade em seu coração. Era maravilhoso. Simplesmente divino.
O vento tornou a soprar impetuoso e desta vez veio com ele um barulho de patas pisoteando a grama ao redor, o que fez com que Tedy se desentediasse da bela canção, tirando toda a sua atenção. Tirou as mãos do rosto e olhou ao redor, seus olhos lacrimejantes cresceram e seu coração disparou ao contemplar um ser trajando luto montado num cavalo vermelho de olhos chamejantes.
_ Como diz aquela mùsica ‘... guarde os pulsos pro final, saída de emergência... ’. Esta sim é uma saída de emergência. Liberte-se.
Aquela voz! Aquela criatura era dona daquela voz fria!
_ Venha! – continuou – Cavalgaremos até um lugar em quem esta dor já não mais será tão grande.
Tedy fitando extasiado aquela criatura se lembrou de uma frase ‘ Pra tudo á uma solução’ Seus olhos brilharam. Aquele ser era a solução?!
_ A lamina Tedy. Ela é chave para abrir os cadeados dessa corrente que lhe prende á dor.
Tedy tirou-a novamente do bolso e olhou-a mais uma vez.
_ Vamos. – disse o cavaleiro negro – Ou quer passar a vida toda chorando por ter sido traído?
Tedy então buscou com o olhar os olhos do estranho, queria ver ali um olhar de aprovação, mas não o viu devido ao capuz negro que escondia as faces do homem.
Suspirou então, beijou a lamina e depois abaixou-a para que deslizasse sobre seu pulso, mas naquele momento a clareira fora envolvida por uma luz incomum. Ted olhou e boquiabriu-se, seus olhos se encheram de luminosidade ao contemplar um ser divino, brilhante, de face serena, tez rosada e compridos cachos louros dourados.
O cavalo infernal relinchou nervoso enquanto tomava distancia daquele ser e sua luminosidade, enquanto o cavaleiro negro praguejava-o.
_ O que esta fazendo Teodoro. Pare e pense. – disse o anjo cintilante, dono daquela voz doce. Tedy encarava-o com uma sensação de que já o conhecia há anos apesar de nunca tê-lo visto, apenas sentido sua presença constantemente.
_ Não posso suportar a idéia de viver sem a Paty.- choramingou ele. – Não posso suportar a idéia de perdê-la assim.
_ Um dia ela enxergará o erro que está cometendo, Tedy...
_Tedy. – chamou o cavaleiro negro oculto nas sombras.. – Venha comigo. Você está precisando de diversão. Não quer se divertir um pouco? Levarei você a um lugar onde a bebida é gratuita e as mais belas mulheres são fáceis e experientes, você só precisa usar a lamina.
_ Não - insistiu o anjo rapidamente ao observá-lo manusear a lamina – Jesus te dá poder pra pisar em cobras e escorpiões,sem sofrer nenhum mal. Lute, vença a força do inimigo. Você pode. Tedy, não o deixe contaminar-te com sua maldade. Segure minha mão. Vamos passar por este vale de lagrimas juntos.

Tedy então suspirou fundo, tentou enxergar o cavaleiro negro e nem se espantou quando viu duas esferas vermelhas emergindo do capuz, depois fechou os olhos e viu o sorriso zombeteiro de Chacal, viu Paty envolvida naqueles braços fortes novamente... Não podia suportar. Não queria... Sem prestar atenção nas palavras do anjo que dizia que se ele fizesse aquilo perderia sua alma, deslizou a lamina sobre seu pulso. Enquanto seu sangue desaguava silenciosamente como as águas do Rio São Francisco próximo dali, rostos conhecidos passavam em lampejos á sua frente, todas aquelas pessoas que Tedy gostava, seus amigos, família... Ele os tinha... Eles precisavam dele e ele deles. Vislumbrava como em cena de um filme antigo, vários momentos bons que vivera com eles, e ali imponente, enquanto os minutos se arrastavam ele percebia a louca escolha que havia feito.

Abriu então os olhos e olhou arrependido para o anjo que o fitava com aqueles belos olhos claros que refletia nitidamente todo seu lamento e tristeza, depois o ser divino ajoelhou diante dele, desconsolado, com imensa pena daquela criatura fraca.
Tedy abriu a boca num esgar desesperado para gritar por ajuda, mas não conseguiu. Já se sentia fraco, trêmulo e incapaz de se levantar. O cavaleiro negro vendo todo aquele esforço inútil riu friamente.
_ Tolo.
Tedy olhou suplicante para seu anjo que chorava, mas este já não podia ajudá-lo. Tedy fizera sua escolha.
_ Estúpido. Sua alma agora me pertence. - disse o cavaleiro negro enquanto desmontava do cavalo. – Gosta de calor? Sinceramente espero que não.
Dizendo isso, com um gesto de mão, fez com que aparecesse ao lado de Tedy um enorme abismo negro de onde escapavam gritos e lamentos desesperados. Depois, se dirigindo ao palhaço – evitando ao máximo para que ao menos a luz do anjo não chegasse a seus olhos - agarrara-o bruscamente e arrastou-o para o abismo. Tedy tentou fugir daquelas garras quentes e malignas, mas não conseguiu. Clamou pelo anjo, mas quando se virara para ele ficou paralisado de horror, viu seu corpo ensangüentado e o anjo prostrado diante dele, com as mãos cobrindo o rosto, cheio de lagrimas que fugiam por entre seus dedos nobres. Esta fora a última cena que Tedy vira na terra antes que o abismo se fechasse completamente, engolindo seu espírito.

O demônio partiu satisfeito á procura de uma nova vitima, com seu cavalo cor de fogo relinchando e empinando e o anjo cintilante lançando um último olhar lacrimoso no rosto daquele cadáver, desapareceu desconsolado, levando no peito a tristeza de saber que o espírito de seu protegido partira para um lugar de trevas onde o sofrimento e o choro jamais cessavam.
Mas não abandonaria aquele corpo ainda. Providenciaria para que não apodrecesse ali.

***

_ Teodoro? Onde você está?
Uma mulher vestida com roupas finas e apertadas procurava ansiosa por uma grande árvore morta num bosque perto das margens do Rio São Francisco. Sua lanterna tremia em sua mão, enquanto apontava-a apressadamente em todas as direções.
_Teodoro? Eu sinto que você esta aqui. Vim conversar...
De súbito lembrou-se da direção em que ficava a árvore morta e se dirigiu para a direção oposta. De repente iluminou um tronco seco e ela teve certeza de que era a árvore que procurava. A árvore onde suas raízes fora há um dia antes, o ninho de amor entre ela e o homem que procurava. Descendo a luz da lanterna pelo tronco sem vida, ela viu um rosto pintado e rapidamente desligou a lanterna, ficando na penumbra.
_ Ai que bom que te encontrei Teodoro, senti que estava aqui... Tenho algo há lhe confessar. Cometi um grande erro. Mas agora consegui enxergá-lo ates que se tornasse pior e imperdoável... Me sinto tão envergonhada e suja. - Ela suspirou profundamente e torcendo as mãos nervosas continuou. – Mas antes de me confessar, quero que saiba que o amo muito e que conhecê-lo foi a melhor coisa que me aconteceu...
Por um momento, ela esperou ansiosa por alguma pergunta, uma indignação, um suspiro, um movimento, ... droga, um sinal de vida. Mas nada. Acendeu então a lanterna e iluminou o rosto. Reparou então que estava manchado de lagrimas e mantinha os olhos abertos e parados, indiferente com a luz. Estremeceu quando olhou sua boca semi-aberta, imóvel. Depois, lentamente, desceu a luz da lanterna pelo seu corpo enquanto sua boca se formava num grande e perfeito O.
_ TEEEDY....Urrou ela num misto de horror e desespero enquanto seus olhos esbugalhados via a lamina, o profundo corte e aquela roupa colorida encharcada de um líquido escarlate.

Fim.

de Bruno Wolff

sábado, 8 de maio de 2010

A VINGANÇA DO ORC




Em tempos imemoráveis, quando o sol ainda era jovem e seres humanos caminhavam no mesmo solo que extraordinárias criaturas bélicas e seres repugnantes,o rei Kram, que governava a bela região de Clamor, soube que um bando de orcs habitou uma montanha próxima ás suas terras. Contrariado, achando que aquelas criaturas enrugadas, esverdeadas e de um aspecto brutal pudessem destruir a paz e a beleza daquela região, preparou seus soldados e ordenou-lhes que invadissem aquela área na calada da noite e destruíssem todos eles. Muitos orcs foram aniquilados, e alguns mais espertos que não agüentaram mais lutar, fingiram-se de mortos e fugiram após a luta, mas destes poucos sobreviveram depois.
Krukz, o orc-chefe fora um dos sobreviventes, mesmo tendo vários ferimentos profundos. Este, enquanto fugia sozinho após a batalha, não conseguia entender o motivo daquela matança, pois os orcs de sua espécie eram conhecidos como ‘benignos’, sendo tranqüilos e inteligentes. Era verdade que tinham um aspecto bruto e maligno, mas eram muito sossegados e dificilmente se envolviam em conflitos com humanos. Eram extremamente diferentes das outras raças que matavam humanos por pura diversão.
Temendo que os soldados fossem caçar os que fugiram, Krukz fora se esconder numa caverna da montanha mais alta, onde humano nenhum poderia chegar, há milhas e milhas de distância das terras do rei Kram. Mas lá enquanto se recompunha dos ferimentos, um sentimento quase nunca explorado por ele e sua raça começou a dominá-lo. O ódio. Sentia sede de vingança. Tinha que se vingar do rei, pelos seus mortos, pelo sossego que já não tinha e pela amarga solidão que o acompanhava desde a matança.
Então, dias depois, quando se sentia forte e capaz, saíra pela primeira vez da caverna, para saciar-se da vingança. Iria ao menos matar alguém que faria o rei sentir o gosto amargo da perda.
Oculto na floresta na orla do castelo, Krukz passara dias observando e descobrira que o rei tinha uma linda filha chamada Nija e que estava prestes a se casar com um dos soldados, um dos malditos que destruira a vida de muitos da sua raça. Decidira então acabar com ela, mas precisava contar com a propícia oportunidade, não teria pressa.


Então numa fria e calma noite em que o orc dormia dentro de um tronco oco de uma árvore, algo o fez despertar. Eram vozes e risadas, estavam vindo de muito perto. Saindo então calma e silenciosamente de seu esconderijo, Krukz fora observar e mal acreditou quando viu por detrás de um arbusto a filha do rei numa pequena clareira deitada com seu amado. Riam e conversavam satisfeitos. Os olhos do orc brilharam como nunca, um brilho frio e malévolo.
Estava ali a oportunidade que esperava. Poderia matar os dois, despedaça-los e lanças suas cabeças numa das janelas do castelo. Que vingança deliciosa!
Ele ficara um tempo pensando em como agiria enquanto observava os dois se acariciarem e trocarem doces palavras de amor. Decidira então invadir de uma vez, sair correndo em direção a eles e esganá-los até a morte. Pegá-los-ia de surpresa, assim como o pai dela ordenara que fizessem com seu clã.
Então, quando se aprumou para atacá-los escutara algo de Nija que o fez mudar de plano. Ela dissera a seu amado que estava grávida, que sentia já um pequeno ser sendo gerado dentro dela. O soldado dissera algo sobre o rei se espantar com a gravidez antes da cerimônia de união, mas depois ele chorou satisfeito, os dois choraram emocionados e o orc sorriu pois viu que sua vingança não seria tão simples como supunha...


Nija então chamou seu amado pra irem embora. O orc ficou ansioso e excitado, perderia a chance? Nunca.
Enquanto os dois se levantavam, o orc pôs seu novo plano em ação; atirara uma pedra na cabeça do soldado afundando-a em seu crânio,e este caiu na hora, morto. Nija, assustada e chocada, ajoelhara ao seu lado e gritava por seu nome ‘Haggard, Haggard’, enquanto tentava enxergar na penumbra o autor daquilo. O orc então saiu de trás dos arbustos e correu em direção a Nija e esta quando o viu soltara um urro de medo e desmaiara de horror.
O orc sorriu novamente ao contemplar os dois ali; o soldado com uma cratera na cabeça e Nija profundamente desmaiada com uma expressão congelada de medo.
Percebendo que não poderia perder tempo por causa dos gritos de Nija, rasgara então a camisa do soldado e com a unha grande e afiada escrevera no peito dele:
“ Maldito rei Kram, tirara injustamente tudo de mim, por isso tirarei de você sua jóia mais preciosa, sua filha e o filho de Haggard que ela espera. Torço para que a tristeza o abrace, e que a agonia seja sua companheira dia e noite...Tenha certeza de que uma nova raça de orcs nascerá.... Krukz, orc-chefe”
Quando terminou de escrever, Krukz pegara delicadamente Nija e a pusera no ombro e partira o mais rápido possível pra caverna no alto da montanha enquanto ao longe ouvia pessoas que se aproximavam da clareira.
Então, naquela mesma noite, o rei, ao saber do grande infortúnio que lhe atingira, convocou todos os seus súditos e ordenou-lhes que os encontrassem, mandara também pedir ajuda aos reinos vizinhos na busca, deixando bem claro que trouxessem o orc vivo. Iria com suas próprias mãos castiga-lo com uma morte lenta e dolorosa. Mas todos seus esforços foram em vão.


Na medida em que o tempo ia passando, o rei com sua contínua angustia ia ficando cada vez mais doente e inconsolável e várias primaveras depois que tivera sua filha seqüestrada, os soldados finalmente a encontraram próximo ao portão do castelo, mas sem vida. Fora depositada ali durante a noite discretamente. O rei ao contemplá-la, mal pôde acreditar que aquela era sua Nija. Encontrava-se totalmente desprovida de sua beleza, ferida, suja e desgraçadamente morta, e como se não bastasse o rei fora tomado por uma terrível depressão por não ter absoluta certeza se ela ao menos dera luz ao filho de Haggard. Jamais esquecera ou descartara o que viu escrito na pele daquele pobre infeliz soldado.
Cheio de ódio e tristeza, o rei intensificara ainda mais as buscas, pedindo ajuda a outros reinos distantes, mas novamente frustrou-se com o fracasso.
Tempos depois, o rei que já não cabia em si de tristeza pra não falar da doença, morrera de choque e horror ao ler o que fora escrito na pele de três soldados que foram encontrados mortos na floreta. Com letras escarranchadas escritas á unha pelo próprio orc vingador, ele lera que durante o tempo em que Nija estivera em suas mãos, ele reencontrara os orcs de sua espécie que haviam sobrevivido ao ataque e que ela dera a luz a um menino, Drup, filho segundo ela de Haggard; e que depois deste, sendo estrupada por diversas vezes por Krukz, dera luz a mais três filhos semi-humanos, mestiços. Krukz garantira que criaria o neto do rei como um filho e confessou que mal podia esperar o dia em que seus quatros filhos lhes dessem netos, aumentando assim uma nova raça de orcs.

Fim
de Bruno Wolff

segunda-feira, 5 de abril de 2010

PASSEIO NOTURNO




1.

Anne ficara um bom tempo naquela noite fria diante do portão do cemitério esperando o vigia apagar as luzes do barraco no fundo e ir dormir. Ela sabia que ele não ficaria a noite toda vigiando aquele lugar calmo e silencioso e quando finalmente as luzes foram apagadas ela pulou o portão.
Enquanto caminhava devagar, arrastando a barra do seu vestido negro no chão, pisoteando gravetos secos entre túmulos e anjos tristes de pedra, ela tentava se explicar como estava tendo coragem para fazer aquilo, pois detestava aquele lugar e a primeira vez que estivera ali fora há duas semanas antes, ‘no enterro de Dick’. Só o que sabia era que sentia uma necessidade enorme de estar diante do tumulo dele. Acreditava que talvez aquele sofrimento lacerante que a dominava, se amenizasse e quem sabe até se sentiria mais próxima dele?!
Ela realmente precisava estar ali, naquela hora.

Lágrimas silenciosas rolaram de sua face quando, á luz do luar, contemplou a foto de seu amor sobre seu tumulo. A dor era profunda e amarga. Oh Deus, não conseguia absorver aquele infortunado fato de que aquele rapaz que via na foto, de olhar sapeca, rosto rosado e cabelos lisos e negros jazia ali, sem vida, se decompondo preguiçosamente.
A dor a desfragmentava ainda mais quando pensava que se estivesse estado lá na fazenda no dia do incêndio, poderia ter o salvado. Sentia-se culpada por isso. Naquele dia apenas Anita, a irmã de Anne se encontrava lá com ele, e Anita com um olhar vago e distante dissera que só foi se dar conta do incêndio quando ele já tinha terminado de destruir o paiol e fritado seu cunhado. Era horrível não saber a verdadeira causa do incêndio. A perícia tomando nota de que Dick fumava, apenas palpitou que a causa do fogo fora a ponta de cigarro que Dick distraidamente, poderia ter jogado perto dos galões de gasolina que se encontravam no local, causando assim uma explosão. E o caso fora encerrado.
Oh, como sofria por pensar que não o teria mais; que não veria mais aqueles olhos vívidos; nem seria mais abraçada por aqueles braços fortes e jamais seria afagada por aquelas mãos calosas de agricultor...
_ Depois que você se foi, - disse ela baixinho com a voz embargada - uma tempestade tomou conta do meu coração, destruindo o jardim que existia nele. Agora só existem lama e rosas mortas, sem vida.
As lágrimas continuavam a cair.
Uma coruja crocitou numa das árvores secas do local.
“As lembranças aliviam a dor por dentro”, pensando isso, Anne sentou-se diante daquela foto e viajou ao tempo lembrando-se dos doces momentos que vivera com ele e com isso sem que ela percebesse, o sono foi chegando e quando recostou sua cabeça sobre o tumulo, já estava dormindo.

2.

Estava num lugar verde e maravilhoso.
O sol brilhava graciosamente. Os pássaros nas árvores cantavam alegres. Vários animais selvagens se faziam ouvir.
Num morro daquele vasto paraíso maravilhoso, Anne subia apressada. Seu vestido branco e seus cabelos cor de fogo esvoaçavam delicadamente. Sorria triunfante e seus olhos brilhavam como diamantes. O motivo disso tudo era porque Dick, todo vestido de branco ao lado de um belo cavalo, á esperava no topo do morro.
Somente aquela exuberante natureza que os rodeava pudera presenciar aquele encontro: aquele abraço de urso, beijos ardentes, risos alegres, olhares apaixonados...
_ Não suportava mais ficar longe de você. – disse Anne fitando extasiada aquele rosto alegre e perfeito, sem nenhum vestígio do incêndio.
Dick a contemplava serenamente; pegou-a no colo e a montou no cavalo e juntos cavalgaram por entre morros, campos multicoloridos, bosques e animais selvagens.
Tempo depois, que pareceu a Anne segundos, – as horas ao lado dele parecia não existir - pararam ás margens de uma cascata. Ali deitados na relva verde á sombra das árvores eles conversaram e namoraram.
_ Por favor, me prometa, – dissera Anne momentos depois contemplando-o séria – me prometa que jamais iremos nos separar novamente.
Então Anne viu surgir uma sombra obscura nos olhos de Dick antes dele abaixar a cabeça. Anne indagou e ele apenas dissera com uma voz quase desesperada:
_ Venha. Já esta na hora... Quero lhe mostrar uma coisa.
Eles então se levantaram e Dick, segurando-a pela mão, a levou para o rio, em direção a cascata. Anne não entendia nada e quando viu que iam atravessá-la, fechou os olhos e ficou imaginando o que poderia ter do outro lado.

3.

Mas não era caverna e nem rochas que ela pensou que iria ver. Ao atravessarem, Anne se viu dentro do paiol da fazenda. Estava agora como era antes do incêndio.
Olhou indignada para Dick ao seu lado, mas quando o fitou, sentiu como se uma espada transpassasse seu coração partindo-o ao meio. Dick estava totalmente deformado e irreconhecível, da mesma forma que o encontraram ali após o incêndio.
_ Preciso que veja como acontecera. – disse ele com uma voz gutural e em seguida a porta do paiol se abrira e por ela entrara um outro Dick fumando um cigarro tranquilamente. Aquele estava intacto.
Anne chamou-o e correu até ele, mas ele não respondera e ela apenas o atravessou quando quis abraçá-lo. Então, enquanto o observava se sentar numa lata no fundo do paiol e pegar umas espigas de milho para descascar, ela compreendeu que estava num sonho, vendo um passado e que ali era menos que um fantasma.
De súbito então a porta do paiol se abriu e por ela entrou Anita, a irmã de Anne. Anita, remexendo sensualmente os quadris de uma maneira que Anne jamais vira , passou por ela sem a notar e se sentou no chão, diante de Dick. Ela então começara a se assanhar para ele dizendo coisas para deixá-lo louco de tesão. Implorava para que ele a possuísse. Ele a ignorava até mesmo com o olhar, dizia que não a queria, que amava Anne e jamais teria coragem de traí-la.
Anita então ofegante e agitada, decidida a tê-lo, tirara a roupa ali, ficando completamente nua.
_ Me possua – dizia ela esfregando os seios e estalando os lábios – Entre em mim, quero sentir o calor do seu corpo sobre o meu.
Mas nada disso adiantou. Dick lutava com êxito para não olha-la. Ela sentindo-se fracassada e rejeitada começou a xingá-lo.
_ Você é a coisa mais baixa que existe sobre a terra – dissera Dick concentrado nas espigas – Como pode ser tão cínica? Na frente de sua mãe e irmã você se faz de santa e basta elas virarem as costas pra você se transformar num demônio. Diz que vai á igreja mas vai e pra safadagem, pensa que eu não sei? E pode crer que não continuarei a ser o único aqui a saber...
_ Por quê? Vai abrir o bico? Isso não é da sua conta...
_ Decerto que não é, mas não se pode esconder algo pra sempre. Tenho pena de sua mãe por ter tido uma filha como você, mentirosa, misteriosa e cínica... Ela não merece...
Aquilo pra Anita fora demais, ela desnorteada e começando a sentir vergonha pegara de súbito um cabo de enxada e se pôs a golpeá-lo, sem dó. Seus seios brancos balançavam freneticamente enquanto o atacava e ele surpreso, não conseguiu reagir. Só parou quando o pobre caiu entre os milhos, desmaiado.
Durante aquela cena Anne ao redor tentava impedir. Gritava e implorava para que Anita parasse, mas nada adiantava, estava assistindo a uma cena do passado e em nada podia interferir.
Anita então respirando ofegante , com os olhos desvairados, pegara um dos galões de gasolina e o espalhou sobre ele. Vestiu as roupas e em seguida acendendo um dos fósforos de Dick atirou sobre ele dizendo:
_ Vai aprender a respeitar uma vagabunda seu frouxo.
_NÃO.... – Gritava Anne desesperada.
Anita então saíra rindo, um riso sem graça, mas triunfante de uma mulher que acabara de se vingar por ter sido rejeitada.
A cena então começou a ficar desfocada, distorcida. A última coisa que Anne vira eram as chamas esfomeadas consumir o grande amor de sua vida. Ela então desmaiou e quando acordou, viu novamente Dick intacto, de olhar triste e sereno ao lado dela. Não estavam mais naquele lugar em chamas, mas novamente nas margens da cachoeira.
_ Como ela pôde? – disse Anne abraçando-o – Jamais suspeitei que Anita fosse capaz de tudo isso. Ela ainda continua a se fingir de santa. Nem mostra sinais de arrependimento Dick, que monstro...
_ Ela está doente Anne, agora eu sei, e pode inconscientemente causar mais catástrofes. Não faria isto se estivesse em estado normal. Te mostrei isso para que tome providencias para que ela seja tratada. Não a odeie pelo que ela me fez, perdoe-a. Eu a perdoei.
Anne não conseguiu dizer nada, um caldeirão de sentimentos cozinhava em sua mente, mágoa, surpresa, dor... Ele então a abraçou forte e carinhosamente, um abraço de despedida.
_ Anne, está na hora de ir. – ele sentiu que ela também o abraçava mais forte – Mas pode ter certeza de que um dia nós estaremos juntos novamente e para sempre.
_ Não. – disse Anne se jogando aos pés dele, - Por favor, não quero ir. Quero estar onde você estiver, não...
_Anne, acredite, estarei sempre com você, dentro do seu coração. Jamais a abandonarei.
Anne fechou os olhos e com isso mais lágrimas escorreram e quando os abriu para encará-lo decidida a lutar pra ficar com ele, se vira deitada sobre o tumulo.
Então de ombros caídos e coração em frangalhos partiu com os primeiros raios solares, indo pra um lugar onde mais dor e sofrimento a esperavam.


4.

Quando chegou em casa e encarou o rosto tão inocente da irmã teve de se segurar para não espanca-la e estrangula-la até a morte mas conseguiu se conter, não iria adiantar nada. Ela então desnorteada, contara para sua mãe e a louca inconseqüente onde estivera e o ‘sonho’ que tivera. Anita, cheia de raiva e remorso, confessara tudo e depois daquilo a loucura que estava discretamente dentro dela até então, se explodiu como uma bomba e naquela mesma semana fora examinada, incriminada e internada num manicômio.

5.

Dias depois Anne se encontrava com um buquê de flores no manicômio com sua mãe.
Quando chegaram ao quarto de segurança onde estava a assassina, um enfermeiro sério e lacônico terminava de medicá-la e quando se retirou, ela disse com os olhos distantes e sonhadores:
_ Ele está louquinho por mim mamãe... Acho que ele quer mesmo é cuidar daquilo que tenho entre as pernas.
Ela então se encolheu na cama, soltou uma gargalhada descontrolada e sem emoção.

E nos dias que se seguiram, Anne se encontrava cada vez mais em paz consigo mesma. Ainda sentia a dor da perda de Dick e até pela loucura da irmã, mas a cada dia que passava se sentia mais forte e a única coisa que a consolava nas noites em que não conseguia dormir, era pensar que um dia, sim, um dia ela estaria novamente com ele, e os dois cavalgariam no paraíso por toda eternidade no êxtase da paz e da união.

FIM

de Bruno Wolff