quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Uma história (macabra) de amor.


30 de outubro de 1960...


leiam ouvindo:

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Halloween de 1960

O sol já ia se escondendo atrás das montanhas ao longe e por conseqüência as inúmeras estrelas do céu começavam fracamente a brilhar. Pássaros se despediam do dia com vôos rasantes e numa simples casa de campo, onde nosso conto começa, um casal ria descontraído na varanda enquanto o vento de fim de tarde abraçava-os e brincava com os objetos de Halloween como caras de abóboras e bonecos de palhas que jaziam espalhados por toda a varanda.
_ Você é hilário!- dizia a moça aos risos chacoalhando a velha cadeira de madeira em que se sentava - Vamos Gabriel, conte-me mais uma piada!
_ Ok, Sabrina! - Gabriel então que estava sentado á um banco de frente pra ela estalou os lábios e contou - A aeromoça oferece bebida a um gay que está sentado ao lado de uma freira dentro de um avião. O gay chique, lógico pede uísque escocês com gelo."Aceita o mesmo que ele, irmã"? Pergunta a aeromoça à religiosa. A freira fica indignada. "Prefiro ser agarrada selvagemente e estuprada por um negão do Pelourinho, daqueles de dois metros de altura, do que botar uma gota de álcool na boca!" O gay escuta e devolve o uísque à aeromoça dizendo "Desculpe! Eu não sabia que tinha essa outra opção. Também quero o negão!"
Sabrina não cabia em si de tanto rir, com as mãos na barriga se mexia pra frente e pra trás enquanto Gabriel a observava sorridente.
_ É por isso que te amo, você é especial! - disse ela após se conter do riso - Com você me sinto bem. É como se eu estivesse num sonho, daqueles em que não queremos acordar.
_ Eu também te amo Sabrina! - disse ele segurando as mãos dela - Pena que uma grande barreira nos impede de ficarmos juntos!
_ Uma barreira! - disse ela se arrepiando ao seu toque - Com a força do nosso amor iremos destruí-la...
_ Estamos falando de seu pai Sabrina. Quando ele descobrir que sua boneca de louça está namorando um pobre humilde que trabalha pra ele...
_Ele vai ter de aceitar! Sei bem o que quero e nada meu amor, nada nesse mundo vai nos impedir de nos amarmos, de ficarmos juntos, - Gabriel abaixou a cabeça, escondendo as lágrimas - de enchermos esta casa de filhos. Não demorará, e contarei a ele. Direi a verdade, que te amo e é com você que quero ficar.
_ Quanto ao rapaz que ele diz em lhe apresentar...
_ Não me interessa. Nem um outro, por mais rico, bonito... ou que quer que seja, fará com que eu o apague do meu coração. Já disse, é com você que vou ficar, aconteça o que acontecer. É uma promessa.
Os dois então se abraçaram. Gabriel acariciava com os lábios o pescoço de Sabrina enquanto ela deslizava as mãos nas costas dele. Se arrepiavam aos toques, até que seus lábios se encontraram e o fogo da paixão aumentou. Gabriel se levantou, pegou-a no colo e a levou pra dentro do seu barraco. Pousou-a delicadamente na cama quase dominada por traças enquanto mordiscava de leve seus lábios.
_ Não sei se devo - disse ela enquanto ele desabotoava sua blusa com os lábios.
_ Vou entender se você não quiser. Primeira vez... Pode não estar preparada...
Sabrina o contemplou, pensou por um momento e disse:
_ Não. Depois que vencermos a futura guerra contra meu pai, nos casaremos e teremos bastante tempo...
_ Com certeza meu amor! - disse parando de despi-la - Teremos tempo, eu esperarei.
Os dois então ficaram deitados ali, conversando, até que a escuridão tomou conta do quarto e Gabriel voltou até a varanda e pegou duas caras de abóboras, acendeu-as no quarto, pois não havia energia elétrica, e pousando a cabeça de Sabrina em seu peito, os dois adormeceram.

Tempo depois um Rolls Royce preto parou defronte á casa de Gabriel, levantado poeira.
_ Vamos depressa Igor, - disse um velho gorducho. Vestia o mais fino dos panos - Não quero ficar muito tempo aqui. Este lugar não me agrada.
_ Barão! – começou Igor ao volante e o barão se deteve encarando-o. - Não entendo o por quê que o senhor insiste em querer fazer isso ...
_ Cale-se - ordenou o velho gordo. - Há tempo estou irritado com ele. Há algo nele que não me agrada... É um bom funcionário admito, mas tenho sei lá... uma má intuição.
_ Isto é bobagem barão. Ele é bom homem, trabalhador... Deixe-o continuar a trabalhar...
_ Cale-se! - retrucou o gordo dando-lhe um pescotapa. _ Já decidi, vou demiti-lo, sim.
Os dois se dirigiram ao barracão. O barão andava na ponta dos pés pra evitar poeira nos seus lustrosos sapatos.
O gordo grã-fino parou na varanda, observou curioso os objetos de halloween e depois entrou no barraco sem bater na porta.
_ Ele não está - disse Igor satisfeito reparando o tugúrio silencioso.
_ Gabriel?! - chamou o barão. Não obteve resposta.
Ele então reparou na fantasmagórica luz que fugia da porta semi-aberta do quarto mais ao fundo e se dirigiu até ela. A poeira do chão de madeira abafava o som dos sapatos dos intrusos. Entreabriu a porta do quarto devagar e chamou secamente:
_ Gabriel?! Está ai? Quero falar com você!
Novamente não obteve resposta. Entrou no quarto seguido por seu motorista.
A boca do barão se escancarou, seus olhos de tão grandes se faziam ver brilhando malignamente no quarto, estavam fixos na cama.
_ NÃOOOOOO ACREDITO - berrou – DESGRAÇADOS. VOU MATAR OS DOOOOISSS.
Gabriel e Sabrina acordaram assustados com o berro, mas se assustaram mais ainda quando viram quem estava ali diante deles.
_ VAGABUNDA - disse o barão se dirigindo a Sabrina enquanto ela abotoava a blusa - E EU PENSANDO QUE VOCÊ ESTAVA NA FAZENDA DE SUA AVÒ.
Ele então violentamente a puxou pelo braço, esbofeteou seu rosto e a jogou rumo á porta.
Gabriel tentara ajuda-la mas fora em vão, quando se levantou recebera um soco daquele punho gordo na cara e caiu tonto na cama.
_ Barão... - disse ele ofegante, seu nariz sangrava - Posso explicar...
_VÁ SE EXPLICAR NO INFERNO COM O DIABO FILHO DA MAE... COMO OUSA... MINHA... MINHA FILHA...
_ Papai eu o amo. Não contei pro senhor antes, pois fiquei com medo da reação, mas estava me preparando...
_ CALA ESSA BOCA DE CADELA - vociferou - NAO VAI EXPLICAR NADA, NAO TEM EXPLICAÇAO PRA UMA ATROCIDADE DESSAS...
_ Barão, por favor - Gabriel se levantara novamente, tentando estancar o sangramento com a mão - me desculpe mas tente entender...
_ CALE-SE SEU MONTE DE BOSTA! - ignorou-o - IGOR, LEVE JÁ ESSA CADELA IMUNDA PRO CARRO.
Igor assistia a cena transtornado, com impulsos de ajudar o casal, mas o medo era maior, poderia levar também uma bofetada do patrão caso agisse pra evitar que ele fizesse o que estava fazendo. Atordoado, ergueu Sabrina do chão, mas ela se desvencilhou e foi se postar diante do pai.
_ Pai, por favor me ouça...
Novamente o barão ergueu o pulso gordo e desferiu um novo tapa na cara da filha, esta caiu no chão, quase inconsciente. Gabriel sentia as dores dela e fazia caretas. O motorista aproveitando da vulnerabilidade da moça a levou pra fora.
_ Sinto muito barão... amo sua filha... ela também me ama. Iríamos contar pro senhor sobre nosso namoro, mas eu juro, não a desvirginei, ela é uma moça direita...
_ EU ESTAVA CERTO QUANTO AS MINHAS MÁS INTUIÇÕES -disse o barão mais para si mesmo - IMAGINA SE PERMITIREI QUE MINHA FILHA SE JUNTE COM UM PORCO, UM POBRETÃO QUE NÃO TEM ONDE CAIR MORTO...
Ele então desferiu mais um soco na cara de Gabriel que caiu no chão tonto, em seguida pôs-se a golpear com os pés todo o corpo do pobre rapaz. Ele escutou, apesar das dores, Sabrina o chamava á distancia. Queria correr pros braços dela, pedir perdão por tudo àquilo que acarretara. Não se importava com o castigo que recebia, queria mais que tudo, que Sabrina ficasse bem.
Seus olhos embaçados devido a vermelhidão de sangue,viram depois de vários pontapés, o barão retirar do bolso uma peixeira e com um único golpe sentiu-a deslizar por sobre seu pescoço e após alguns segundos agonizantes, tudo ficou escuro.

Luz! Uma luz, no fim de um túnel... Vozes o chamavam "Venha Gabriel, venha para a luz". Ele se olhou, estava intacto. Usava as mesmas roupas, mas não tinha sequer um arranhão. Tornou a olhar pra luz, parecia tão irresistível, queria ir até ela... Precisava dela... mas, não! Sentia que não poderia. Abaixou-se no meio do túnel. Soluçava. Em seu coração uma dor escruciante o dominava... Perdera, perdera a amada, tudo acabado...

Enquanto isso, no barraco de Gabriel...

_ Porco inútil - disse o barão cuspindo no corpo de Gabriel ao chão. Andava de um lado para o outro. Coçava a cabeça tentando se acalmar pra decidir que fim daria áquilo tudo. Então, parando de súbito ao lado do corpo do pobre rapaz, sorriu nervosamente e decepou-lhe a cabeça com a poderosa peixeira e em seguida, pôs-se a esfaqueá-la selvagemente. Escorria baba de sua boca e esta se misturava ao sangue do rosto do infortunado amante.
O barão então se retirou do quarto, foi até a cozinha e encontrou um galão de querosene do qual Gabriel usava para acender o fogão á lenha. Com as mãos tremulas, espalhou-o por toda a casa, depois se retirou com um sorrisinho infernal.
_ ESTÁ VENDO? MINHA FILHA - disse ele se dirigindo ao carro onde estava Sabrina amarada aos braços de Igor. Tinha as mãos sujas de sangue e o mesmo cobria-lhe a roupa cara. - VOCÊ!! SIM! VOCÊ É A CULPADA POR ISSO TUDO, OLHE SÓ, POR SUA CULPA - Ele nem sequer dava atenção aos berros da filha, nem em nada do que ela falava. Estava embriagado, embriagado de ódio - JAMAIS TENTE ME ENGANAR!
Ele então se abaixou, pegou um galho seco no chão e tocou fogo nele, depois sem hesitar, como se arremessasse um galho n'água, atirou-o na casa que se incendiou instantaneamente.
_ NAO..... PAI...

Num outro plano, Gabriel que estava encolhido no chão, se deparou com um dos donos da voz que o chamava. Era um anjo.
_Deixe-me voltar... implorava para o anjo celestial - Não posso deixar essa vida assim.
_ Você tem o direito de voltar, – disse o anjo serio - mas se for, será amaldiçoado. Não poderá levar a vida como entes. Você só saberá o que é quando chegar lá. Limito-me a dizer-te que não será nada bom, pois como disse, é uma maldição. A maioria nunca decide voltar, mesmo que desejem arduamente, pois sabem que não será fácil. Preferem ir para a luz deixando que o destino faça seu trabalho.
_ Mas todos se deparam com essa luz no fim do túnel? – ele quis saber.
_ Não. Os que tem a alma imunda de pecado se deparam com uma labareda de fogo no fim do túnel que leva ao lugar onde queimarão por toda eternidade. Esses não tem o direito de voltar, mas alguns, de algum modo, conseguem e então passa a causar pânico e tentação pela terra.
O anjo, reparando que Gabriel estava perdido em pensamentos disse:
_ Aconselho-te a seguir para a luz. Se voltar-te para o mundo dos vivos, carregará uma pesada cruz. Polpe-se.
Gabriel pensou durante alguns segundo e respondeu:
_ Quero voltar. Enfrento qualquer coisa... Preciso ficar ao lado da minha amada. Nem que me torne uma sombra ou um espírito gélido...
O anjo assentiu com a cabeça ainda muito serio e apontou para uma brecha negra de aparência líquida ás costas de Gabriel e este olhando-a entusiasmado e amedrontado, pulou nela.

O quarto de Gabriel estava infestado de fumaça. Os ratos da casa estavam agitados e assustados; corriam aqui e ali, não parecia ter saída pra eles. Um deles subiu no corpo de Gabriel, mas correra quase que na hora em que o corpo se levantou, escorrendo sangue pelo pescoço.
Aquele corpo decapitado então, cambaleado, se dirigiu às abóboras que ainda se encontravam acesas. O brilho delas lançavam na parede rostos de olhos e narizes triangulares e bocas recortadas com dentes pontiagudos. Ele a pegou, sentindo que precisava dela e pousou-a no pescoço. Aquilo pareceu ganhar vida, passou a ver, pensar e sentir com ela. Era a tal da maldição. Não seria como um homem normal.
Inspirando profundamente aquela fumaça gritou.
_ SABRINA...

Do lado de fora Sabrina que partia no Rolls Royce com seu pai, escutara o grito e se debatendo conseguiu se desvencilhar das garras do pai. Ela pulou do carro em movimento e se dirigiu correndo ao barraco em chamas. Parou diante dele. O fogo o consumia quase que por inteiro, iluminando aquela noite triste e escura de Halloween.
De repente, do meio das chamas e fumaça, surgiu um corpo com cabeça de abóbora e olhos chamejantes.
_ SABRINA! - gritou ele.
_ Estou aqui – respondeu acenando sem entender como aquilo falava com ela. Era realmente o homem que amava? Sim! Ela sabia.
Gabriel parou diante dela e ela acariciou seu novo rosto que chorava, estava translúcida, mas se sentia bem ao lado daquele novo Gabriel.
_ O que aconteceu? – perguntou ela confusa
_ A pergunta é: O que será daqui pra frente? – disse ele fitando- a com aqueles olhos triangulares.
_ Viveremos nosso destino. Como disse, sempre estarei contigo, aconteça o que acontecer. O amor é maior e supera tudo...
Então o Rolls Royce se aproximou. O barão e Igor ficaram sem reação ao ver Sabrina desaparecer na escuridão da densa floresta de mão dada áquele ser estranho. Igor não conseguiu parar o carro tamanha era a reação de seu medo e perplexidade, estava quase inconsciente.
O carro então seguiu em frente, bateu e explodiu no barraco em chamas.

FIM
Escrito em 26 de outubro de 2009 e revisado em setembro de 2010

de Bruno Wolff