quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Uma história (macabra) de amor.


30 de outubro de 1960...


leiam ouvindo:

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Halloween de 1960

O sol já ia se escondendo atrás das montanhas ao longe e por conseqüência as inúmeras estrelas do céu começavam fracamente a brilhar. Pássaros se despediam do dia com vôos rasantes e numa simples casa de campo, onde nosso conto começa, um casal ria descontraído na varanda enquanto o vento de fim de tarde abraçava-os e brincava com os objetos de Halloween como caras de abóboras e bonecos de palhas que jaziam espalhados por toda a varanda.
_ Você é hilário!- dizia a moça aos risos chacoalhando a velha cadeira de madeira em que se sentava - Vamos Gabriel, conte-me mais uma piada!
_ Ok, Sabrina! - Gabriel então que estava sentado á um banco de frente pra ela estalou os lábios e contou - A aeromoça oferece bebida a um gay que está sentado ao lado de uma freira dentro de um avião. O gay chique, lógico pede uísque escocês com gelo."Aceita o mesmo que ele, irmã"? Pergunta a aeromoça à religiosa. A freira fica indignada. "Prefiro ser agarrada selvagemente e estuprada por um negão do Pelourinho, daqueles de dois metros de altura, do que botar uma gota de álcool na boca!" O gay escuta e devolve o uísque à aeromoça dizendo "Desculpe! Eu não sabia que tinha essa outra opção. Também quero o negão!"
Sabrina não cabia em si de tanto rir, com as mãos na barriga se mexia pra frente e pra trás enquanto Gabriel a observava sorridente.
_ É por isso que te amo, você é especial! - disse ela após se conter do riso - Com você me sinto bem. É como se eu estivesse num sonho, daqueles em que não queremos acordar.
_ Eu também te amo Sabrina! - disse ele segurando as mãos dela - Pena que uma grande barreira nos impede de ficarmos juntos!
_ Uma barreira! - disse ela se arrepiando ao seu toque - Com a força do nosso amor iremos destruí-la...
_ Estamos falando de seu pai Sabrina. Quando ele descobrir que sua boneca de louça está namorando um pobre humilde que trabalha pra ele...
_Ele vai ter de aceitar! Sei bem o que quero e nada meu amor, nada nesse mundo vai nos impedir de nos amarmos, de ficarmos juntos, - Gabriel abaixou a cabeça, escondendo as lágrimas - de enchermos esta casa de filhos. Não demorará, e contarei a ele. Direi a verdade, que te amo e é com você que quero ficar.
_ Quanto ao rapaz que ele diz em lhe apresentar...
_ Não me interessa. Nem um outro, por mais rico, bonito... ou que quer que seja, fará com que eu o apague do meu coração. Já disse, é com você que vou ficar, aconteça o que acontecer. É uma promessa.
Os dois então se abraçaram. Gabriel acariciava com os lábios o pescoço de Sabrina enquanto ela deslizava as mãos nas costas dele. Se arrepiavam aos toques, até que seus lábios se encontraram e o fogo da paixão aumentou. Gabriel se levantou, pegou-a no colo e a levou pra dentro do seu barraco. Pousou-a delicadamente na cama quase dominada por traças enquanto mordiscava de leve seus lábios.
_ Não sei se devo - disse ela enquanto ele desabotoava sua blusa com os lábios.
_ Vou entender se você não quiser. Primeira vez... Pode não estar preparada...
Sabrina o contemplou, pensou por um momento e disse:
_ Não. Depois que vencermos a futura guerra contra meu pai, nos casaremos e teremos bastante tempo...
_ Com certeza meu amor! - disse parando de despi-la - Teremos tempo, eu esperarei.
Os dois então ficaram deitados ali, conversando, até que a escuridão tomou conta do quarto e Gabriel voltou até a varanda e pegou duas caras de abóboras, acendeu-as no quarto, pois não havia energia elétrica, e pousando a cabeça de Sabrina em seu peito, os dois adormeceram.

Tempo depois um Rolls Royce preto parou defronte á casa de Gabriel, levantado poeira.
_ Vamos depressa Igor, - disse um velho gorducho. Vestia o mais fino dos panos - Não quero ficar muito tempo aqui. Este lugar não me agrada.
_ Barão! – começou Igor ao volante e o barão se deteve encarando-o. - Não entendo o por quê que o senhor insiste em querer fazer isso ...
_ Cale-se - ordenou o velho gordo. - Há tempo estou irritado com ele. Há algo nele que não me agrada... É um bom funcionário admito, mas tenho sei lá... uma má intuição.
_ Isto é bobagem barão. Ele é bom homem, trabalhador... Deixe-o continuar a trabalhar...
_ Cale-se! - retrucou o gordo dando-lhe um pescotapa. _ Já decidi, vou demiti-lo, sim.
Os dois se dirigiram ao barracão. O barão andava na ponta dos pés pra evitar poeira nos seus lustrosos sapatos.
O gordo grã-fino parou na varanda, observou curioso os objetos de halloween e depois entrou no barraco sem bater na porta.
_ Ele não está - disse Igor satisfeito reparando o tugúrio silencioso.
_ Gabriel?! - chamou o barão. Não obteve resposta.
Ele então reparou na fantasmagórica luz que fugia da porta semi-aberta do quarto mais ao fundo e se dirigiu até ela. A poeira do chão de madeira abafava o som dos sapatos dos intrusos. Entreabriu a porta do quarto devagar e chamou secamente:
_ Gabriel?! Está ai? Quero falar com você!
Novamente não obteve resposta. Entrou no quarto seguido por seu motorista.
A boca do barão se escancarou, seus olhos de tão grandes se faziam ver brilhando malignamente no quarto, estavam fixos na cama.
_ NÃOOOOOO ACREDITO - berrou – DESGRAÇADOS. VOU MATAR OS DOOOOISSS.
Gabriel e Sabrina acordaram assustados com o berro, mas se assustaram mais ainda quando viram quem estava ali diante deles.
_ VAGABUNDA - disse o barão se dirigindo a Sabrina enquanto ela abotoava a blusa - E EU PENSANDO QUE VOCÊ ESTAVA NA FAZENDA DE SUA AVÒ.
Ele então violentamente a puxou pelo braço, esbofeteou seu rosto e a jogou rumo á porta.
Gabriel tentara ajuda-la mas fora em vão, quando se levantou recebera um soco daquele punho gordo na cara e caiu tonto na cama.
_ Barão... - disse ele ofegante, seu nariz sangrava - Posso explicar...
_VÁ SE EXPLICAR NO INFERNO COM O DIABO FILHO DA MAE... COMO OUSA... MINHA... MINHA FILHA...
_ Papai eu o amo. Não contei pro senhor antes, pois fiquei com medo da reação, mas estava me preparando...
_ CALA ESSA BOCA DE CADELA - vociferou - NAO VAI EXPLICAR NADA, NAO TEM EXPLICAÇAO PRA UMA ATROCIDADE DESSAS...
_ Barão, por favor - Gabriel se levantara novamente, tentando estancar o sangramento com a mão - me desculpe mas tente entender...
_ CALE-SE SEU MONTE DE BOSTA! - ignorou-o - IGOR, LEVE JÁ ESSA CADELA IMUNDA PRO CARRO.
Igor assistia a cena transtornado, com impulsos de ajudar o casal, mas o medo era maior, poderia levar também uma bofetada do patrão caso agisse pra evitar que ele fizesse o que estava fazendo. Atordoado, ergueu Sabrina do chão, mas ela se desvencilhou e foi se postar diante do pai.
_ Pai, por favor me ouça...
Novamente o barão ergueu o pulso gordo e desferiu um novo tapa na cara da filha, esta caiu no chão, quase inconsciente. Gabriel sentia as dores dela e fazia caretas. O motorista aproveitando da vulnerabilidade da moça a levou pra fora.
_ Sinto muito barão... amo sua filha... ela também me ama. Iríamos contar pro senhor sobre nosso namoro, mas eu juro, não a desvirginei, ela é uma moça direita...
_ EU ESTAVA CERTO QUANTO AS MINHAS MÁS INTUIÇÕES -disse o barão mais para si mesmo - IMAGINA SE PERMITIREI QUE MINHA FILHA SE JUNTE COM UM PORCO, UM POBRETÃO QUE NÃO TEM ONDE CAIR MORTO...
Ele então desferiu mais um soco na cara de Gabriel que caiu no chão tonto, em seguida pôs-se a golpear com os pés todo o corpo do pobre rapaz. Ele escutou, apesar das dores, Sabrina o chamava á distancia. Queria correr pros braços dela, pedir perdão por tudo àquilo que acarretara. Não se importava com o castigo que recebia, queria mais que tudo, que Sabrina ficasse bem.
Seus olhos embaçados devido a vermelhidão de sangue,viram depois de vários pontapés, o barão retirar do bolso uma peixeira e com um único golpe sentiu-a deslizar por sobre seu pescoço e após alguns segundos agonizantes, tudo ficou escuro.

Luz! Uma luz, no fim de um túnel... Vozes o chamavam "Venha Gabriel, venha para a luz". Ele se olhou, estava intacto. Usava as mesmas roupas, mas não tinha sequer um arranhão. Tornou a olhar pra luz, parecia tão irresistível, queria ir até ela... Precisava dela... mas, não! Sentia que não poderia. Abaixou-se no meio do túnel. Soluçava. Em seu coração uma dor escruciante o dominava... Perdera, perdera a amada, tudo acabado...

Enquanto isso, no barraco de Gabriel...

_ Porco inútil - disse o barão cuspindo no corpo de Gabriel ao chão. Andava de um lado para o outro. Coçava a cabeça tentando se acalmar pra decidir que fim daria áquilo tudo. Então, parando de súbito ao lado do corpo do pobre rapaz, sorriu nervosamente e decepou-lhe a cabeça com a poderosa peixeira e em seguida, pôs-se a esfaqueá-la selvagemente. Escorria baba de sua boca e esta se misturava ao sangue do rosto do infortunado amante.
O barão então se retirou do quarto, foi até a cozinha e encontrou um galão de querosene do qual Gabriel usava para acender o fogão á lenha. Com as mãos tremulas, espalhou-o por toda a casa, depois se retirou com um sorrisinho infernal.
_ ESTÁ VENDO? MINHA FILHA - disse ele se dirigindo ao carro onde estava Sabrina amarada aos braços de Igor. Tinha as mãos sujas de sangue e o mesmo cobria-lhe a roupa cara. - VOCÊ!! SIM! VOCÊ É A CULPADA POR ISSO TUDO, OLHE SÓ, POR SUA CULPA - Ele nem sequer dava atenção aos berros da filha, nem em nada do que ela falava. Estava embriagado, embriagado de ódio - JAMAIS TENTE ME ENGANAR!
Ele então se abaixou, pegou um galho seco no chão e tocou fogo nele, depois sem hesitar, como se arremessasse um galho n'água, atirou-o na casa que se incendiou instantaneamente.
_ NAO..... PAI...

Num outro plano, Gabriel que estava encolhido no chão, se deparou com um dos donos da voz que o chamava. Era um anjo.
_Deixe-me voltar... implorava para o anjo celestial - Não posso deixar essa vida assim.
_ Você tem o direito de voltar, – disse o anjo serio - mas se for, será amaldiçoado. Não poderá levar a vida como entes. Você só saberá o que é quando chegar lá. Limito-me a dizer-te que não será nada bom, pois como disse, é uma maldição. A maioria nunca decide voltar, mesmo que desejem arduamente, pois sabem que não será fácil. Preferem ir para a luz deixando que o destino faça seu trabalho.
_ Mas todos se deparam com essa luz no fim do túnel? – ele quis saber.
_ Não. Os que tem a alma imunda de pecado se deparam com uma labareda de fogo no fim do túnel que leva ao lugar onde queimarão por toda eternidade. Esses não tem o direito de voltar, mas alguns, de algum modo, conseguem e então passa a causar pânico e tentação pela terra.
O anjo, reparando que Gabriel estava perdido em pensamentos disse:
_ Aconselho-te a seguir para a luz. Se voltar-te para o mundo dos vivos, carregará uma pesada cruz. Polpe-se.
Gabriel pensou durante alguns segundo e respondeu:
_ Quero voltar. Enfrento qualquer coisa... Preciso ficar ao lado da minha amada. Nem que me torne uma sombra ou um espírito gélido...
O anjo assentiu com a cabeça ainda muito serio e apontou para uma brecha negra de aparência líquida ás costas de Gabriel e este olhando-a entusiasmado e amedrontado, pulou nela.

O quarto de Gabriel estava infestado de fumaça. Os ratos da casa estavam agitados e assustados; corriam aqui e ali, não parecia ter saída pra eles. Um deles subiu no corpo de Gabriel, mas correra quase que na hora em que o corpo se levantou, escorrendo sangue pelo pescoço.
Aquele corpo decapitado então, cambaleado, se dirigiu às abóboras que ainda se encontravam acesas. O brilho delas lançavam na parede rostos de olhos e narizes triangulares e bocas recortadas com dentes pontiagudos. Ele a pegou, sentindo que precisava dela e pousou-a no pescoço. Aquilo pareceu ganhar vida, passou a ver, pensar e sentir com ela. Era a tal da maldição. Não seria como um homem normal.
Inspirando profundamente aquela fumaça gritou.
_ SABRINA...

Do lado de fora Sabrina que partia no Rolls Royce com seu pai, escutara o grito e se debatendo conseguiu se desvencilhar das garras do pai. Ela pulou do carro em movimento e se dirigiu correndo ao barraco em chamas. Parou diante dele. O fogo o consumia quase que por inteiro, iluminando aquela noite triste e escura de Halloween.
De repente, do meio das chamas e fumaça, surgiu um corpo com cabeça de abóbora e olhos chamejantes.
_ SABRINA! - gritou ele.
_ Estou aqui – respondeu acenando sem entender como aquilo falava com ela. Era realmente o homem que amava? Sim! Ela sabia.
Gabriel parou diante dela e ela acariciou seu novo rosto que chorava, estava translúcida, mas se sentia bem ao lado daquele novo Gabriel.
_ O que aconteceu? – perguntou ela confusa
_ A pergunta é: O que será daqui pra frente? – disse ele fitando- a com aqueles olhos triangulares.
_ Viveremos nosso destino. Como disse, sempre estarei contigo, aconteça o que acontecer. O amor é maior e supera tudo...
Então o Rolls Royce se aproximou. O barão e Igor ficaram sem reação ao ver Sabrina desaparecer na escuridão da densa floresta de mão dada áquele ser estranho. Igor não conseguiu parar o carro tamanha era a reação de seu medo e perplexidade, estava quase inconsciente.
O carro então seguiu em frente, bateu e explodiu no barraco em chamas.

FIM
Escrito em 26 de outubro de 2009 e revisado em setembro de 2010

de Bruno Wolff

domingo, 27 de setembro de 2009

Show de Horrores












Há certos acontecimentos que ficam gravados na memória por toda a vida. Não importa se você se dedica a esquecer, ou se tem mais de um século ou até mesmo mal de alzheimer. Aquela lembrança vai sempre te acompanhar, como um fantasma vingador a te assombrar diariamente. Digo isso porque há algo que eu anseio por esquecer. É uma maldita sexta feira 13. Sempre, quando lembro-me daquela noite, mesmo depois de sessenta anos, não consigo controlar o frio na espinha e o arrepio que me invade a nuca.
Vou contar-lhes como foi. Não espero que dêem crédito a esta estória. Parecerá mais um conto de Bruno Wolff. Mas digo-lhes agora, não fora somente eu que passei pelo que vou lhes narrar. Creio que alguns morreram e os que sobreviveram, bem... ficaram meio estranhos e bizarros. Eu por outro lado... bem vocês vão saber.

Naquela época tinha dezoito anos e estudava á noite. Era um sacrifício enorme pois morava num sítio á três quilômetros da escola. Ia e voltava todos os dias a pé. Não havia condução para me levar, pois era o único daquela redondeza que estudava e além disso a prefeitura não achava nem longe e nem perigoso pra um jovem caminhar por lá sozinho á noite. Idiotas inúteis.
Juro que se não tivesse sonhos jamais me daria ao trabalho de fazer aquele percurso perverso.
A estrada era de terra. As árvores ao redor sempre lançavam sensação de que houvessem vários olhos me espiando. Mas isso até que não me incomodava tanto e sim ter de passar em frente ao cemitério. Durante aqueles anos nunca havia acontecido nada de excepcional, mas, naquela funesta sexta-feira fora diferente.
Voltava pra casa depois da aula em companhia de meu inseparável companheiro, o medo. O ar estava parado, deixando as árvores imóveis. Nem mesmo uma única folha balançava em seus galhos retorcidos e secos. A lua era uma pequena fatia de queijo brilhante no céu. O breu era quase total. Tentava ao máximo ignorar os ruídos que os animais faziam. Isso tudo deixava o lugar mais assustador. Pelo menos tinha uma lanterna, esta segurava á minha frente, evitando ao máximo clarear pelos lados.
Quando me aproximava do cemitério, como sempre meu coração disparou, tremia e fazia de tudo pra tentar ignorá-lo, mas não obtive êxito. Ao me aproximar do portão cemiterial, ouvi algo que me fez perder as forças, ficando parado ali, imóvel. Tinha ouvido uma risada baixa, vinda do portão. Minhas pernas naquela hora em que mais precisava se recusavam a me obedecer e ainda por cima minha vontade era no mínimo não olhar pra lá, mas meus olhos comichavam de curiosidade horrorizada. Virei vagarosamente para ver o autor da risada, "Só pode ser um louco!" pensei.
Mirei então a lanterna no portão do cemitério e vi apenas o que deveria ter num, mas depois de um momento percebi algo se mexer a um ponto a minha esquerda e o iluminei. Achei ter visto uma silhueta de uma pessoa, mas sumira repentinamente.
Minhas pernas então pareciam ter tomado noção de estar ali. Comecei a andar. Minha lanterna apontada á frente, mas novamente ouvi a risada, desta vez mais alta.
Travei de novo. O pânico dominava minha mente, fazendo-a ficar centrada no medo e por conseqüência fazendo-me perder o sentido da caminhada. Então o que eu mais receava aconteceu, aquela risada fora substituída por palavras.
_ Ei garoto! Venha até aqui! Vamos nos divertir um pouco.
A voz era estranhíssima, um chiado alegre e quase infantil. Tentei me concentrar e fazer minhas pernas me obedecerem.
_ Venha, venha garoto, venha até o portão. - a voz dizia - Não tenha medo meninão, apenas quero lhe proporcionar um pouco de humor, venha, venha, venha...
Ouvindo aquelas palavras pronunciadas num tom alegre, perdi um pouco do medo. Pensei ser o vigia querendo me distrair e se distrair também da monotonia do trabalho, mas se naquela hora tivesse me lembrado de que jamais vira um vigia ali á noite, não teria ido até lá.
Ao me aproximar, iluminei tudo o que estava ao meu alcance, mas nada vi a não ser as lápides, mausoléus, a capelinha e curiosos anjos de pedra. Imaginei ser uma alma penada a me assombrar em plena sexta 13 e tomando conta disso me virei pra correr, mas ao fazer isso ouvi a voz atrás de mim.
_ Aqui estou meninão.
Me virei e mirei a lanterna onde tinha vindo o som da voz e o que vi me fez soltar um urro de pavor e em seguida ao recuar, cair sentado.
Aquilo não era um vigia e sim um palhaço, mas era terrível. Seu rosto era branquíssimo, com sobrancelhas negras e grossas que emendavam uma a outra. O nariz era uma bola preta, seus olhos eram misteriosos como a noite e a boca era um terrível rasgo vermelho. Vestia um macacão preto com uma camisa vermelha por baixo.
_ Não precisa ficar assustado meninão, - ele soltou uma gargalhada, mostrando 32 dentes afiados e podres, cobertos de puro limo - eu só quero brincar.
Não consegui dizer nada, apenas fitava-o aterrorizado à luz da lanterna.
_ Gosta de palhaçadas? - abriu o portão e se aproximou de mim. Eu estava com a bunda colada no chão poeirento incapaz de me mover - Vou chamar meus dois assistentes pra me ajudarem. Espero que goste e solte bastante gargalhadas hahahahah. Bill, Kittie vamos alegrar mais um coração hahahahahaha.
O pior ainda estava por vir!
Veio até nós então e parando diante de mim uma caveira desengonçada de uns dois metros de altura e um fantasma de uma velha, esta vestia uma roupa surrada e tive certeza de que eram do início do século dezoito.
Ah, como desejei não estar ali! O que não daria pra fechar os olhos e ao abri-los me ver em segurança na minha casa. Mas era impossível, tinha que encarar o fato.
_ Fique atento meninão, se delicie com nosso espetáculo.
O palhaço tirou de dentro de um dos bolsos do macacão um enorme saco volumoso, "Céus como aquilo cabia naquele minúsculo bolso. Até hoje não sei!" e de dentro dele tirou algo que me fez sentir ânsia de vômito. Era a cabeça de um homem em avançado estado de decomposição. Tinha cabelos longos e grisalhos e a boca aberta revelava dentes quebrados. Lançava um cheiro terrível.
_ Vamos brincar um pouco..., companheiros, aos seus lugares.
Eles então formaram um círculo.
Fez então alguns malabares com a cabeça de puro podridão, deixando-me tonto. Depois jogou-a para o esqueleto, este também brincou um pouco com ela. A velha fantasma parecia ansiosa para mostrar o que sabia fazer com ela, mas quando o esqueleto a jogou pra ela, foi até engraçado, a cabeça a atravessou indo cair e rolar no chão. Ela ficara contrariada.
_ Querida, que pena! Não pôde segurar a cabeça...- disse o palhaço - Vamos pro próximo número.
Tirou então do bolso traseiro um saquinho de pão e cobriu a cabeça do esqueleto. Em seguida tirou uma cabeçinha de boneca.
_ Vai me ajudar nesse número meninão.
Segurou meu braço e depositou a cabeça da boneca na palma da minha mão e cobriu-a com um lenço vermelho. Pôs-se a gesticular as garras sobre o lenço e pronunciou algo que não pude entender. Senti a cabeça da boneca pesar, parecia crescer. Depois então o palhaço parou de se 'esquesitar' e arrancou o lenço, e pra minha surpresa lá estava o crânio do esqueleto. Ria, fazendo um barulho engraçado com a boca óssea, atirei-o ao chão.
_ Coitado! - exclamou a mulher fantasma ao ver a cabeça de seu companheiro rolar na poeira.
_ Surpreso? - perguntou o palhaço - ainda não acabou.
Foi até o esqueleto e retirou o saquinho e lá estava a cabecinha da boneca que piscava e sorria para mim horrivelmente.
Não pude deixar de rir nervosamente, era hilário.
O palhaço então voltou a cobrir a nova cabecinha do seu assistente com o saquinho e pegou o crânio no chão, cobriu-o novamente com o lenço e pronunciando algumas palavras estranhas, desfez o "truque". O saquinho de pão foi retirado e lá estava a cabeça original do esqueleto. Ao apalpá-la percebendo que era a sua, pôs-se a dançar debilmente satisfeito.
_ Esta gostando meninão? - perguntou o palhaço reparando minha expressão, - relaxe e goze! Ainda não acabou. Assistentes preparem-se para o próximo número.
O palhaço então começou a cantar uma música em que falava de animais e toda vez que ele falava o nome de um, o fantasma e o esqueleto imitavam o animal. Na música tinha uma cobra com dor de barriga; um peixe com coceira na espinha; uma galinha botando um ovo de avestruz e vários outros animais em situações estranhas e engraçadas.
Os assistentes davam o máximo de si. Eram bons imitadores, devo admitir.
Então, o inesperado aconteceu. Quando o palhaço terminou de cantar a música, disse:
_ Ao próximo número! - o sorriso desapareceu e seus olhos ficaram terrivelmente cheios de maldade assassina: - Confesso-te garoto que é um dos que mais gosto porque terá 100% de sua participação e o que é melhor: teremos algo seu para nossa coleção. - e apontou para o saco no chão.
Gelei.
O palhaço pegou novamente o lenço vermelho e de um outro bolso tirou um nojento filhote verde de cobra. Ia me levantar para correr, mas o palhaço pôs o pé enorme sobre meu colo impedindo-me de levantar. O assistente desengonçado veio atrás de mim, segurou minhas mãos ás costas com uma única mão fria. Me debatia tentando me livrar de tudo aquilo, mas foi inútil.
O mágico dos infernos pôs-se balbuciar palavras á minha frente. Senti então um formigamento na minha parte íntima. Céus ele ia substituir o meu peru por aquela cobra horrenda!...
Pus-me então a rezar. Implorava a Deus pra ser salvo e milagrosamente fui atendido. Ao longe ouvi um barulho de sucção, os de pneus de um automóvel triturando cascalho. As pestes ao meu redor logo se deram conta disso. O palhaço parou de balbuciar, o formigamento cessou e fui solto das garras do esqueleto.
_ Que pena meninão, não vai dar pra terminar o número. - disse o palhaço sem graça.
_ Haaa que pena - lamentou a velha fantasma - queria tanto ver um peru!...
Então os três se afastaram cantando e dançando. "Pela escuridão da noite vivemos a vagar, a procura de um desprevenido pra nossos números mostrar".
Me levantei e corri para a estrada, gesticulando pro carro parar.
Ao parar vi que era o carro de um velho, vizinho meu.
_ Jordãnio, já devia estar em casa. - disse-me – O que faz aqui agora?
_ Você não vai acreditar! Vamos, não quero ficar nem mais um minuto aqui...
Partimos então, eu, totalmente e milagrosamente inteiro.

Fica então o aviso: Jamais andem sozinhos ás escuras á noite. O trio pode lhes aparecer pra substituir alguma parte do seu corpo.
Agora, ainda hoje me pergunto: O que será que ficou no lugar daquela cabeça em estado de decomposição?

FIM

de Bruno Wolff


Revisado em setembro de 2010

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Noite Conturbada





Não era a primeira vez que Jonas se deitava temeroso para descansar. Adorava ler livros e assistir a filmes de terror e isso sempre lhe causava certo “desconforto” na hora de dormir. Mas ele gostava daquela sensação de medo, de tensão, dos sustos, do pavor e principalmente dos fortes pesadelos que o terror lhe causava.
Naquela noite não tinha sido diferente, minutos antes de se deitar assistira a um filme ao qual contava a historia de um jovem roqueiro chamado Juste que ganhara de uma fã um relógio folheado a ouro do qual gostou muito. Mas o que não sabia era que aquilo havia sido um presente roubado. Aquela fanática fã querendo agradar ao ídolo dando-lhe um presente caro, mas sem poder comprar, rouba de um defunto o aparentável relógio. A historia se desenrola então numa perseguição terrível de um fantasma a esse roqueiro para obter aquilo que lhe pertence e a determinação da fã em conquistar seu ídolo.
O cérebro de Jonas ainda muito agitado para dormir registrava cenas do filme: “Juste deitado na cama num sono profundo, de repente acorda meio assustado com barulhos de algo se mexendo no corredor que dava para o seu quarto. ‘Animais imbecis” exclamou ele se referiando ao seu cão ou seu porco (sim, ele tinha um porco de estimação). O relógio brilhava á fraca luz do luar que provinha da janela. Voltou a dormir rapidamente, mas fora acordado sentindo uma forte preção sobre seu ombro e ao abrir os olhos, deparou com algo que o fez soltar um berro apavorado. Um outro par de olhos bem vermelhos e cheios de ódio encarava os seus, sustentados por um corpo fantasmagórico, nojento e em decomposição. A mão podre apartava fortemente o ombro de Juste. Os olhos vermelhos pousaram sobre o relógio...”
Jonas afastou essas imagens de sua cabeça, não queria perder tempo naquela noite pensado em cenas horripilantes, no outro dia tinha de acordar cedo pra ir pra escola , afinal, tinha 12 anos.
O garoto virou-se de lado e fechou os olhos, sentiu a agitação cessar e vagarosamente o sono começou a chegar... “Juste brandindo a mão direita tentando espantar o fantasma nervoso. De repente a assombração com um simples golpe com uma afiada faca, decepa a mão de Juste”...
Jonas abriu os olhos e sentou-se na cama frustrado. “Assim não da!” pensou. Olhando ao redor não consegui ver nada além da densa escuridão. “Estou seguro, na minha casa, nada de fantasmas decepadores de mãos...” Pensando isso esfregou o rosto nas mãos e jogou-se na cama. Mas as cenas do filme insistiam em repassar em sua mente.
“Juste tateando as paredes da cozinha procurando algo para se refugiar, de repente encontra seu frízer velho e desativado. Sem excitar entra dentro dele fechando a porta sem fazer barulho, mas de repente ela é aberta bruscamente. A única coisa que Juste via era um par de olhos vermelhos raivosos flutuando na escuridão”...
Jonas abrindo os olhos sentiu-se como se não tivesse o feito, levantou-se e entreabriu a porta de seu quarto para deixar uma nesga de luz entrar, pois a luz da copa que ficava defronte ao seu quarto, permanecia acesa. Ao voltar pra cama fez o sinal da cruz, deu uma olhada em volta do quarto, estava bem mais claro, sentiu-se mais tranqüilo. Poderia abrir a porta completamente para que a luz inundasse seu quarto, ou ate acender a sua, mas isso o atrapalhava a dormir, também já não era uma criança pra temer o escuro, e além disso, no fundo, gostava daquela sensação, mas desejou ardentemente ter companhia, nem que fosse seu gato.
Fechou os olhos e sem querer as cenas do filme persistiam: “Juste andando pelas ruas de um cemitério, segurando o relógio com sua única mão. De repente, pára em frente a uma lápide em que se lia” Aqui jaz Alfredo Ribeiro 25/04/1965 - 02/07/2007. Ele então deposita o relógio sobre a lápide, mas pela segunda vez é surpreendido por uma mão apertando seu ombro...”
Jonas se sentindo irritado abanara a mão sobre o rosto, como se quisesse espantar as cenas pavorosas. Decidiu se concentrar no final do filme que foi feliz, ( O roqueiro devolvera o relógio ao tumulo do fantasma ficando livre dele e ainda acabou se casando com aquela fã que inconscientemente lhe causara desgraças) e por conseqüência o sono abraçou-o.

De repete Jonas acordara sobressaltado. Sentou-se na cama. Os olhos esbugalhados percorriam o aposento. O peito arfava violentamente. Acordara com um ranger de... Olhou para a porta de seu quarto e se deu conta de que fora aquilo que o acordara, estava mais aberta do que a deixara, provavelmente uma rajada de vento empurrara e a fizera ranger, só isso. Jonas abriu um meio sorriso, tranqüilizou-se com esse pensamento e achando-se mais calmo, fechou a porta.
Voltou para a cama e tentou dormir. Sentiu o sono envolve-lo de novo, mas de repente... ‘Poff’...au’, dois sons ao mesmo tempo o acordara, um ‘poff’ que parecia algo batendo nas tabuas sob seu colchão, juntamente com um outro ruído mais baixo que na hora ele não conseguiu identificar, mas tinha certeza de que o barulho viera de debaixo da cama. Desta vez nem se sentou na cama, o quarto escuríssimo com a porta fechada deixou-o mais temeroso.
Cobrindo-se até o nariz apurou bem os ouvidos, não ouviu mais barulho. Achou que devia ter sonhado. Tranqüilizou-se e a adrenalina foi abaixando. Voltou a sentir o sono chegando aos poucos, mas de repente algo fez com que o pouco sono que chegara fosse embora num estalar de dedos. O garoto sentiu algo nos pés, ‘se mexendo’ lembrou-se de um filme em que.... ‘isso agora não!’.
Cobriu-se até a cabeça e ficou imóvel. Então sentiu de novo algo roçar seus pés e não parou por aí, a coisa foi subindo por entre suas pernas, sob a colcha. Jonas foi abrindo-as ainda mais para não encostar naquilo.
A ansiedade e a curiosidade acompanhadas pelo medo fizeram com que descobrisse a cabeça e olhasse, viu um calombo sob a colcha, avançando para cima dele, até que chegou em sua virilha. Ele sentiu o peso da ‘coisa’ subir e parar em sua barriga, pesava +- 1 kg. “O que será?” perguntava-se e um turbilhão de monstros passáva-lhe na mente.
Jonas incapaz de gritar e muito menos se descobrir para ver o que tinha sobre si, começou a tremer violentamente. Calafrios por todo o corpo; parecia que sua espinha havia congelado. ‘Onde está a sua coragem e aquela adoração pelo medo?” ouviu uma voz na sua mente dizer. Mas defrontando com a tal situação que antes acharia “da hora” sentiu que não gostava nada daquilo.
Só Deus sabia quanto tempo a ‘coisa’ permaneceria ali e o que ela iria fazer, ele não podia esperar, tinha que remover a colcha e se livrar daquele caroço ambulante.
Jonas não ia agüentar nem mais um minuto, tinha de fazer, tinha que sair daquela situação.
“Jogo a colcha pro chão e meto-lhe um tapa”, este foi seu plano e fechando os olhos, livrou-se da colcha e em seguida desferiu um golpe com toda força, uma força que nunca imaginara ter. Acertou a ‘coisa’ em cheio e a mandou longe, escutou-a bater na parede oposta e cair no chão, silenciosamente.
Fosse o que fosse já estava morto. Percebendo que não corria mais riscos, tremendo, levantou-se da cama e ascendeu a luz. Ficou indignado. O que vira o fez gritar, um grito sufocado e engasgado. Jazia no chão, uma criatura peluda, olhos azuis abertos sem nenhuma expressão e brilho, um filete de sangue escorria-lhe pela boca, era Tot, o gato de Jonas.

FIM

de Bruno Wolff